Caro Luís Nassif: Assíduo leitor de sua coluna, quero concordar com seu texto "As dúvidas do modelo elétrico", onde você deixa claro que a crise energética persiste. Gostaria apenas de f …

Caro Luís Nassif:


Assíduo leitor de sua coluna, quero concordar com seu texto "As dúvidas do modelo elétrico", onde você deixa claro que a crise energética persiste. Gostaria apenas de fazer algumas considerações a respeito de alguns pontos e torço que você tenha tempo para ler.


A meu ver, aspectos técnicos do setor elétrico brasileiro continuam sendo grandes desconhecidos da sociedade brasileira. Alguns são ignorados até por autoridades que se encontram na gestão de tão importante indústria.


A tal volatilidade dos preços do mercado spot, citada por você, é, em parte, uma consequência inevitável de sermos um país tropical com grandes variações das afluências. Entretanto, parte significativa dessa volatilidade foi produzida pelo próprio governo e seu modelo mercantil.


Explico: A estabilidade dos preços é função da capacidade de regularização do sistema. No Brasil, por questões climáticas, a regularização necessária é a plurianual, ou seja, os reservatórios, em conjunto, têm que ser capazes de armazenar água para ser transformada em energia em anos vindouros. Só essa capacidade é capaz de regularizar o "output", apesar da natural volatilidade do "input". Foi justamente essa capacidade plurianual de regularização que foi perdida na nova modelagem do setor. Hoje, e provávelmente por algum tempo, o sistema não consegue reservar água em volume suficiente para exercer esse papel de estoque regulador. Portanto, preparem-se para a "montanha russa" nos preços spot.


Ora, é fácil entender que em um sistema hidrotérmico essa capacidade de regularização é função de se manter uma margem "ociosa". Coloquei o termo entre aspas pois a ociosidade é apenas aparente, significando, na realidade, uma reserva que salva o sistema na hipótese de secas plurianuais. O sistema hídrico pode ser extremamente confiável, (aliás não é a toa que a Noruega é 100% hdroelétrica) exigindo apenas esse pequeno cuidado. Quando o sistema fica anual, toda a incerteza climática é transferida aos preços. Parece óbvio…


Só que o modelo proposto pelo governo, tem graves contradições com essse princípio. Em primeiro lugar, nenhum país com base hidroelétrica do mundo tentou ou pretendeu conceder seus aproveitamentos hidroelétricos sob o regime de produção independente tal como tentado no Brasil. Nos Estados Unidos, exemplo maior do espírito empreendedor privado, apenas 10% dos geradores produzem energia sob esse regime. Os outros 90% são concessionários de serviço público ou, no jargão deles, "utilities". Tarifa controlada e obrigação de expansão são a característica principal desse tipo de investidor, seja público ou privado. Só ai, já dá para perceber o tipo de aventura tipo Indiana Jones que o Brasil se meteu.


Evidentemente, o capital privado não gosta de capacidade ociosa. Com aspas ou sem! Ainda mais quando, pelas características geográficas brasileiras, é obrigado a participar de um "estoque" cuja gestão tem implicações anos à frente ou foi influenciada por gestões anos atrás. Convenhamos que a lógica que deve comandar essa gestão não pode ser deixada ao sabor do mercado, que, infelizmente, não têm interesse em questões de longo prazo.


É difícil fazer um investidor entender que, apesar dos reservatórios estarem cheios o preço spot pode continuar alto, tendo em vista uma situação de desabastecimento futura. Ele pensa lá com seus botões: Eu, vou construir uma usina para competir com essa água toda? Tá doido?


Concluindo, para não ser chato. Tem tanta coisa para se praticar o mercado livre. Automóveis, banana, ventiladores, tratores, tintas, geladeiras, jornais, computadores, discos, violões, acões, Será que não dá para deixar a energia elétrica produzida no maior sistema hidraulico do planeta, com grande complementariedade entre regiões, e grandes carências, fora a disso?


Enquanto os gestores não entenderem que nesse sistema o curto prazo é irmão siamês do longo prazo, vamos continuar nessa bagunça. Enquanto isso vou lendo sua coluna


Saudações


Roberto Pereira d Araujo

Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico ­ ILUMINA

Rua Capistrano de Abreu 12

Botafogo ­ Rio de Janeiro

CEP 22271-000

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