JOÃO SAYAD – Folha de São Paulo 24/01/05
Cuco
Historiadores abominam a continuidade. Gostariam que a história fosse uma sucessão de acontecimentos isolados, como o tempo medido por antigos relógios de parede. Cada momento, um evento espetacular -a Descoberta do Brasil, a Independência, a República- anunciado com os sons e a fúria do cuco do relógio a cada meia hora.
Infelizmente, história é apenas continuidade, tempo medido por cronômetro digital que marca milésimos de segundos contínuos e intermináveis. O primeiro minuto é o 60º segundo. A primeira hora, o 60º minuto. E o fim dos séculos, um miserável último segundo.
Na quarta-feira da semana passada, o Copom aumentou em 0,5 ponto percentual a taxa de juros básica. Subiu para 18,5% e passou a ser 12,5 pontos percentuais maior do que a taxa de inflação. A quarta-feira do Copom é data de um aniversário desafortunado. Há dois anos o governo arrecada 38% do PIB com impostos de quem trabalha ou investe e devolve 6,25% do PIB para quem guarda dinheiro e não faz nada.
É mais um átimo do longo processo que começou em 1965, quando começamos a correr atrás do sonho da moeda estável. Foi criada a correção monetária e uma supermoeda, a dívida pública -superlíqüida (igual a dinheiro na mão), sem risco (emitida pelo Banco Central), muito rentável (rende bons juros) e à prova de inflação. O choque do petróleo, de 74, a crise da dívida em 82 e a redemocratização acabaram com o sonho da moeda nacional estável. Com a globalização e o Plano Real, a moeda nacional se tornou estável porque podia ser trocada a preço fixo pelo dólar, isto é, valia porque não era nacional.
Acabaram-se correção monetária e taxa de câmbio fixa. Agora, a moeda nacional vale porque se reproduz androginamente à taxa de 18,5% ao ano. Dez anos depois da desindexação, a moeda nacional cresce como se existisse correção monetária, protegida contra a inflação de demanda ou de custo, líqüida e muito rentável.
Há meio século o país tenta estabelecer uma moeda de valor estável adicionando vantagens e qualidades à moeda que emite: correção monetária, taxas de câmbio fixas, conversibilidade e, agora, juros escorchantes. A tentativa custa caro ao Tesouro Nacional, que não consegue pagar tantos subsídios ao detentor da moeda nacional.
A moeda nacional não é estável nem confiável por razões que não têm a ver com ela em si, mas com o país onde ela circula -de muitos pobres e poucos ricos, sem estradas, casas, portos ou esgotos, onde os pobres querem ficar ricos e os ricos são incentivados a guardar dinheiro e a não investir. Ninguém confia nessa moeda artificial, subsidiada e impagável. Nem neste país de futuro sempre postergado.
A última quarta-feira foi apenas a primeira de um século de infinitas quartas-feiras que apenas começou e já parece infindável.