“Deus não virou chinês, Ele continua carioca” – Isto é Dinheiro

Análise do ILUMINA: Nada contra investimentos estrangeiros, mas, na entrevista do Dr. Tang já se percebe um certo tom de exigências fruto da situação de fragilidade brasileira.

Na opinião do ILUMINA há constatações evidentes no seu discurso:

  1. O Brasil está paralisado perante um estado corrupto e, apesar de todas as evidências, nenhuma reação concreta e definitiva foi tomada.
  2. O setor elétrico que, tradicionalmente, financiava sua expansão com recursos próprios e com tarifas bem inferiores às atuais, anulou essa possibilidade via MP 579 e está totalmente dependente de recursos externos.
  3. O “custo Brasil” que o entrevistado menciona inclui o custo da energia, que, para um país de matriz renovável é um ponto fora da curva.
  4. Capitais externos são bem-vindos, todavia é evidente que, dada a fragilidade de alguns setores, a exigência de retornos trará mais aumentos de custos.
  5. O país não tem uma trajetória econômica definida. Portanto, um aprofundamento da economia produtora de insumos básicos é um cenário nada desprezível.
  6. Esse rumo não trará os empregos que necessitamos.
  7. Chama atenção a frase: A China não destrói empresas.

 


 

Entrevista CHARLES TANG, PRESIDENTE DA CÂMARA DE COMÉRCIO E INDÚSTRIA BRASIL-CHINA

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. As relações econômicas entre os dois países, no entanto, estão apenas esquentando. Segundo Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, os chineses estão aquecendo os motores. “Tem umas seis ou oito gigantes querendo vir para o Brasil que ninguém nunca ouviu falar”, diz Tang. Há muito interesse na área de infraestrutura, especialmente no setor de energia, no qual já foram feitos grandes negócios, como a compra da CPFL pela State Grid. Porém, existem outros setores em que a segunda maior potência econômica do mundo tem interesse, entre eles o agronegócio.

O problema está na legislação brasileira que proíbe a compra de terra por estrangeiros e precisa mudar, segundo Tang. “Os nossos vizinhos na América Latina e alguns países africanos agradecem muito a bondade brasileira de espantar esses investimentos”, afirma, com ironia. Além desse obstáculo legal, o que pode atrapalhar a vinda dos chineses é a continuidade da crise política e o famoso custo Brasil. “Se não baixar o custo, o Brasil nunca vai sair do modelo econômico de pobreza”, diz. “O Brasil tem de ser mais amigável ao negócio.” Confira a entrevista:

DINHEIRO – Recentemente, houve algumas grandes compras de empresas brasileiras por chinesas, como a da CPFL pela State Grid. Há mais empresas da China interessadas em investir no Brasil?

CHARLES TANG – Todo mundo aqui conhece a State Grid e a CTG (China Three Gorges, que comprou os ativos da Duke Energy no Brasil). Mas tem umas seis ou oito gigantes chinesas que ninguém ouviu falar querendo vir para o Brasil. A terceira maior geradora de energia da China, por exemplo, está interessada em instalar um parque eólico de 700 megawatts. Tem gente interessada em saneamento. Fora a parte de ferrovias. O fato é que a onda de investimentos vai começar. Tem várias áreas novas em que os chineses estão chegando.

DINHEIRO –A área de infraestrutura é o principal interesse?

TANG – Não somente. Há um interesse no agronegócio. O objetivo é dar segurança alimentícia para o povo chinês. Mas a proibição da compra de terra por estrangeiros restringe esses investimentos. Acredito que os grandes fazendeiros daqui não querem essa concorrência. Mas isso é uma falácia. É um nacionalismo antinacionalista, porque a única coisa que evitou foi a entrada de US$ 90 bilhões em investimentos. Os nossos vizinhos na América Latina e alguns países africanos agradecem muito a bondade brasileira de espantar esses investimentos.

DINHEIRO – A China, historicamente, apresenta níveis elevados de corrupção. No atual momento brasileiro, isso não pode ser um problema?

TANG – Mais de 100 mil oficiais chineses foram presos por corrupção, nos últimos anos. Mas, lá, não se destruiu uma empresa. Os corruptos têm de ir para cadeia. Agora, o que não pode é quebrar companhias e causar 13 milhões de desempregados. Por que a empresa e os empregos são patrimônios da sociedade, não do acionista. Na China, anos atrás, toda a liderança da CNPC, maior empresa de petróleo do país, acabou presa. Então, foi colocado outro presidente e toca-se a vida. Por causa de 70 executivos, não dá para destruir o País e deixar milhares de pessoas desempregadas.

