O ILUMINA no JB – 15/4
Explicações no Estado de São Paulo – 15/4
Energia de 2001 usada em 2000 para evitar blecaute
Instituto independente diz que falta de chuvas não é a única responsável por crise
LUCIANA BRAFMAN
São Pedro não é o grande culpado pela crise energética brasileira. A tese é do diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina), Agenor de Oliveira. O ex-técnico de Furnas acredita que a seca está ajudando, sim, a diminuir os níveis dos reservatórios hídricos, mas não responsabiliza os baixos índices pluviométricos pelo fantasma do racionamento que ronda os lares do país. ”O governo sabe que a água armazenada para 2001 e 2002 foi jorrada turbinas abaixo no intuito de atender a demanda do ano de 2000”, acusa, certo de que não houve planejamento adequado no setor de energia.
A argumentação do Ilumina, uma Organização Não-Governamental, toma por base dados do fim da década de 90 para constatar que nem mesmo a abundância de chuvas do período foi suficiente para que os reservatórios acumulassem água por vários anos e impedissem a crise atual. Em 1997, a afluência dos rios do Sudeste esteve 18% acima da média. O ano seguinte foi de afluência normal e 1999 ficou 10% acima da média. Onde, então, foi parar toda essa água? ”O parque gerador não recebeu novos investimentos, na proporção do aumento do consumo, e a água foi jorrada para atender a demanda de 2000, um ano seco”, explica o diretor do Ilumina.
Afogados – O problema, de acordo com o técnico, é justamente o descolamento entre a geração e o consumo de energia, já que o segundo cresceu a taxas mais elevadas. Dados que constam no site do Ilumina {www.ilumina.org.br} mostram que de 1995 a 2000, o consumo cresceu mais de 4% ao ano, ao passo que a capacidade instalada foi aumentada na casa dos 3%. Dessa forma, os reservatórios se esvaziaram.
O nível atual dos reservatórios é tão baixo – nas regiões Sudeste e Centro-Oeste está em torno de 35%, contra nível ideal de 49%, e no Nordeste está em 37%, contra os 50% ideais -, que Agenor de Oliveira não acredita nem em dança da chuva. ”Para que a chuva resolvesse alguma coisa, teríamos que torcer por um dilúvio tal que morreríamos afogados”, ironiza.
Síndico – Se isenta São Pedro da responsabilidade por futuros apagões, o Ilumina atribui a questão ao governo, que ”errou desde o início, com a privatização das geradoras e distribuidoras”. Oliveira explica que no momento anterior às cisões e privatizações do setor energético, o governo era como o síndico de um condomínio, que conhecia exatamente a demanda de seus usuários e se utilizava do sistema interligado dos reservatórios hídricos para compensar eventuais secas.
”Mas a partir do momento que as distribuidoras de energia foram privatizadas, o governo já perdeu o controle de parte do sistema, que o impede de planejar a demanda”, critica. Além da dificuldade de quantificar o consumo, a ONG cita a falta de investimentos privados na geração de energia como outro calcanhar de Aquiles. ”As empresas privadas querem comprar ativos prontos e lucrar. Não há intenção de ampliação da oferta”, acredita o especialista.
Nas geradoras que ainda estão nas mãos do Estado, como Furnas, as críticas se voltam para o engessamento dos investimentos. ”O investimento é visto pelo governo como déficit público. Furnas tem um endividamento baixíssimo, da ordem de 10%. Poderia investir mais, mas o governo inviabiliza, engessa. Por outro lado, o BNDES só empresta o dinheiro público para a iniciativa privada”, censura o representante da ONG.
O não-crescimento da oferta somado ao incremento do consumo e ao azar de um ano mais seco tornam catastróficas as previsões de Oliveira. ”Até o fim do ano haverá cortes de energia. E 2002 promete ser ainda pior”, profetiza.
Campanha vai pedir redução no uso de energia
Eletrobrás investirá R$ 30 milhões para incentivara população a diminuir o consumo
ROBERTO CORDEIRO
BRASÍLIA – O governo já tem um plano de racionamento para aplicar, caso as medidas de redução do uso de energia não surtam o efeito desejado. Está previsto o corte no fornecimento de eletricidade começando por aquilo que é considerado supérfluo – por exemplo, a iluminação de monumentos. Prédios públicos e privados, nesta ordem, também ficarão sem energia em determinados horários. As situações mais extremas seriam ruas sem luz e cortes de eletricidade de residências e do comércio. Se o plano for aplicado, haverá um sistema de rodízio para evitar transtornos à população.
