Jornal do Commercio (RJ) 08/02/2001 Sua Contas
A face cruel da Cerj que a Aneel nunca viu
Tania Pereira Membro do Programa Nacional de Proteção e Defesa do Consumidor – Pronacon
Prometi a mim mesma que não começaria minha análise sobre os serviços prestados pela Companhia Estadual de Energia do Estado do Rio de Janeiro, a Cerj, com expressões como descaso, omissão, desrespeito, e outras menos lisonjeiras. Na verdade, quero fixar-me num aspecto que passa absolutamente despercebido das autoridades e, particularmente, da imprensa.
Há poucas semanas, a Aneel jogou duro contra a Light e Furnas , multando em R$ 15 milhões e as duas empresas pelos "apagões" ocorridos em dezembro. Foi uma satisfação pública do órgão regulador à população carioca pelos transtornos ocasionados. Mais do que Furnas , a Light sentiu – e muito – a péssima repercussão que este episódio recente provocou. Ela amargou um baque na reconstrução de sua imagem arranhada por ocasião da sua privatização. Naquele infernal verão de dois anos atrás, a Light decidiu, após uma grita da imprensa e do povo carioca, investir milhões na reconstrução da sua imagem, abalada com os blecautes fantásticos na cidade.
O porquê de a Light estar sempre nas páginas dos jornais, ao menor pique de luz, deve-se, não temos dúvida, à circunscrição da área onde atua: o Rio, a segunda maior cidade do País. Quando a Light falha na distribuição de energia , ela prejudica o "inner circle" fluminense. Um pique de luz nos veículos de comunicação cariocas provoca reações imediatas. Alguns minutos sem luz na Zona Sul carioca, na Tijuca, ou mesmo no subúrbio da "cidade maravilhosa", provoca uma gritaria infernal, uma enxurrada de reclamações nos órgãos de defesa do consumidor, à Aneel e de cartas à imprensa. É um caos nunca visto nas centrais telefônicas de atendimento ao consumidor, no dia seguinte aos "apagões"! Ali, o carioca – com toda razão – extravasa seu ressentimento contra a empresa de capital privado, mas cujo serviço é público.
FALHA. E quando a Cerj, responsável pela distribuição de energia no interior do Estado do Rio, falha? O que acontece? Quase nada. Ou melhor, nada. Não há repercussão. Se houver, não chega a 10% da reação popular que acontece quando o "apagão" é no Rio. E por quê? Elementar, meu caro Watson. A região que a Cerj abrange não pertence ao "círculo do poder" fluminense.
O centro decisório do Estado não mora nos municípios do interior. No máximo, autoridades, intelectuais e jornalistas cariocas têm casas de veraneio, o que é muito diferente do morador de verdade. Para os freqüentadores eventuais de fins de semana, devem passar despercebidos estes pique de luz e "apagões" freqüentes no interior. Acendem umas velas, uns lampiões (afinal, não é o fim do mundo perder o capítulo da novela de sábado), e "é até bom mesmo ter faltado luz, prá podermos conversar, não é, pessoal?", devem comentar. Só que ninguém percebe, incluída aí a Aneel , a grande imprensa e as autoridades, que estes "apagões" da Cerj são freqüentes, quase que diários, há anos! O que ninguém sabe é que, quando chega o verão, eles se agravam a ponto de durar mais de 12 horas, às vezes um dia inteiro, apesar dos chamados desesperados ao serviço de emergência.
O morador do interior, diante dessa situação tem características diferentes do morador da capital Para ele, é mais – digamos – complicado fazer uma reclamação, pois sua natureza não é belicosa e nem tão exigente quanto a do carioca. Ele provavelmente nem sabe quais são os telefones dos órgãos de defesa do consumidor. Escrever para as autoridades, então, deve ser um sacrifício, haja vista a distância das agências do correio. Estou falando particularmente dos milhares de distritos que rodeiam os distritos-sede dos municípios!
Interior. Honestamente, os veículos do interior, e até mesmo os da capital, têm condições de cobrir as conseqüências constantes dos "apagões" da Cerj nesses pequenos distritos? Faltar energia várias vezes durante o dia, durante todo o ano, no Centro de Petrópolis é raro. Afinal, pode haver reações maiores. Mas, quem vai reclamar em minúsculos logradouros de distritos como Pedro do Rio, Posse, Benfica, Secretário ou Araras? No Centro de Angra dos Reis é uma coisa. Mas, quem está preocupado com os distritos do Frade, da Mambucaba ou do Bonfim, pertencentes àquela bela cidade oceânica? Imaginem os distritos dos mais distantes e desconhecidos municípios fluminenses. Sou testemunha pessoal desta face cruel da Cerj. Desconfio como cidadã dos investimentos apregoados por parte dos chilenos quando, maiores repercussões, por que não investir apenas o mínimo necessário?
Como advogada e membro de uma grande organização de defesa dos consumidores, vou fazer minha parte junto às Comissões de Energia do Senado e da Câmara Federal, da Aneel , do Procon-RJ e do Codecon da Alerj, incluindo na nossa cruzada os prefeitos e vereadores dos municípios servidos pela Cerj. O governador do Estado tem como marca a sua preocupação pelo interior. Pode ser de grande valia a sua interferência. Mas a mais importante reação dos consumidores é a ação civil pública que está sendo elaborada pelo Pronacon. É a esperança de milhares de pessoas prejudicadas ao longo destes anos. A ação é baseada nas reclamações que constam nos registros dos órgãos de defesa do consumidor fluminense.
Às 11 horas da manhã do último dia primeiro de fevereiro faltou energia nos arredores dos condomínios existentes na altura do quilômetro 3,5 da Estrada Itaipava-Teresópolis. Foram 14 horas sem luz desta vez. Abro os jornais, deparo-me com um anúncio grande da Cerj a propósito da inauguração da fábrica da Peugeot no município de Porto Real. Diz o anúncio que "se depender da Cerj, vela só a do carro". Todo dia, toda semana, todo mês, são vários os "apagões". Não é apenas no verão, mas no outono, na primavera, no inverno. Culpa das chuvas? E quando não chove, o céu está limpo, e falta luz? Ventos? E quando nem ao menos sopra uma brisa? Ah, sim, já sei: alegam "fatalidade".
Fatalidade, às vezes, é sinônimo de cinismo. E-mail: vitimasdacerj@reclamadianta.com.br