Para baixo, volver (Globo 27/11)
Lula não leva o governo para a esquerda nem para a direita. Leva-o para baixo. Enquanto consome seus dias seduzindo hierarcas do PMDB, perdeu cinco quadros da primeira linha do seu governo: Carlos Lessa (BNDES), Gastão Wagner (secretário-executivo da Saúde), Ana Fonseca (secretária-executiva da Fome), Ricardo Kotscho (assessor de imprensa) e Frei Betto (assessor pessoal).
Dessas cinco pessoas pode-se dizer de tudo: doidos, encrenqueiros, intransigentes, atrapalham por intrometidos ou por ausentes. Duas coisas são certas: todos cinco têm mais de 30 anos de militância na defesa do interesse público e são exemplos de probidade pessoal. São todos pobres. O patrimônio dos cinco cabe na disputa de R$ 7 milhões que uma empresa do deputado Eunício de Oliveira, grão senhor do PMDB, teve com o INSS.
Gastão Wagner, defenestrado da secretaria-executiva do Ministério da Saúde, pode ser um símbolo do quinteto. Indica quem são as pessoas que estão saindo. Ele tem 52 anos, 21 de PT, uma cadeira de professor de medicina preventiva na Unicamp e três filhos. Não precisa do poder nem do seu aparelho. Dois anos de governo custaram-lhe dinheiro e a paciência de manter duas moradias. Foi para Brasília levando o sonho de uma geração. Viu-se num governo que centraliza a compra de toneladas de material odontológico do programa Brasil Sorriso. Reuniu-se com uma ekipekonômica (Joaquim Levy e Bernard Appy) que trata o Sistema Único de Saúde como se fosse uma dissidência do Banco Santos. Viu-se submetido a uma marquetagem que privilegia o que pode ser apresentado como novidade em detrimento da boa política de saúde.
Exemplo: o governo gosta das Farmácias Populares, uma demagogia de alcance limitado, enquanto vai devagar com o Programa Saúde da Família. Lula prometeu aumentar o número de equipes de 17 mil para 32 mil. Passou-se metade do governo e implantaram-se apenas cinco mil equipes. O plano de qualificação dos serviços hospitalares, prometido para o Brasil, ficou restrito a três cidades, entre elas o Recife do ministro Humberto Costa.
É muito provável que Wagner tenha sido chamado ao Planalto para reuniões com marqueteiros com mais freqüência do que para discutir políticas de saúde.
Os governos podem ser medidos de duas formas: pelo tamanho das pessoas que entram e pelo tamanho dos que saem. Lula conseguiu uma proeza: nunca tanta gente exemplar saiu em tão pouco tempo por motivos tão desqualificados.
Wagner foi para Brasília achando que o governo de Lula faria um Plano Marshall para quem trabalha e vive mal. Caiu fora do Plano Palocci para quem vive de juros sem trabalhar.