Tentando não chegar ao racionamento, o Sistema Eletrobrás deve gastar cerca de R$ 30 milhões numa campanha publicitária para convencer a população a reduzir o consumo de energia nos próximos meses. Durante 54 dias serão inseridas peças nas emissoras de TV e rádio e publicados anúncios nos principais jornais e revistas das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Na primeira fase da campanha, que começa hoje, serão gastos R$ 4 milhões.
O montante a ser desembolsado pela estatal daria para comprar no mercado "spot" de energia – onde o preço varia conforme a oferta e a procura e, portanto, é mais caro – cerca de 150 mil megawatts (MW), mais do que o dobro da capacidade instalada nacional (72 mil MW). O mesmo dinheiro permitiria adquirir 375 mil MW de termoelétricas, 420,83% mais do que a capacidade instalada.
O início da campanha será hoje à noite com o ministro de Minas e Energia, José Jorge, fazendo um pronunciamento pelo rádio e TV. A idéia de José Jorge é explicar a importância da economia de energia.
O discurso será centrado em três partes: a primeira se concentrará na redução dos investimentos nos anos 80 e 90; depois o ministro mostrará que o Plano Real permitiu o aquecimento da economia, o que resultou no aumento da demanda pela eletricidade; e, por fim, irá explicar que a falta de chuvas reduziu os níveis dos reservatórios. Ele insistirá em que, sem economia de energia, haverá racionamento.
As peças publicitárias preparadas pela empresa de publicidade baiana Propeg terão a tomada de luz como símbolo. O desenho preparado para a TV mostra duas tomadas conversando sobre a importância de evitar o desperdício de energia.
"O pessoal da publicidade não fechou os gastos, pois está negociando com as empresas que publicarão os anúncios", disse um assessor do presidente Fernando Henrique Cardoso. A conta será repassada integralmente para a Eletrobrás.
Insuficiente – Para técnicos do setor elétrico, a campanha não bastará para evitar o racionamento. O secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce, afirmou que a publicidade permitiria reduzir o consumo em cerca de 5%. Como a previsão do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é de que os níveis dos reservatórios no Sudeste ficarão em 49% no fim do mês, para atravessar o período da escassez de chuvas sem falta de energia é preciso uma economia de 12,2 pontos porcentuais."É como uma Ferrari subindo uma ladeira sem combustível para completar a viagem", explicou Arce. "O mesmo ocorre com os reservatórios das hidrelétricas. Se não possuem água suficiente para a produção de energia, é difícil atender a demanda, e o racionamento ganha maior dimensão."
Privatização à brasileira
O Ilumina aposta na interrupção do processo de privatizações do setor elétrico como o primeiro passo para a resolução do problema da energia. ”O Brasil não poderia ter privatizado suas empresas energéticas. Os países mais desenvolvidos do mundo não as venderam. Eles são eletrossauros?”, questiona Agenor de Oliveira, diretor da ONG apartidária, sem fins lucrativos, que se propõe a debater os rumos adotados para o setor elétrico.
Oliveira e outros nomes do Ilumina, como o de Luís Pingueli Rosa, compreendem que o governo iniciou as privatizações numa tentativa de reduzir seu déficit fiscal, mas não concordam que a venda de Furnas, da Cesp ou da Copel seja a melhor solução para o segmento. ”Não estamos propondo uma reestatização, mas, sim, uma trégua para se rediscutir o processo, porque não se pode vender justamente os instrumentos que vão proporcionar a saída da crise”.
Xenofobia – O diretor do Ilumina não se define como nacionalista ou xenófobo, mas defende que a energia elétrica em qualquer lugar do mundo é estratégica. ”As águas também são importantes devido à irrigação, navegabilidade e potabilidade”.
