Rondeau é contra resolução da Aneel / Comentário


Decisão eleva risco de racionamento e cria atrito



Cláudia Schüffner e Daniel Rittner, Valor




O aumento do risco de um novo racionamento de energia agravou as tensas relações entre o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, e o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman. Na origem do mal-estar está a decisão do órgão regulador de retirar as usinas termelétricas sem gás da contabilidade de energia disponível no sistema elétrico nacional. Com a medida, que pode ser aprovada na próxima terça-feira pela diretoria colegiada da Aneel, serão alterados os cálculos oficiais que medem as possibilidades de déficit no abastecimento energético até 2010.






Em uma troca de correspondências entre Rondeau e Kelman para tratar do tema, sobraram farpas, mostrando as enormes divergências entre as maiores autoridades do setor. Em ofício encaminhado ao diretor-geral da agência, em 10 de novembro, o ministro criticou a resolução normativa da Aneel nº 231, que determina a retirada das térmicas sem gás do cálculo do Custo Marginal de Operação (CMO), feito pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).






Numa tentativa de interferência no processo decisório da Aneel, Rondeau advertiu que “esse procedimento não pode ser efetivado exclusivamente pela Aneel, uma vez que é competência deste Ministério definir e publicar os valores da garantia física dos empreendimentos de geração”. “Dessa forma, mostra-se oportuno que essa Agência reexamine o teor [das resoluções…] de modo a que, em seguida, o MME e a Aneel possam equacionar as questões formais relativas ao tema”, acrescentou.






A resposta de Kelman foi enviada três dias depois, no dia 13, em ofício de sete páginas. Ele disse que a medida é necessária para não agravar ainda mais o risco de racionamento. Kelman foi firme ao rebater a afirmação do ministro de que a mudança não é da alçada da agência. Segundo o diretor-geral, a Aneel “não poderia adotar a ‘postura do avestruz’, que imagina estar resolvendo situações difíceis ao recusar enxergá-las”. “Ao contrário, é obrigação da Aneel conhecer a verdade, ainda que desconfortável, para poder enfrentá-la com eficácia e poder sugerir a V. Exa. [Rondeau] as medidas que extrapolem nossas obrigações legais e se encontrem na esfera de responsabilidade do Governo”, completou.






Na medida em discussão, a agência propõe ajustes no limite de disponibilidade de algumas tetérmicas. Em setembro e outubro, foram acionadas dez térmicas guardadas como uma espécie de reserva para momentos de menor geração por fontes mais baratas. Juntas, ela têm potência instalada de 5.315 megawatts (MW). Quando acionadas, devido à falta de gás, geraram só 1.927 MW médios.






Ou seja, em caso de necessidade, as usinas não têm capacidade de gerar toda a energia prevista de forma simultânea, por insuficiência de matéria-prima. Na terça-feira, a diretoria da Aneel decide se retira essas térmicas da contabilidade de energia disponível no sistema interligado nacional. Dona de seis das usinas listadas, a Petrobras sugeriu à Aneel retirar as térmicas Eletrobolt, Macaé Merchant, TermoCeará e Nova Piratininga da contabilização até 2008. Se aprovar a medida, mudará a “curva de aversão ao risco”, que indica o volume mínimo de água que deve ser mantido nos reservatórios como energia guardada para o futuro.






Com o ajuste dessa curva para cima, o risco de déficit no abastecimento sobe substancialmente. Também haveria impacto imediato nos preços da energia negociada no mercado livre – o que, se não afeta o bolso dos consumidores cativos das distribuidoras, pode elevar em R$ 300 milhões por mês a conta de parte da indústria, que compra energia no mercado de curto prazo.






Segundo projeções da Câmara Comercializadora de Energia Elétrica (CCEE), esses ajustes podem elevar o risco de déficit no suprimento de energia para até 25,1% no Sudeste (em 2010), 30,05% no Nordeste (2010) e 63,5% no Norte (2009). Nas contribuições à consulta pública aberta pela Aneel, a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) também apontou o forte aumento das possibilidades de racionamento.






A Energias do Brasil sugeriu que a geração das termelétricas deve ser adaptada para haver despacho nos momentos em que o consumo não-térmico de gás, principalmente pelo setor industrial, é baixo, como nos fins de semana e a noite. Em nota técnica concluída na terça-feira, a agência considerou a proposta “interessante”, mas cuja implementação “não é simples”.







Na carta enviada a Silas Rondeau, Kelman disse que a Aneel estaria vendendo “gato por lebre, agravando o risco de racionamento”, se ignorasse que a disponibilidade observada das térmicas não corresponde à disponibilidade declarada. Admitiu o gosto amargo das medidas, mas frisou: “O principal desses efeitos é que a operação do sistema e a formação do preço vão levar em conta dados mais precisos quanto aos recursos disponíveis. (…) Como em qualquer mercado, quando o preço está elevado, aparece a oferta, o que a longo prazo pode evitar um racionamento”.