DINHEIRO – Os chineses estão interessados em comprar alguma das empresas envolvidas na Lava Jato?

TANG – Depois da leniência, sim. Há negociações com a Camargo Correa.

DINHEIRO – Há dúvidas, ainda, quanto ao modelo de investimento chinês, especialmente em relação ao meio ambiente. De que maneira a China pretende trabalhar no Brasil?

TANG – Da mesma forma do que no resto do mundo. Os chineses, hoje, têm uma legislação ambiental severa. Milhares de empresas foram fechadas por serem poluentes. O uso de termoelétricas a carvão caiu. A China é o maior produtor de energia renovável do mundo. Acho que os chineses certamente respeitam as restrições e as leis de cada país. A diferença é que a China não manda os fuzileiros, manda seus empresários. Não desperdiça sangue. Por onde os chineses passam, há desenvolvimento e prosperidade.

DINHEIRO – A China é o maior parceiro comercial de mais de 100 países, o que a coloca em uma posição de muito poder…

TANG – Certa vez, um jornalista britânico me perguntou se a China é o novo mestre colonial do mundo. Eu respondi que os antigos mestres coloniais da África sugaram a riqueza da região. A África foi o continente perdido por anos, até que os africanos decidiram investir em infraestrutura e tiveram as maiores taxas de crescimentos da década. E isso graças à participação dos chineses. A China vai investir trilhões de dólares na África e deixará um legado de desenvolvimento.

DINHEIRO – Isso vai acontecer, também, no Brasil?

TANG – Só nos próximos 12 meses, eu prevejo uns US$ 20 bilhões de investimentos chineses. Mas só um projeto no qual estou trabalhando, que ainda não posso revelar, pode dobrar esse valor.

DINHEIRO – O que pode atrapalhar esses investimentos?

TANG – A continuidade da instabilidade política econômica e a não redução do custo Brasil. Eu não conheço o presidente Temer, mas acho que, para um político, aceitar tomar medidas impopulares em benefício do País, é muito difícil. Se não baixar o custo, o Brasil nunca vai sair do modelo econômico de pobreza. Esse é o problema. Tudo que gera pobreza a gente inclui no nosso modelo econômico. Isso pode atrapalhar. O Brasil tem de ser mais amigável ao negócio.

O empreiteiro Marcelo Odebrecht modernizou o setor de propinas do grupo, mas foi condenado e perdeu quase 100 mil funcionários

DINHEIRO – Como deve ser o modelo econômico, na visão dos chineses?

TANG – Muito diferente. Em 1974, quando Brasil e China reataram relações, o Brasil era cinco vezes mais próspero. Hoje, a China é oito vezes mais próspera do que o Brasil. Deus não virou chinês, Ele continua carioca. Acontece que, aqui, temos duas visões econômicas que levam à pobreza. A nossa centro-direita acredita que, a cada dois anos, é necessário quebrar todas as empresas com juros altos para preparar o caminho para o desenvolvimento sustentado. Tentamos isso mais de 20 vezes, em trinta anos, e nunca deu certo. Mas somos muito persistentes. A nossa centro-esquerda, por sua vez, ainda tem apego a dogmas socialistas que a China jogou na lixeira há 40 anos para começar a crescer. Eu sempre digo que a gente nunca permitiu ao Brasil crescer. Toda a vez que a nossa economia ameaça subir, vamos correndo aumentar a taxa de juros para manter a tal da estabilidade monetária. Como vai crescer? A China avançou porque colocou a prosperidade a qualquer custo e adotou políticas econômicas pragmáticas e não dogmáticas. Não interessa se usamos capitalismo ou socialismo, desde que alcancemos a prosperidade. Mesmo à custa do principal dogma do comunismo, que é a igualdade – aliás, tudo o que os comunistas conseguiram foi igualar a pobreza – e mesmo com impactos ambientais severos.

DINHEIRO – No Brasil, a prioridade não é a prosperidade?

TANG – Nossa prioridade nunca foi a prosperidade, sempre foi a estabilidade monetária, mesmo à custa da nossa pobreza sustentada. No tempo do Fernando Henrique Cardoso, tomamos um PIB inteiro emprestado do FMI (Fundo Monetário Internacional) e queimamos para manter a estabilidade. Qualquer fiscal do fundo que vinha para o Brasil era a esperança da nação. Pagar esses juros altos é o que cria o déficit fiscal do governo. O consenso de Washington, que era forçado pelo FMI a todos os países, tem partes boas, como as privatizações. Mas tem uma parte perversa, que é a estabilidade monetária. Os tigres asiáticos, que nunca seguiram a cartilha do FMI, entenderam que o caminho não é esse. É óbvio que se você aumenta os juros, quebra todas as empresas e baixa a inflação. Só que, o capítulo dois diz que, se você baixar o custo do país, consegue baixar a inflação e estimular a prosperidade. Nossos economistas não leram o capítulo dois.