Embora contra as privatizações, o Ilumina vê com bons olhos parcerias com o capital privado, como a que ocorreu em Goiás, na Usina Serra da Mesa, em março de 1997. Lá, o consórcio liderado pela VBC Energia S/A (Votorantim, Bradesco, Camargo Correia) adquiriu o direito de comercializar por 30 anos 51% da energia produzida pela usina. ”O capital é privado, a mão-de-obra e a tecnologia são estatais e as empresas têm energia garantida”, resume Oliveira.
Térmicas – Por outro lado, a construção de termelétricas – que tem sido aventada como uma opção para aumentar a oferta de energia – não é aconselhada pelo especialista. ”As térmicas – gás, petróleo, urânio – são muito mais caras e mais poluentes. Devem ser utilizadas somente em situações emergenciais, de complementação”, explica, lembrando que a vocação brasileira é hídrica.
A tão falada racionalização do consumo também é questionada pela organização não-governamental. ”Muitas medidas, como a troca de lâmpadas e o uso racional da geladeira, por exemplo, são acertadas, mas não têm caráter emergencial. São medidas educacionais, que deveriam ser estimuladas sempre”, ensina Oliveira.
Ele não crê que a solução seja uma simples diminuição do uso de energia, mesmo porque o Brasil é um país que apresenta baixas taxas de consumo. Em 1999, o consumo médio de energia por domicílio foi de 171 kWh/mês, equivalente a pouco mais que meia dúzia de lâmpadas, uma geladeira, um ventilador, um ferro de passar roupa e um liquidificador. (L.B.)
País precisa de uma Itaipu a cada 4 anos
RIO – Para evitar racionamentos energéticos, o Brasil precisa adicionar uma usina de Itaipu ao sistema, ou 12 mil megawatts (MW), a cada quatro anos. A avaliação é do engenheiro Maurício Tolmasquim, coordenador do Programa de Planejamento Energético da Coordenadoria dos Projetos em Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Esse seria o volume mínimo necessário para atender ao crescimento de 5% da demanda anual do consumo.
Para Tolmasquim, o governo "foi empurrando com a barriga" o risco de desabastecimento, apesar dos alertas feitos pelos especialistas. Ele cita como exemplo de um sinal da gravidade da situação que foi ignorado o fato de que, em 1997, o País chegou ao mês de outubro, quando termina o chamado período seco, com 66% dos reservatórios cheios. Em 1999, o porcentual era de 18% e no ano passado houve até comemoração porque, ao fim do período, o porcentual foi de 28%. (Jacqueline Farid/AE)
Momento exige solidariedade, afirma Ávila
Para presidente da Eletrobrás, união do Estado ao setor privado ajudará a evitar colapso
GUSTAVO PAUL e ROBERTO CORDEIRO
BRASÍLIA – O novo presidente da Eletrobrás, Cláudio Ávila, assumiu o cargo, na semana passada, em meio a uma das maiores crises da história do setor, com a possibilidade concreta de racionamento de energia. Para enfrentar essa situação, defende que investimentos públicos se somem aos privados.
Para ele, é preciso ter consciência de que o momento é excepcional e que todos os recursos existentes precisam estar disponíveis. A Eletrobrás, segundo informa, tem R$ 400 milhões em caixa para serem aplicados em linhas de transmissão e em pequenas centrais hidrelétricas.
Ávila diz que é preciso encontrar uma fórmula para levar as empresas a adquirirem ativos públicos e se comprometerem a aumentar a produção de energia nova. Ele prega a "solidariedade" entre os diversos agentes do setor para enfrentar a crise.
Com a experiência de ter participado da privatização da Eletrosul em 1998, Ávila acredita que o mais importante é deixar claro aos investidores que as regras não foram alteradas.A seguir, os principais trechos da entrevista:
Estado – O que as empresas do grupo Eletrobrás podem fazer para elevar a oferta de energia?
Cláudio Ávila – O plano para o uso racional da energia, proposto pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prevê o envolvimento de empresas como Furnas, Chesf e Eletronorte. Estão previstas medidas como a importação de energia da Argentina e a participação da Eletronorte na integração da linha Norte-Sul. No caso de Chesf, foi proposto um esforço adicional para operar a usina de Sobradinho com menos de 10% do volume útil dos reservatórios. Essas empresas terão papel fundamental nesse esforço, o que poderá, dependendo do resultado, evitar o racionamento.
