RISCO, SÓ PARA A PETROBRÁS (AEPET)

RISCO, SÓ PARA A PETROBRÁS (AEPET)





José Vilhena – Jornalista



O proprietário da MPX, Eike Batista, chega na sala de reunião, no último dia 13 de janeiro, para a coletiva marcada com a imprensa. Motivo: convencer os jornalistas que ficará no prejuízo se houver renegociação do contrato com a Petrobrás em relação à termelétrica mercantil Termoceará. O tempo todo de pé e nervoso, ele ameaçava: vai ficar inadimplente com os bancos, demitirá funcionários e usava o terror dizendo que a imagem do Brasil ficará arranhada no exterior se houver rompimento de contrato. Chama a Petrobrás de “truculenta” para justificar a sua tese: não vê problema algum que a estatal lhe retorne três vezes o que investiu, junto com o grupo norte-americano MDU, para continuar dono do negócio, através de um contrato lesivo assinado durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, na qual há uma cláusula denominada “Contribuição de Contingência”. Por ela, a Petrobrás paga mensalmente todos os custos e investimentos do empreendimento sem obter qualquer receita. É um seguro gratuito para a MPX. O empresário já recebeu US$ 80 milhões, em dois anos, da Petrobrás, mais da metade dos US$ 150 milhões gastos na construção da termelétrica. Uma mina de Salomão. Retorno só comparável a investir no sistema financeiro. Mas ele esperneou: “Estou aqui para defender os meus interesses”. E ainda ameaçou: “como o investidor privado estrangeiro vai investir nas Parcerias Público-Privada se não houver garantia do Estado para o investidor?” Resumindo a ópera: para o investidor privado nenhum risco, apenas para a Petrobrás.
Apesar de esbravejar, Eike não conseguiu sensibilizar os jornalistas que sabem que os contratos podem ser renegociados. Em todas as partes do mundo. E isto está previsto até mesmo no lesivo contrato assinado na frente de Fernando Henrique Cardoso e Tasso Jereissati. Há uma cláusula, inclusive, que diz que qualquer uma das partes que se sentir lesada pode questionar e pedir uma arbitragem para decidir o conflito. Nada mais transparente. Foi isto que a Petrobrás fez e que Eike Batista chamou de “truculência” da empresa. Até mesmo as agências de risco deram razão à estatal e reduziram o risco da companhia, justificando que a Petrobrás defendia apenas a sua saúde financeira. Ou seja, está dentro da lei e não rompendo contrato como tentou passar Eike Batista.
Durante a entrevista, ele se auto-denominou investidor brasileiro. Bem, investidor é aquele que corre risco. Quando resolveu entrar no negócio, não foi pelo amor ao Brasil, mas porque acreditou que ganharia muito dinheiro com a termelétrica durante as incertezas do apagão. Se São Pedro não tivesse atrapalhado os seus planos. Mas como o cenário mudou, ele quer agora ganhar mais do que investiu em apenas cinco anos – a visão de retorno no curto prazo – sendo que ganhará ainda mais se o país entrar na rota do crescimento econômico na qual demandará mais energia. E aí a Termoceará entrará em funcionamento. O que a Petrobrás está querendo é a revisão do contrato ou a compra da termelétrica. Segundo Eike Batista, a companhia está oferecendo US$ 127 milhões porque deseja o desconto do que já pagou à MPX. Ele deseja US$ 170 milhões para se desfazer do negócio, mas anuncia isso sem muita convicção. O plano de Batista é crescer no ramo de termelétricas, construindo uma no Mato Grosso do Sul e planeja outra no Mato Grosso. Ou seja, enxerga um grande negócio.
Eike Batista não terá, conseqüentemente, prejuízo se houver o rompimento do contrato porque ganhará a longo prazo. Quando houver maior demanda de energia, ele poderá ter maior retorno pelo seu investimento porque cobrará por uma energia bem mais cara. Porque a termelétrica mercantil, ou Merchant como vem sendo chamada pela imprensa, só entra em funcionamento em caso de emergências. Por isso, o custo de sua energia é mais alto porque é cobrado o tempo em que ficou parada. Este é o negócio em todo o mundo. E Eike Batista sabe disso, assim como o seu sócio, a empresa norte-americana MDU. Se entraram no negócio, é porque viram retorno. Pelo menos, assim deve ser a visão de um investidor privado.
Com o prejuízo nesses contratos com as três merchants, a Petrobrás começou a renegociá-lo. Comprou a Eletrobolt e agora negocia com a El Paso, proprietária da Macaé Merchant e com a MPX, que controla a Termoceará. A última empresa é que vem criando caso. Em momento algum, decidiu romper contrato. Mas o investidor privado brasileiro ainda não entendeu o que é ser investidor em infra-estrutura. E se transforma apenas um especulador. Detalhe: a decisão de suspensão do pagamento da chamada “Contribuição de Contingência” – só com a MPX de Eike Batista foram R$ 14 milhões mensais a partir de janeiro – foi aprovada pelo Conselho de Administração da Petrobrás, composto até por empresários, com base em parecer de juristas renomados.

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