DINHEIRO – Agora, durante o governo de Dilma Rousseff, foi tentado algo parecido, e não deu certo…

TANG – Ela tentou, de maneira errada, reduzir o custo Brasil. Mandou baixar os juros, mandou fazer a desoneração fiscal, mas para alguns segmentos da economia. Forçou a quebra do monopólio dos estivadores. Mas não é assim que funciona a economia. Enfim, ela percebeu a necessidade de se reduzir o custo Brasil, mas fez tudo de maneira muito atabalhoada.

Lula, Dilma e Guido Mantega erraram ao tentar reduzir o custo Brasil. Para Tang, a centro-direita também exagera nos juros

DINHEIRO – Hoje, a discussão econômica no Brasil segue polarizada entre essas duas visões que, na opinião do sr., levam à pobreza?

TANG – A esquerda brasileira sempre quis distribuir a riqueza que nós não temos, em vez de criar riqueza. Aí causa um déficit gigantesco. A gente vê como o governo atual está tentando tirar as amarras da economia brasileira. Nossa legislação trabalhista é da década de 1940, o mundo mudou muito desde então. A legislação previdenciária quebra qualquer país. Está sendo uma batalha mudar isso, porque nosso povo ainda acredita que dá para dividir a riqueza que não possuímos. Temos de criar riqueza para poder distribuí-la, como a China fez. A maior conquista dos direitos humanos foi obtida pelos governos chineses, desde Deng Xiaoping. Mais de 700 milhões de pessoas deixaram a miséria. Isso é a maior conquista da história. A essência dos direitos humanos é permitir que as pessoas tenham o mínimo de dignidade.

DINHEIRO – Há, no entanto, muitos problemas relacionados a liberdades individuais na China…

TANG – Se hoje houvesse voto na China, o Partido Comunista ganharia com larga maioria. A verdade é que o povo chinês, em seus mais de cinco mil anos de história escrita, nunca viveu tão bem quanto agora. Você pode achar o que quiser do partido, mas não pode dizer que não é competente. Em uma geração, transformaram uma grande miséria na segunda maior economia do mundo, caminhando para ser a primeira.

DINHEIRO – Daria certo um modelo desses no Brasil, considerando que não temos a capacidade de mobilização do Partido Comunista chinês?

TANG – Eu já trabalhei em oito países. Nunca vi um povo mais patriota e disciplinado do que o Brasileiro. Vou explicar e ressalto que não bebi no almoço (risos). Não existe, no mundo, um povo que mais necessita de sonho e esperança do que o brasileiro. Por isso, o brasileiro sacrifica qualquer coisa. No apagão, todo mundo bateu continência. No confisco do Collor, ninguém gostou, mas era para o bem da nação. Faz isso na China para ver o que acontece. No Plano Cruzado, todos queriam ser fiscais e laçar boi no pasto. Na época do Castelo Branco, todos queriam doar ouro para pagar a dívida externa. O Brasil é tão fácil de mudar que o Juscelino Kubitschek, em um só governo, transformou uma sociedade agrária em uma economia industrial; o Collor, em meio governo, mudou a cabeça do povo. A cada malfadado plano, nós fizemos profundas reestruturações na estrutura financeira do País, e sempre contando com o sacrifício do povo. O que falta para nós é saber como fazer para o País prosperar e ter um líder capaz de fazer isso.

DINHEIRO – Michel Temer é esse líder?

TANG – Ele está sacrificando sua popularidade para aprovar medidas que são necessárias. Vamos destravar o Brasil. Esse é o fundamento para o crescimento. Se você analisa como cresceram Japão, Coreia, China, etc, verá que a questão do custo é central. Todos começaram exportando bugigangas a preços baixos. Com essa receita, alavancaram o crescimento deles. O Brasil é um País abençoado, só não tem uma visão econômica abençoada por Deus. E não existe um povo que aceita tantos sacrifícios para o bem de um país.

DINHEIRO – Há quem acredite que isso seja uma passividade excessiva, na realidade.

Não é?

TANG – Não. Um milhão de pessoas protestaram na avenida Paulista. Isso não é passividade. É a necessidade do sonho e da esperança de dias melhores.

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