Estado – Onde serão aplicados os recursos da Eletrobrás?
Ávila – Na participação de novos projetos de linha de transmissão, como a construção da linha entre Curitiba e São Paulo, importante para a transferência para a região Sudeste da energia disponível no Sul. Também deverá investir no Programa das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), projetos de prazos menores, com tecnologia nacional.
Estado – A crise atual é fruto da falta de investimentos no passado?
Ávila – Não houve carência de investimentos no setor, mas falta de agilidade, como a tomada de decisão de novas obras.Agora, há necessidade de mais investimentos, bem como de produzir energia por meio de fontes alternativas, como as térmicas.
Estado – Haverá mudança de diretriz na Eletrobrás?
Ávila – O momento exige solidariedade. Os setores de geração e transmissão, as agências reguladoras, todos os agentes precisam estar conscientes de que ou ganhamos ou perdemos.
Estado – O senhor vai procurar cada um destes atores?
Ávila – Solidariedade, na minha opinião, significa integração entre todos os agentes deste mercado. Isso envolve até questões de regulamentação.
Estado – Como o senhor vê a discussão atual sobre a privatização de Furnas?
Ávila – O programa de privatização definido em 1995 prevê a venda de Furnas após o fim da desverticalização (a separação das empresas de geração das de transmissão). A evolução desse processo tem sido diferente, não na mudança de rumo, mas de discussão. O governo prorrogou a decisão do assunto para amadurecê-la.
Estado – O leilão de Furnas deverá ficar para o próximo governo. O setor elétrico funcionará com uma parte privada e outra estatal?
Ávila – As necessidades de investimentos são da ordem de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões por ano para aumentar a oferta de energia e dar sustentação à economia nacional. O setor público não dispõe de tantos recursos. É preciso investimentos públicos e privados para suprir a necessidade.
Estado – Esse modelo híbrido não causará desconfiança para o investidor privado?
Ávila – Não acho que o alargamento de um prazo seja interpretado como mudança da regra do jogo. Não há dúvida de que o governo fará a privatização (de Furnas). A discussão é a forma e o tempo de fazê-la.
Estado – É possível transferir a experiência da Eletrosul, hoje Gerasul, para Furnas, Eletronorte e Chesf?
Ávila – A venda da geradora do Sistema Sul foi um êxito. A parte de geração foi totalmente transferida para o setor privado e restou a empresa de transmissão, que dá lucro. Não temos os problemas existentes no Nordeste e em Furnas. A geradora é capaz de investir. Foram concluídas as obras da usina de Itá, hoje gerando 1.450 MW.
Estado – Como será a privatização da Chesf e da Eletronorte?
Ávila – Foi estabelecida uma escala de prioridade. Inicialmente está sendo feita a modelagem para Furnas. Depois será a vez da Eletronorte e da Chesf, e isso não deve ocorrer neste governo.
Estado – Existe alguma incompatibilidade entre os investimentos e a venda de Furnas?
Ávila – Os investimentos devem ser mantidos na companhia para valorizar a empresa. O resultado será melhor e os recursos retornam para a sociedade.
Estado – É a contrapartida a ser dada pelo Estado?
Ávila – O importante é fixar objetivos que sejam atingidos no curto e no médio prazos. O governo, na minha avaliação, está com o processo de privatização definido em termos de filosofia. Vivemos sob circunstâncias econômicas e políticas. Isso tem de ser discutido e definido com clareza.
Estado – É possível fazer com que as empresas privadas invistam mais em geração do que apenas comprar ativos do setor elétrico?
Ávila – O compromisso de investir deve ser exigido por meio dos editais. É possível criar as condições sem deixar qualquer lacuna. Defimos o modelo num momento difícil de crescimento do País. Sei que a Aneel vem realizando um trabalho da profundidade com as regras fundamentais definidas.
Estado – No modelo de Furnas, com o capital totalmente pulverizado, é possível avaliar como serão feitos os investimentos?
Ávila – Essa questão mereceria uma análise mais profunda para que possamos conversar sobre ela. É um assunto que está neste momento sobre a própria coordenação do presidente Fernando Henrique.