Kelman criticou em 2001 gestão ineficaz



De Brasília e do Rio





A advertência lançada pelo diretor-geral da Aneel lembra o relatório preparado pelo próprio Jerson Kelman em julho de 2001, em meio ao racionamento de energia, quando ele ainda presidia a Agência Nacional de Águas (ANA). Conhecido como “Relatório Kelman”, o trabalho apontou a “ineficácia da gestão intragovernamental” como uma das causas do apagão. Divergências entre várias autoridades do setor impediram a execução do Programa Prioritário de Termelétricas (PPT), que não deslanchou a tempo de evitar o racionamento.







O relatório concluiu que Eletrobrás, ONS, Aneel e Ministério de Minas e Energia tinham elementos suficientes, em meados de 1999, para presumir um risco “muito elevado” de déficit no abastecimento nos anos de 2000 e 2001. (DR e CS)


Comentário


Parafraseando o filme do Al-Gore (o ex-vice dos EUA que perdeu a 1ª eleição para o Bush filho em 2000), cada país tem “Uma Verdade Inconveniente” que merece…


E a nossa “Verdade Inconveniente”, pelo menos no nosso Setor Elétrico Brasileiro (SEB), continua sendo o que o próprio “relatório Kelman” já apontava lá pelos idos de 2.001 (em plena crise de energia elétrica, quem não se lembra dela!?): o “Relatório Kelman” apontou a “ineficácia da gestão intragovernamental” como uma das causas do apagão de 2001. Divergências entre várias autoridades do setor impediram a execução do Programa Prioritário de Termelétricas (PPT), que não deslanchou a tempo de evitar o racionamento. O relatório Kelman concluiu ainda que: “a Eletrobrás, o ONS, a Aneel e o Ministério de Minas e Energia tinham elementos suficientes, em meados de 1999, para presumir um risco ‘muito elevado’ de déficit no abastecimento nos anos de 2000 e 2001”.


Esta é mais uma constatação da importância de se ter uma Agência Reguladora independente e autônoma, para dar a transparência e a veracidade adequadas à administração do setor elétrico brasileiro.


Uma Agência Reguladora com autonomia de ação em relação ao Poder Executivo tem condições de “exercício de poder” para “não adotar a postura do avestruz, que imagina estar resolvendo situações difíceis ao recusar enxergá-las”, como disse o Diretor Geral da Aneel em ofício ao Ministro Silas. Reforçando ainda o que o Diretor Geral da Aneel disse em seu ofício ao MME: é obrigação não apenas da Aneel (mas também dela!), como de resto direito de toda a sociedade brasileira, conhecer a verdade, ainda que desconfortável, para poder enfrentá-la com eficácia e poder exigir do Poder Executivo as medidas que caibam nas obrigações legais deste e que se encontrem na esfera de responsabilidade do Governo.


Indo diretamente ao ponto da discórdia entre o MME e a Aneel, a Agência Reguladora propõe ajustes no LIMITE REAL de disponibilidade de algumas usinas térmicas. Ou seja, em caso de necessidade, as usinas não têm capacidade de gerar toda a energia prevista de forma simultânea, por insuficiência de matéria-prima (gás natural). Amanhã (terça-feira, dia 28/11/2006), a diretoria da Aneel decide se retira essas térmicas que não dispõem de combustível para entrar em operação (como ficou constatado recentemente pelo ONS e pela Aneel) da contabilidade de energia disponível no sistema interligado nacional (SIN).


Se a Aneel aprovar esta medida (prevista na resolução sob avaliação pela diretoria da Aneel), mudará significativamente a “curva de aversão ao risco”, que indica o volume mínimo de água que tem que ser mantido nos reservatórios das hidrelétricas como uma reserva estratégica de energia guardada para o futuro. Também alterará de forma substancial a sinalização de preços para o mercado de curto prazo ou “spot”.


Dona de seis das usinas listadas, a Petrobrás sugeriu à Aneel retirar as térmicas Eletrobolt, Macaé Merchant, TermoCeará e Nova Piratininga da contabilização até 2008. Com o ajuste dessa curva para cima, o risco de déficit no abastecimento sobe substancialmente.


O impacto imediato desta resolução nos preços da energia negociada no mercado livre – o que não afeta o bolso dos consumidores cativos das distribuidoras – pode elevar em R$ 300 milhões por mês a conta a ser paga da parte da indústria, que compra energia no mercado livre (ou seja, para os consumidores livres).


Mas, se tem estas conseqüências, diríamos não “tão agradáveis” do ponto de vista econômico para os consumidores livres, por outro lado evita desastres imensamente maiores no futuro, que atingiriam a todos indistintamente e não apenas aos consumidores livres, reduzindo os seus lucros momentâneos (vide o recente exemplo do que passamos com a crise de energia elétrica de 2001 e o racionamento a que fomos todos obrigados a nos submeter!).


Concordamos na íntegra com as palavras do Sr Kelman no seu ofício ao Ministro Silas, quando diz que “a Aneel estaria vendendo ‘gato por lebre, e agravando o risco de racionamento’ no SEB”, se ignorasse que a disponibilidade observada das térmicas não corresponde à disponibilidade declarada.


Também admitiu o Sr Kelman, corretamente ao nosso ver, no ofício da Aneel ao MME “o gosto amargo das medidas”, mas frisando: “o principal desses efeitos é que a operação do sistema e a formação do preço vão levar em conta dados mais precisos (verdadeiros!) quanto aos recursos (energéticos) efetivamente disponíveis no SIN.



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