As ameaças de desligamentos de clientes é a prova mais contundente de quanto estamos muito longe de ser um país moderno e civilizado. Essa prática, absurda e burra só humilha ainda mais uma sociedade que, cada vez mais, não percebe que seus direitos cidadãos começam pelos direitos de consumidor. Talvez essa seja mesmo a intenção. Voltamos a lembrar a entrevista do Governador da Califórnia Gray Davis que respondeu ao reporter do jornal Gazeta Mercantil que jamais poderia adotar a prática adotada no Brasil em seu estado, sob pena de provocar uma verdadeira revolução.
498 mil estouram a meta no Rio
Light avisa, no entanto, que só tem capacidade para cortar luz de 200 mil consumidores. Bônus beneficiará 1,3 milhão
ALBERTO KOMATSU
A partir do próximo dia 13 de agosto, 498.400 clientes da Light que excederam sua meta de consumo em junho e julho poderão ter seu fornecimento de energia cortado por até três dias. Os avisos serão entregues nesta quinta-feira. Entretanto, de acordo com Ernesto Haikewitsch, superintendente de Qualidade e Sistemas Comerciais da companhia, a Light só tem condições técnicas para cortar a luz de 200.000 consumidores/mês.
A prioridade para os cortes serão os consumidores que registraram o maior desvio de sua meta e os inadimplentes, mas essa proporção ainda não foi definida. ”Os clientes que tinham meta de 1.000 kWhm e que gastaram 1.300 kWhm são mais passíveis de sofrer corte do que os que tinham meta de 200 kWhm e consumiram 300 kWhm”, exemplifica.
Abaixo da meta -Do total de clientes que poderão sofrer cortes, 206.564 são os que pagaram sobretaxa, pois não atingiram sua meta e estão na faixa de consumo acima de 200 kWhm. Os 291.836 restantes são clientes que consomem entre 100 kWhm e 200 kWhm e que não atingiram sua cota.
Dos 3,4 milhões de clientes totais da Light, 75% consumiram energia abaixo de sua meta. São ao todo, 2,6 milhões de consumidores. Destes, 1,3 milhão receberão bônus em forma de desconto na conta. A outra metade, que inclui os que consomem acima de 100 kWhm e que economizaram 20%, deveria receber o bônus na conta de agosto, mas a Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) anunciou na semana passada que não há recursos para essa compensação.
Balanço – Entre os clientes residenciais, a Light arrecadou R$ 8,4 milhões de sobretaxa. Terá, entretanto, que pagar R$ 10,2 milhões em bônus aos clientes com consumo abaixo de 100 kWhm e que economizaram energia. Cerca de 92% do total de clientes da companhia, ou 3,129 milhões, são residenciais. Os 8% restantes, ou 271 mil, são do comércio e indústria. Nessa categoria, 71% dos clientes cumpriram com sua cota e 29% não. Mas como essa faixa de consumidores paga contas altas e não recebeu descontos na última conta, a receita de sobretaxa é maior que a de bônus.
Religação – Segundo Haikewitsch, que não revelou a receita arrecadada, para cada real esses consumidores receberão R$ 0,33 de bônus, de acordo com as regras da GCE.
Os consumidores da Light que sofrerão os cortes vão ter que pagar entre R$ 2,57 e R$ 10,67 pelo reestabelecimento do fornecimento de energia. Segundo o superintendente da Light, o valor da taxa varia de acordo com o tipo de relógio do cliente: monofásico, bifásico e trifásico.
Cerj – Na Cerj, 81.364 clientes estão sujeitos ao corte de energia. Esse total corresponde a 5% dos clientes. Assim como na Light, estão sujeitos ao corte de energia a partir do dia 13 de agosto se forem reincidentes – total ainda não revelado. Os avisos começam a ser enviados na próxima quinta-feira. A Cerj conta com 480.012 clientes que receberão bônus.
Dólar leva Celesc a aumentar tarifa em 20,72%
Distribuidora de SC compra 31,66% de sua carga de Itaipu, com preço dolarizado
ROBERTO CORDEIRO
BRASÍLIA – A alta do dólar foi um dos principais fatores para o reajuste de 20,72% para as tarifas de energia elétrica da Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc). Como a distribuidora catarinense compra 31,66% de sua carga de Itaipu Binacional, que tem o preço fixado em dólar, o porcentual autorizado permitiu o repasse maior da cotação da moeda americana para a conta de luz.
Já as tarifas da Centrais Elétricas do Pará (Celpa) – que recebe energia da Usina Hidrelétrica de Tucuruí – estão 14,07% mais altas. O índice ficou menor porque a energia de Tucuruí não é dolarizada.
Os porcentuais foram autorizados ontem pela Agência Nacional de Energia elétrica (Aneel). A nota oficial da agência reguladora informou que os porcentuais de reajustes levaram em consideração os chamados custos não gerenciáveis, como a Conta de Consumo de Combustível (CCC) – espécie de fundo para financiamento da geração de energia por meio de térmicas a diesel -, a Reserva Global de Reversão (RGR) – fundo que serve para investir em obras do setor elétrico – e as taxas de fiscalização e encargos de transmissão.
A Aneel homologou também reajuste de 15,81% para as tarifas da Hidrelétrica Xanxerê Ltda, distribuidora que atende a seis municípios de Santa Catarina.
O porcentual ficou menor se comparado com o índice da Celesc porque a concessionária não compra eletricidade de Itaipu.
Economia – Os moradores das Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste superaram a meta de racionamento de energia fixada pela Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE). Nos cinco primeiros dias de agosto, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a economia no Sudeste e Centro-Oeste ficou em 21,7%, ou seja, 1,7 ponto porcentual acima do previsto pela GCE.
No Nordeste, a economia no mesmo período ficou em 21,2%. Apesar disso, os reservatórios das usinas hidrelétricas que abastecem o Nordeste estavam, no último domingo, com 20,35% cobertos de água. Isso é 0,59 ponto porcentual acima da meta, o que pode levar a GCE a adotar outras medidas para assegurar a manutenção dos níveis das barragens das hidrelétricas.
A Região Norte – parte do Estado do Pará e os Estados do Maranhão e Tocantins – deve ter racionamento compulsório de energia. O assunto vai ser tratado, hoje, na reunião da CGE com o presidente Fernando Henrique Cardoso.
Os resultados observados pela GCE indicam que os moradores do Norte não conseguiram atingir a meta de 15% fixada para o mês passado.
Nos cinco primeiros dias de agosto, a redução do consumo na Região Norte também não atingiu os 15%. O balanço do ONS informou que do dia 1.º a 5 de agosto a economia ficou em 10,3%. A região poderá ter de economizar, a partir de agora, 20% e quem não cumprir a meta poderá ter de pagar sobretaxa de energia e ficará sujeito aos cortes do fornecimento de luz elétrica.