Considerando que as empresas privatizadas não têm nem a visão global do sistema nem a motivação para executar todas os procedimentos de uma operação integrada, é preocupan …



Considerando que as empresas privatizadas não têm nem a visão global do sistema nem a motivação para executar todas os procedimentos de uma operação integrada, é preocupante que a ONS não tenha um sistema de despacho "on-line". Esse sistema tornou-se uma necessidade face à privatização e deveria preceder toda essa confusa modificação do setor. Estamos correndo riscos sérios!


Globo 14/3/99

Rio poderá sofrer cortes de energia no próximo verão

Carter Anderson

O presidente do Operador Nacional do Sistema (ONS), Mário Santos, advertiu ontem que o Rio poderá ter sérios problemas de fornecimento de energia no próximo verão, caso não sejam concluídas a Usina Nuclear de Angra II e o terceiro linhão de transmissão da Usina de Itaipu. Segundo Santos, o ONS prevê que o consumo de energia no Rio cresça 3,5% ao longo deste ano. Caso essa estimativa se confirme, o Rio ficará numa situação limite, sem reservas de energia e sujeito a cortes no fornecimento de energia nos horários de pique.


– Hoje, ainda suportamos uma contingência. Mas se não houver um reforço nas vias de acesso de energia e no fornecimento, poderemos ter dificuldades nos picos do verão – afirmou Santos.


Ele admitiu a necessidade de realizar cortes localizados de energia, caso as obras não sejam concluídas, mas negou a possibilidade de apagões. Segundo Santos, o Rio consome cerca de 5.700 Megawatts, sendo que 70% desta energia é importada. As principais fontes locais de energia são a Usina Nuclear de Angra I e a Usina de Santa Cruz.


Com o crescimento do consumo, explicou Santos, o Rio fica muito vulnerável, caso ocorra algum problema em uma destas usinas. Como as linhas de transmissão já estão saturadas, o Rio teria dificuldades de receber uma carga extra de energia.


– Se perco Santa Cruz ou Angra I, terei problemas, pois já estarei operando no limite. As outras usinas também já estão no limite de entrega.


Santos disse que na próxima semana deverá conversar sobre o assunto com o ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho. Segundo o presidente do ONS, o ministério planeja concluir o primeira trecho do terceiro linhão de Itaipu (de Foz de Iguaçu até Ivaiporã, no Paraná) neste primeiro semestre. O

segundo trecho, até Tijuco Preto, em São Paulo, deverá estar terminado em novembro, permitindo a sua interligação com o resto do sistema. Itaipu tem uma capacidade de geração de 10.200 Megawatts. Segundo o engenheiro Fábio Rezende, do Instituto de Desenvolvimento de Estudos Estratégicos do Setor Energético (Ilumina), a conclusão do terceiro linhão a qualidade de transmissão vai melhorar e ficará menos vulnerável às oscilações de tensão do sistema. Orçado em R$ 270 milhões, o terceiro linhão estava previsto no projeto inicial da Usina de Itaipu, mas não saiu do papel por contenção de verbas. Já Angra II vai gerar 1.300 Megawatts de energia. Somado aos 630 Megawatts produzidos por Angra I, a fonte nuclear garantirá, a partir do ano 2000 quase a metade de toda a energia consumida no estado. O orçamento da Eletrobrás em 1999 é de R$ 2,85 bilhões. Deste total, deverão ser gastos R$ 400 milhões na conclusão da Usina de Angra II.


O vice-diretor da Coordenadoria de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da UFRJ (Coppe), Luiz Pinguelli Rosa, concorda com Santos sobre

a necessidade de mais investimentos. – Ele disse que haverá risco. Eu digo que esse risco já existe. O sistema precisa ter uma certa carga excedente, que hoje não há.

