A VOLTA DOS VEÍCULOS ELÉTRICOS
CREA-RJ em Revista maio / 2005
No caso dos transportes, o motor elétrico é o que melhor atende às necessidades de tração dos veículos. Motores elétricos só usam energia quando o veículo se desloca, são mais fáceis de controlar, não têm gases de escapamento, são mais silenciosos, não vibram, requisitam pouca manutenção e são muito potentes. Para se ter uma idéia da força desses motores, nas edificações, os elevadores são sempre acionados eletricamente.
USO INICIAL RESTRITO
Apesar das vantagens, o motor elétrico não venceu a disputa com os motores de combustão interna para uso veicular. O maior problema dos veículos elétricos era o elevado tempo de abastecimento. Os VE pareciam, então, condenados a usos muito específicos tais como carros de golf, cadeiras de rodas ou para circulação em ambientes fechados, onde as emissões não são permitidas.
No fim do século passado, no entanto, questões ambientais fizeram renascer o interesse pelos elétricos. Na Califórnia, por exemplo, foram criados incentivos para carros de emissão zero e vários modelos de VE a bateria foram desenvolvidos para competir com os carros convencionais.
Foram introduzidas baterias mais leves e com maior capacidade, além de freios regenerativos. Com esse sistema, nas freadas, o motor se torna um gerador e produz energia elétrica, armazenada nas baterias ou capacitores para uso posterior. Como resultado, surgiu uma geração de VE muito eficiente e econômica. A GM, por exemplo, lançou um modelo elétrico, o EV1. Com valores do início deste ano, o carro gasta R$ 9,00 para andar 100 Km na cidade contra R$24,00 com gasolina em um carro convencional.
GERADOR DE BORDO
Porém, a mais importante novidade desse mercado foi o surgimento de veículos elétricos híbridos (VEH). Nesses carros, a energia elétrica é suprida por um gerador instalado a bordo. Às vantagens do veículo a bateria, o VEH adicionou a resolução dos problemas da autonomia e tempo de carga do VE, passando a competir diretamente com os veículos convencionais.
Além disso, seu motor aciona apenas o gerador, isto é, ou está desligado ou opera apenas nas condições ótimas, garantindo baixa emissão de poluentes e consumo de combustível bem menor. Com efeito, a primeira geração de VEH consome 25% a 45% menos combustível que o veículo convencional e emite 90% menos poluentes.
Em 1988, a Toyota lançou o VEH Prius. A iniciativa foi tratada por especialistas como uma novidade voltada para um mercado ‘politicamente correto’, relativamente pequeno e fadado a ser mais uma experiência sem resultado comercial. Apostavam que a opção real a longo prazo seriam os veículos movidos com células a combustível. No entanto, as vendas de híbridos continuaram a crescer. Hoje, há mais de 300 mil em circulação e, com o sucesso das vendas, a partir de 2003/20004, quase todos os grandes fabricantes passaram a anunciar novos modelos de híbridos.
Outra novidade foi o uso de células a combustível como fonte de energia elétrica para veículos elétricos. Trata-se de um equipamento experimental eletro-químico que produz corrente elétrica a partir da reação do hidrogênio com oxigênio. Em 2003, a experiência ganhou novo impulso quando o tema da ‘economia do hidrogênio’, centrado em usar estes veículos para substituir os convencionais, foi escolhido pela administração Bush como sendo a alternativa norte-americana ao Protocolo de Kyoto.
Atualmente, há 800 veículos com célula a combustível em teste no mundo, mas ainda há muitos problemas para reduzir os custos da célula. Além disso, como o hidrogênio não existe livre na natureza, é preciso encontrar soluções para produzir, distribuir e estocá-lo. Depois de uma onda de otimismo, analistas divergem muito sobre quando estes problemas serão superados: a indústria acredita num prazo de cinco a dez anos e a Academia Nacional de Ciência dos EUA fala em pelo menos duas décadas.
REALIDADE COMPETITIVA
Neste estágio inicial, é muito difícil avaliar como será a evolução dos VEH e, em particular, como isso se refletirá em uma economia periférica como a nossa. Como parte de seu desenvolvimento, o aumento da capacidade das tecnologias de armazenamento de eletricidade, isto é, super-capacitores e baterias (os progressos são visíveis, por exemplo, nos telefones celulares).
Quanto ao reflexo no Brasil, cabe mencionar que aqui já são fabricados com tecnologias próprias pela Tuttotrasporti, do Rio Grande do Sul, e a Eletra, de São Paulo, que inclusive já exporta híbridos. Elas usam a tecnologia mais simples de VEH (serial), adaptada aos usos urbanos. Mas é provável que as montadoras tragam para cá os VEH de passeio com tecnologia mais complexa (paralelada), atendendo à demanda dos consumidores, sempre em busca de novidades. Certo é que os veículos elétricos estão de volta e já são uma realidade competitiva em economia e eficiência.
Jayme Buarque de Hollanda
Engenheiro e diretor do Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE)
Luiz Artur Pecorelli Peres
Professor do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da UERJ e coordenador do Grupo de Estudos de Veículos Elétricos (GRUVE)