A VERDADEIRA UTOPIA
Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni
Umberto Eco, Domenico de Masi e antes deles o próprio Dom Bosco profetizaram o nascimento no Brasil de uma nova sociedade, muito mais fraterna e solidária do que as existentes hoje e à época. Menos preciso Thomas Moore anteviu, numa ilha do hemisfério sul, uma sociedade onde o Estado se preocupasse prioritariamente com aqueles que, por várias razões, não tivessem ainda conseguido adaptar-se às exigências de um mundo em evolução cada vez mais rápida e intensa.
Uma sociedade onde a inclusão dos alijados do processo evolutivo da economia não fosse vista como paternalismo ou como uma simples estratégia para criar mercado interno, mas sim como uma forma de disseminar uma nova maneira de cada cidadão enxergar seu semelhante, a partir do exemplo do poder público e das entidades da sociedade civil. À essa profecia dos sábios e santos cabe a todos nós completarmos com o esforço criativo, permanente e organizado, que aumente a competitividade de nossas empresas, a agilidade da máquina pública e o atendimento às carências da população.
No setor elétrico, à cantilena dos arautos (muito bem pagos) da privatização , devemos responder com mais ações efetivas para impedir a volta dos "apagões" que sua tresloucada aventura promoveu. Aos argumentos de que "faltou privatizar tudo" devemos responder com mais investimentos públicos em geração e principalmente em transmissão , perfeitamente possíveis apenas com os resultados das geradoras estaduais e federais. Às perorações dos privatizantes devemos responder com o incentivo ao consumo produtivo e com o combate ao disperdício de energia , para aumentar a competitividade de nossos produtos, conquistando para eles novos mercados no exterior.
Afinal, críticos da capacidade do Brasil em vir a ser uma nação soberana e independente sempre existiram e existirão, pois sempre haverá quem se disponha a colocar seus talentos e prestígio junto à opinião pública a funcionar por uma boa quantidade de dólares.
No passado, eles chamavam-se "entreguistas" pois, sem qualquer pudor, defendiam que o melhor caminho para os brasileiros era entregar nossos destinos à gestão eficiente e proba dos nossos vizinhos do norte. Hoje dizem-se liberais e "defensores do livre mercado".
Pela vontade desta gente não existiria a Petrobrás, mesmo porque eles duvidavam que existisse petróleo no Brasil. Não existiria a Eletrobrás, nem a Copel , a CEMIG , a CESP ou qualquer empresa estatal de geração ou distribuição de energia ou combustível. O futuro de tudo e de todos deveria depender exclusivamente da "invisível mão do mercado", que no tempo certo, pelo preço certo, iria prover a toda a sociedade da energia e dos derivados de petróleo necessários ao nosso desenvolvimento.Tudo isso acrescido de módicas taxas de intermediação e corretagem, é claro !
Que preços seriam esses ? A que tempo seriam fixados ? Ora , a resposta está na ponta de sua língua afiada : "depende do mercado !" . E como se trataria de concessionárias privadas que naturalmente são obrigadas buscar o maior lucro possível , mesmo com monopólio natural num serviço público, o maior preço dependeria da menor oferta possível. Ou seja , o preço da energia dependeria exatamente de produzir-se artificialmente sua escassez. O preço dependeria da falta de energia, da ameaça de racionamento. Quanto mais ameaçada de racionamento se sentisse a sociedade, maior preço ela concordaria em pagar, maior seria o lucro e portanto, o "estímulo ao capital privado".
Ou seja, o estímulo aos investidores privados em energia dependeria do não-progresso, da estagnação econômica e do desemprego. Da exclusão social, da miséria, das doenças, da falência do estado, do crescimento da criminalidade e da insegurança.
Para que isso tudo não ocorresse, esses sábios receitam "agencias reguladoras fortes e autônomas , que estimulem a competição entre os agentes", muito provavelmente dirigidas por anjos, querubins e serafins, que por razões que só Deus conheceria, cumpririam sua missão sem se influenciarem pelo ambiente de "vale-tudo" que o tal "modelo-de-mercado" produziu.
E pensar que essa gente ainda tem tanto espaço nos telejornais e nas suas colunas cativas na mídia impressa, não para discutir novas propostas e alternativas, mas para defender um modelo obsoleto, que não deu certo em lugar nenhum do mundo e levou-nos em 2001 a cortar nosso crescimento do PIB em mais da metade e o consumo das principais regiões do país em quase 30 %, com enormes estragos à nossa capacidade produtiva.
E pensar que essa mídia ainda os apresenta como analistas econômicos …
Aliás, pensando bem, por que não praticarmos eleições diretas para jornalista econômico na mídia ? Ou ao menos, um processo interativo minimamente sério para se poder checar a aprovação dos leitores ao conteúdo das matérias que este pessoal escreve ou fala, sem ao menos saber do que estão falando ?
Pela renovação das idéias ! Oportunidade para os novos analistas ! Chega de clichês !
Nossa indústria, nossos empregos e nossas exportações precisam sim de soluções em MW e MWh e não da cantilena dos conhecidos contadores de estórias sobre "Alice no país do gás importado barato" e "Carochinha no mundo do livre mercado da energia e do petróleo".
Brincadeira tem hora e essa turma já teve a sua. Façam-nos o favor …
Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni é Diretor do Instituto Ilumina e consultor em energia para empresas privadas
pugnalonfinn@onda.com.br