Os Sintomas

O Ilumina sempre insiste em dizer que a “lógica” do setor elétrico é um dos maiores mistérios que pairam sobre a cabeça dos consumidores. Um dia a história há de relatar como se complicou e encareceu um sistema onde todos os brasileiros (com exceção de uma pequena parte na região norte) estão conectados por apenas quatro fios.

Você, que está lendo esta análise, tem na tomada de sua casa, um pino que está conectado eletricamente com o Ilumina, com a sede do seu time de futebol, com a escola de seu parente que mora distante, com o Ministro de Minas e Energia, com o Presidente da República, com a embaixada da Inglaterra….enfim….estamos todos no “mesmo barco”.

Essa conexão ocorre em qualquer país. Mas, na década de 90, o mundo passou a ver esse sistema sob a ótica da competição entre geradores e entre consumidores. Mesmo em países onde o sistema funciona há mais de 20 anos, é um tanto estranho essa estratégia, pois ela exige uma “fragmentação” de algo que é conectado. Ao contrário do que se pensa, esses “arranjos” já sofreram diversas mudanças. Só na Inglaterra, considerado país “símbolo” do sistema, 5 grandes alterações já ocorreram. Mas, apesar de certas imperfeições, o sistema funciona.

No Brasil, entretanto, a fragmentação foi muito além, pois, ao contrário dos sistemas com predomínio de base térmica, onde uma usina gera o que queima de combustível, aqui, usinas hidroelétricas trocam energia entre elas por grandes distancias. Isso sem contar as que estão no mesmo rio! Não tem jeito! Elas estão conectadas por uma realidade hidrológica tropical e, se fossem fisicamente “competir”, nós estaríamos com sérios problemas.

Para resolver o problema, criou-se um sistema de “certificados” por usina que “tenta” emular a situação de uma térmica com o seu combustível. Assim, foi criada a “Garantia Física”, um complexo cálculo que tenta fragmentar o todo. Hidráulicas e térmicas ganharam um valor fixo que, supostamente, age como o seu “limite” de “combustível”. É isso mesmo! As térmicas também têm um certificado que pode não corresponder ao seu combustível disponível!!

Aplica-se o mercado e “liquidam-se” grandes diferenças com o mundo real por um preço monopolista (PLD) calculado pelo operador do sistema. É isso mosmo o que se está lendo! O preço é MONOPOLISTA!

Infelizmente, não seria possível explicar essa complexidade em pouco espaço, mas o importante é ficar claro que esse “regulamento” é uma forte adaptação de outra realidade física.

Mas, o nosso assunto não é a modelagem! Queremos mostrar os “sintomas”.

Dito isso, é importante mostrar com dados concretos a situação do nosso “barco” administrado por essa lógica. O gráfico abaixo (em GWh) mostra a evolução da geração das 3 principais classes de usinas.

Hidroelétricas em azul

Térmicas em vermelho

Eólicas em verde.

Pontos importantes:

  • A queda de geração hidroelétrica pós 2012.
  • O aumento súbito de termoelétricas.
  • A geração, ainda pequena, das eólicas.

O outro gráfico essencial é o da carga.

Reparem que a curva preta (média de cada 12 meses) está estagnada desde 2014. A curva verde pontilhada seria a carga que teríamos se não estivéssemos nessa terrível crise. A diferença atual (crescente!) é de 4.000 GWh/mês. Desde 2014 os consumidores reduziram seu consumo esperado em cerca de 75 TWh (~ 12%).

E, qual é o resultado dessa “economia” (*)?

Reservatórios vazios! Hoje, temos guardado o equivalente a 55 dias de carga (1,8 meses)!

E, para finalizar, para o espanto geral e ao contrário do que dizem nossos reservatórios, temos SOBRAS de contratos!!!

A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) estima que as distribuidoras devem ficar com excesso de 9,1% da sua demanda contratada em 2017!

Adivinhem onde esse excesso vai parar?

Todo essa fragmentação e mimetismo, por mais evidente que sejam os “sintomas”, não vai sofrer modificações. A tal “Garantia Física” não será revista na proposta do MME que está em consulta pública, apesar de ser o “lastro” do “novo mercado”. A nossa opinião é que é ainda mais estranho fazer uma reforma com uma trena desacreditada.

Parece que estamos na mesma situação da nossa saúde pública. Sem diagnóstico, sem remédios e com médicos que, além de não ligar para o doente, não percebem que eles próprios estão no hospital.

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      4 comentários para “Os Sintomas

    1. José Antonio Feijó de Melo
      10 de agosto de 2017 at 13:53

      Pois é Roberto
      Perguntar-se-ia; “Mas é tão simples assim, por que não se corrige? Os técnicos (verdadeiros) estão aí para dizer o que se deve fazer. Por que não se faz?”
      Ah, porque tem “muita gente” se locupletando com tudo isto e ganhando muito dinheiro, mas muito mesmo. Assim, fica difícil quebrar essa corrente.

    2. Uriel
      11 de agosto de 2017 at 15:37

      Caro Roberto, o MME revisou para baixo as garantias “físicas” de UHEs para 2018, reduzindo a oferta em 1,4 GWm.
      Seria um bom sinal para o futuro?

      • Roberto D'Araujo
        11 de agosto de 2017 at 20:03

        Uriel;

        Penso que isso não faz nem cócegas no exagero desse certificado. O problema é estrutural.

    3. José Carlos Rosa e Silva de Abreu Vasconcelos
      11 de agosto de 2017 at 18:39

      Roberto e Prof. Feijó,

      Concordo com a análise e comentário feito por vocês.

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