Controle geral fica em Brasília

Bernardo de la Peña

O Centro Nacional de Geração do Sistema, em Brasília, responsável pela operação de todo o sistema interligado de energia, funciona recebendo informações de todas as concessionárias do país. Segundo o presidente do Operador Nacional do Sistema, Mário Santos, os técnicos que trabalham nesta sala de controle cuidam da supervisão dos fluxos de energia no país e podem determinar a execução de manobras para garantir o abastecimento. – Se houver um problema em uma turbina de alguma usina, por exemplo, o técnico liga na hora e pede que a empresa passe a produzir com outra unidade. A velocidade com que isso é feito depende do nível de automação de cada empresa – explicou.


A idéia, segundo Santos, é que todas as informações sejam passadas em tempo real para que os técnicos em Brasília possam ter a melhor visão da operação do sistema interligado. Ele admite, entretanto, que algumas coisas dependem das geradoras e distribuidoras. O executivo disse que o orgão pretende investir R$ 50 milhões nos próximos dois anos na modernização dos sistemas para aumentar o nível de controle.


Santos lembra que cada uma das empresas é responsável pela operação de suas usinas e estações de energia. Ele explicou que os equipamentos que só interessam para o funcionamento do sistema em uma determinada região também são geridos por técnicos das empresas que ajustam a geração de energia ao consumo local. Já as usinas e subestações importantes para o abastecimento de energia de estados, por exemplo, são estão ligadas aos

centros regionais controlados pelo ONS. Segundo Santos, todo o planejamento da operação ainda é feito com as informações e estudos da Eletrobrás.

Explicações das autoridades não convencem em Bauru


BAURU (SP). Os habitantes de Bauru reagiram com descrença à notícia de que a origem do blecaute que afetou 55 milhões de brasileiros foi um raio que

caiu na cidade. Numa mistura de revolta e bom-humor, moradores do Jardim Marília, bairro vizinho à subestação de Bauru atingida pela descarga elétrica, mostram ceticismo frente à explicação das autoridades sobre a causa do blecaute.


O aposentado Izonel Francisco Siqueira diverte-se ao contar que, na noite de quinta-feira, estava assistindo televisão quando ouviu um estrondo. Em

seguida, escuridão total. Logo depois, novo estrondo. Apesar disso, ele desconfia da versão que aponta o raio como origem do apagão.


– Foram dois estouros feios, mas o tempo estava sequinho. Não estava nem garoando. Nunca vi raio com o tempo limpo. Para mim, está mal explicado – comenta, mesmo depois de saber que a CESP permitira o acesso da imprensa ao equipamento danificado pela descarga elétrica.


Ao seu lado, o filho Jair Francisco Siqueira também não se dá por vencido. Ele mora longe do pai e no dia do blecaute não percebeu nada diferente, apesar de se lembrar que o tempo era de chuva numa distância de cerca de 30 quilômetros a leste de Bauru. Jair até aceita a explicação de que tudo tenha

começado em sua cidade, mas acha que as proporções tomadas foram provocadas por outro fator.


– Concordo que o raio possa ter caído aqui, mas acho estranho que tenha provocado o estrago que causou. Estão querendo colocar a culpa em Bauru – disse.


A dona de casa Dora Josefina Martins disse que também ouviu os estrondos, e tem a mesma opinião. – Eu ouvi trovões. Mas houve alguma falha em algum lugar para que as coisas chegassem ao ponto de apagar as luzes em tantas cidades – assinalou.



Izonel disse que agora torce para que Bauru esteja em evidência por algum bom motivo. Além de ser apontado como o ponto de origem do blecaute, Bauru ocupa o noticiário há alguns meses por ter um ex-prefeito foragido e acusado de extorsão e mandante de atentados contra vereadores. Antônio Izzo Filho (PPB) está desaparecido desde que teve a prisão decretada. Ele assumiu a Prefeitura em 97 e em agosto de 98 teve o mandato cassado, acusado de cobrar propinas de fazendeiros e exigir R$ 1 milhão de Carmen Bresolin, dona de uma empresa de ônibus.

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