Estado de S. Paulo Sábado, 17 de março de 2001
Racionamento de eletricidade poderá ser decretado em maioSe não chover, País terá de atravessar período de estiagem com apenas 32% dos reservatórios
MILTON F. DA ROCHA FILHO e RENÉE PEREIRA
O racionamento de energia elétrica nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste poderá começar já no início de maio, caso não haja um aumento no volume de chuvas nos próximos 45 dias. Segundo o diretor de Geração e Transmissão da Cesp e presidente do Conselho de Administração do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Silvio Areco, embora ainda haja possibilidade de o nível dos reservatórios subirem, as medidas para o contingenciamento de energia já começarão a ser estudas na próxima semana.
Na segunda-feira, os conselheiros da ONS definem qual a quantidade de energia deve ser economizada de acordo com a média de água acumulada nos reservatórios. Os número, no entanto, podem ser alterados se o nível das bacias aumentar. No dia seguinte, o relatório será apreciado pelo ministro de Minas e Energia, José Jorge. Desta reunião devem sair as formas de redução de energia no País e o início da operação. "O racionamento poderá ser por um período maior, mas em menor intensidade", adianta. Para isso, o governo não pode perder tempo.
Ele explica que a situação requer cuidados. Se não chover, o País terá de atravessar o período de estiagem, de maio a novembro, com apenas 32% de energia acumulada nos reservatórios. Mesmo que chegue a 50%, o racionamento não está descartado para solucionar o problema.
O empresário Antonio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, entende que se o programa prioritário das termoelétricas tivesse em estágio avançado o País não estaria passando por esse tipo de dificuldades. Para ele, o risco de racionamento é correto e está relacionado ao aquecimento da economia.
Ermírio salientou que há mais de dois anos vem alertando sobre as dificuldades na área de geração de energia. Ele disse que chegou a conversar com autoridades, mostrando a gravidade do momento e a falta de solução para o preço do gás natural para térmicas.
O próprio Grupo Votorantim que participa da holding VBC, formada em conjunto com o Bradesco e a Camargo Correa, não iniciou a construção de uma térmica em Americana, de 1.000 megawatt, por causa da falta de definição do preço do gás natural.
Monopólio – Segundo ele, "o empresário para investir precisa ter a definição de uma política de preços para o gás natural, o que ainda não existe." E o que estou vendo por ai, completa, é que a Petrobrás é a única que está definindo investimentos e iniciando construção de térmicas.
"O monopólio da Petrobrás que sempre foi contestado, e que foi abolido pelo Congresso, parece que está voltando, por intermédio da energia elétrica."
Ermírio disse ainda que, mesmo com usinas térmicas, com o preço do gás natural definido, o País "não deve deixar de lado a construição de hidrelétricas." Mas essa é uma medida para prventivo para o futuro, pois a construção deste tipo de usina leva em média 5 anos para ser concretizada.
Medida será necessária se nível de reservatórios for de menos de 50%
Para Mauro Arce, Porto Primavera pode ajudar na recuperação no Sudeste
Somente no final de abril será possível saber se haverá racionalização no uso da energia elétrica no País, alertou o secretário de Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce, ao explicar que se "os reservatórios do Sudeste chegarem ao final de abril com 50% de suas capacidades, este contigenciamento no uso da energia elétrica será necessário".
Arce explicou que até agora não há determinação alguma, pois se espera que ainda ocorram chuvas sobre os reservatórios. "De fato houve uma pequena melhoria nas últimas horas. Nós também já poderemos contar com mais 200 megawatts (MW) de energia elétrica da Usina de Porto Primavera, no rio Paraná. Lá, o reservatório está subindo, o que permite o uso de duas novas máquinas. Neste momento toda a energia que tivermos disponível é essencial", afirmou.
O secretário lembrou que o consumo de energia elétrica em 2001 está mantendo os porcentuais de expansão de 4,5% a 5%, nada exagerado, segundo ele, com o cenário econômico atual. "A pena é que estamos chegando ao final do período chuvoso, sem que tenha chovido muito sobre os reservatórios de hidrelétricas nas regiões Sudeste e Nordeste. Por isso temos que esperar pelo menos até o final do mês de abril, torcendo para que chova para que se tenha uma posição. Se os reservatórios chegarem a 50% de suas capacidades teremos necessidade de contigenciar o uso da energia até o final do ano. Não há outra solução", salientou Arce.
Ele disse ainda que o nível dos reservatórios das hidrelétricas que abastecem o Estado estão hoje em melhor situação do que no ano passado.
"Houve também alguma melhoria a partir do dia 14, com crescimento de reservas em 0,15% a 0,20%, o que não ocorria há algum tempo. Esperamos que a recuperação prossiga em rítmo mais forte", comentou o secretário.
Cesp – A privatização da Cesp Paraná deverá ocorrer ainda no primeiro semestre de 2001, segundo Arce. Ele salientou que isso ocorrerá sem açodamento e com tranqüilidade.
Ele explicou que a data do leilão deverá ser decidida em uma reunião do Programa Estadual de Desestatização (PED). "Temos hoje mais interessados do que na primeira tentativa que fizemos para a privatização da Cesp Paraná."
(Milton F. da Rocha Filho/AE)