Sem Comentários VI

CLÓVIS ROSSI – Folha de SP – 15/02/05

A esbórnia assumida

SÃO PAULO – Chocado com a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) para a presidência da Câmara?
Pense positivo. Na prática, os deputados apenas tiraram a fantasia de defensores do povo e da pátria e assumiram: querem o deles e ponto final. Ou pelo menos 300 deles o fizeram (quem foi mesmo que usou esse número de deputados para uma frase famosa à época?).
Cavalcanti foi o primeiro a despir a fantasia de “representante do povo”: sua principal promessa de campanha não era botar a Câmara para funcionar ou dar a ela a característica que jamais deveria deixar de ter, a de um poder, contraponto com o Executivo.
Era pura e simplesmente aumentar o salário dos colegas e dar-lhes melhores condições de vida, ops, de trabalho. Ponto.
Simples assim, cínico assim, honesto assim. Se o público está saturado dos privilégios de que gozam os pais da pátria, azar do público. Como diria Chico Anísio, na fantasia de deputado, “o povo que se exploda”.
Essa é a clara mensagem emitida pela eleição de ontem. Ou, se se quiser dizer com todas as letras: o Brasil ou ao menos o seu Parlamento se assume de uma boa vez como república bananeira.
É melhor assim do que ficar disfarçando, andando por aí de terno e gravata, em vez da fantasia de Chiquita Bacana. Não melhora o desempenho parlamentar de ninguém, mas, pelo menos, é transparente. O nosso é nosso, ninguém tasca.
Deve-se sem dúvida ao PT, por ação, omissão e/ou incompetência, esse despudor assumido. Se alguém conseguir enxergar uma maldita diferença entre os dois candidatos do partido ao cargo agora de Severino Cavalcanti, é porque leva no bolso um daqueles telescópios de altíssima potência ou, mais provavelmente, porque mente.
Na era PT, que se dizia o único dono da moral e dos bons costumes políticos, a esculhambação é, afinal, assumida de público, a esbórnia é oficializada e o país deve virar o faz-me-rir do planeta. Parabéns.

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