
Roberto Pereira D’Araujo
Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético – ILUMINA
No Brasil, a palavra privatização soa como uma “magia” redentora de todos os males. A ingênua estratégia brasileira é a seguinte: Já que o estado brasileiro tem práticas terríveis, ao invés de moralizá-lo, vamos cortar seus “braços”. Ora, se o problema é o cérebro do “polvo”, não adianta cortar seus tentáculos, pois há muitos outros.
Vender patrimônio num momento de crise é a pior decisão, pois, qualidade, projetos e o interesse público ficam em segundo plano. As privatizações da década de 90 não resolveram o problema do estado e ainda exigiram outras obrigações. É preciso ter agências independentes, políticas de expansão, boa regulação e fiscalização, coisas que o país não tem.
Antes que me acusem de “estatista”, um palavrão no Brasil, digo que não aprovo a manutenção das empresas estatais na atual situação. Também não demonizo as privatizações. A diferença é que, ao contrário de muitos articulistas, primeiro é preciso informar que essas instituições foram “fulminadas” por mais de 20 anos.
O governo Fernando Henrique deixou claro que privatização e mercado eram as suas propostas para o Brasil e iniciou a fragilização. O governo Lula e Dilma, sem coragem de continuar a venda, politizou seus cargos e usou muitas estatais como “muletas” para projetos privados. A sociedade, sem perceber o desmonte dessas estruturas por diversos governos, agora, ao invés de culpar o controlador, incrimina o controlado. É como delatar a faca por um crime de assassinato!
A CEDAE, empresa responsável pelo fornecimento de água e esgoto no Rio de Janeiro será apenas a “abre alas” do “carnaval” de “liquidações”. Hipocrisia à parte, será vendida apenas para “fazer caixa”. Nada sobre a qualidade e, se a universalização for uma meta, assim como ocorreu no setor elétrico, o consumidor irá bancar antecipadamente.
O espantoso é que essa receita é retomada logo depois de assistirmos que parte significativa do colapso financeiro do estado se deveu a desonerações, isenções, incentivos, empréstimos subsidiados e até parcerias com estatais ao setor privado com resultados pífios. Será que não deu para perceber que esse “pujante” capital independente do estado é raridade no Brasil? O Brasil sabe privatizar? Atenção para a diferença! Vender empresas é fácil! Privatizar serviços públicos não é a mesma coisa!
Quem está satisfeito com a atuação da ANEEL, ANATEL, da ANAC, da ANVISA, da ANP também politizadas? Quem pode apontar um setor onde tenha ocorrido privatização e os preços praticados não tenham subido ou exigido subsídios do contribuinte? Bingo! Ah, a telefonia, dirão alguns! Ora, é preciso ser muito mal informado para comparar a tecnologia que tínhamos no período estatal com a atual. Apenas uma estação telefônica ocupava um prédio de 10 andares. Hoje ocupa um terminal de computador. Detalhe: o prédio do período estatal está lá nos ativos da empresa telefônica, agora privada. Nada a comentar?
Não somos o último país com estatais. No setor elétrico, a França tem a Eletricite De France, o Canadá tem estatais em Quebec e British Columbia. Os Estados Unidos têm mais de 2.000 empresas municipais de distribuição além das Tennessee Valley Authority e Bonneville Power Administration. No setor de água e saneamento, só 11% das empresas americanas são privadas. Na França e na Itália, a opção foi reformar e blindar as empresas com mandatos e contratos de gestão ao invés de vende-las.
Os exemplos são muitos. Nada de ser contra a privatização, mas é preciso saber como realizá-la e, infelizmente, nós não sabemos fazer. Seria interessante que os adeptos dessa corrente explicitassem melhor suas intenções.
Chega de improviso!
2 respostas
* 2016 : 30 anos da publicação do livro POWER STRUGLE / THE HUNDRED YEAR WAR. História do setor elétrico
dos EUA. Já mencionei e comentei esse aniversário no Conselho Diretor do Clube de Engenharia no dia 20 de fevereiro.
Sugeri a todos a leitura ou releitura do livro.
* Lá está a odisseia das agências reguladoras estaduais cuja primeira foi criada na primeira década do século XX.
Se lá levaram décadas para saírem do bolso das holdings privadas, imaginem no Brasil quanto levará para a ANEEL
e outras agências ficarem realmente independente .
* Lá está desde, o inicio dos anos trinta, o TVA firme e forte. Mesmo tendo acontecido diversos governos republicanos
desde então. Contudo……… Trump está de olho e seja o que o demônio goste.
* E, por falar no TVA ( MANTIDA É CLARO!!) reitero um apregoar: O setor elétrico brasileiro tornar se um imenso TVA !!!!!
Roberto, repito o comentária que já tinha feito ontem:
Independentemente de quaisquer outros aspectos, faço questão de lhe parabenizar por esse pronunciamento claro e preciso. Infelizmente a grande mídia não o publicaria (parece que acertei na mosca).