Transcrito do site www.desempregozero.org.br
Manipulação estatística de um vôo de galinha
J. Carlos de Assis Editor-chefe
A economia brasileira não está em regime de crescimento auto-sustentável. Embora a taxa de crescimento acumulada nos três primeiros trimestres tenha atingido 5,3%, a taxa de crescimento nos últimos 12 meses ficou em 4,2%. Alguém pode supor que, no último trimestre deste ano, o crescimento anual esbarre nos 5%. Não é provável. O atual surto de crescimento ocorreu justamente a partir do último trimestre do ano passado, de sorte que, tendo essa base maior de comparação, a tendência é um crescimento menor até dezembro.
Não só isso. Os indicadores mensais de desempenho do PIB e da indústria e os indicadores acumulados por trimestre assinalam uma clara desaceleração do aumento da produção. No caso da Agropecuária isso é claro. Comparado com o trimestre do ano anterior, enquanto a produção no segundo trimestre tinha aumentado de 5,8 para 6%, no último trimestre a taxa de crescimento caiu para 4,9%. Comparada ao trimestre imediatamente anterior, numa base ajustada, a queda foi de 1,2 para menos 3,6%.
É verdade que, na comparação com o trimestre anterior, o crescimento da produção da Indústria passou de 1,5 para 2,8% no terceiro trimestre. Entretanto, no mesmo período, o crescimento dos Serviços caiu de 1,4 no segundo trimestre para 0,7%. Como se sabe, na economia contemporânea, o setor relevante para o aumento do emprego é o de Serviços, pois a Indústria e a Agropecuária (exceto a pouco protegida agricultura familiar) são cada vez mais poupadoras de mão de obra. Assim, o crescimento que temos tido reflete pouco na criação de bons empregos novos.
Tomando como base de comparação o ano de 1990, com média 100, a produção da Agropecuária caiu de 192,6 para 154,3 no último trimestre, a da Indústria aumentou de 129,7 para 141,5 e a dos Serviços apenas de 127,8 para 130,3. Isso significa que, após quinze anos de suor e sacrifícios do povo, a economia brasileira não conseguiu outro desempenho acumulado no setor de Serviços que não uns míseros 30%, para a Indústria modestos 41,5% e para a Agropecuária, 54,3%. Entretanto, olhemos para a frente.
A perspectiva clara é de perda de fôlego do crescimento da economia. A Indústria em setembro registrou crescimento nulo em relação a agosto. A Agropecuária, como se viu, está desabando. E os Serviços patinam. Isso é possível reconhecer nas estatatísticas. Mas o elemento de convicção maior não está aí. Pode acontecer uma animação excepcional do empresariado neste fim de ano e um surto continuado de crescimento. O que não pode haver, no contexto da atual política macroeconômica, é que isso entre 2005 adentro.
A macroeconomia de Palocci conspira contra o crescimento. As taxas de juros estratosféricas do Banco Central desestimulam qualquer tipo de investimento produtivo que não seja uma galinha morta. E o superávit primário indecente retira recursos da demanda privada e os esteriliza na ciranda financeira, igualmente inibindo o investimento. Nesse contexto, só existe uma possibilidade de aumento da demanda e do investimento. É a demanda exclusivamente dos ricos, engordada pelos juros diários no over.
O processo não é bem reconhecido pela maioria dos economistas conservadores, e de nenhuma forma pelos neoliberais, mas é bem simples. O Governo, via superávit primário, retira dinheiro de toda a sociedade, inclusive dos pobres, através de impostos diretos e indiretos. Com esse dinheiro, supostamente paga juros sobre a dívida pública. Os receptores desses juros podem fazer três coisas com ele: investir, acumular e gastar. Investir eles não investem, porque não existe demanda potencial para sua produção. Sua tendência é, pois, acumular, comprando mais títulos públicos. Uma margemzinha eles reservam para aumentar o consumo. É daí que vem o pífio crescimento da economia.
Naturalmente, uma economia da dimensão da brasileira que venha a depender exclusivamente da demanda dos ricos (e das exportações) está condenada à virtual estagnação. Se crescermos 4% neste ano, é provável que cresçamos zero no próximo, dependendo do ciclo de consumo dos ricos. Foi exatamente o que aconteceu em 2000: crescimento de 4,6%, e derrubada nos três anos seguintes. Contudo, é importante realmente sabermos se estamos em crescimento sustentável? Obviamente, sim. Só tem sentido propor uma nova política econômica de pleno emprego se a que está sendo implementada nos está levando para o buraco do alto desemprego. Justamente por isso é preciso desmistificar a demagogia laudatória da equipe econômica em torno do crescimento do terceiro trimestre, e desmistificar o crescimento de vôo de galinha. Ele é simplesmente enganador!