RIO MADEIRA: OS BAGRES E OUTROS BICHOS DA POLÍTICA
(OU PARA ALÉM DOS BAGRES DO RIO MADEIRA, OS DESEJOS INCONFESSÁVEIS DA “ALA DA BOQUINHA” DE UM PARTIDO POLÍTICO)
Todos temos acompanhado a ‘novela’ em que se transformou a concessão das licenças ambientais prévias por parte do IBAMA para as duas usinas previstas para o rio Madeira, cujos estudos de inventário energético, viabilidade técnica e econômica e de impacto ambiental foram feitos pelo consórcio FURNAS-ODEBRECHT. Todos estes estudos foram realizados durante mais de 5 anos ininterruptamente, já que começaram em 2001 pelos estudos de inventário do potencial energético do rio Madeira, tendo custado a este consórcio mais de 70 milhões de Reais. Já voltaremos a tratar deste assunto mais à frente.
De outro lado, tem chamado muito a atenção de analistas políticos da mídia brasileira, e também da população que tem acompanhado mais atentamente os fatos, a insistência doentia com que a ala da “Câmara Baixa” (a metáfora, no caso, é perfeita!) do Congresso Nacional tem reivindicado, para um dos seus indicados, a Presidência de FURNAS. Isto viola o acordo tácito existente no interior do maior partido de sustentação do segundo governo Lula no Congresso Nacional. Por este acordo tácito, como é sabido por todos, cabe aos integrantes deste partido com mandato popular na “Câmara Alta” indicar os gestores da máquina federal nos Ministérios de Minas e Energia e Telecomunicações.
Assim, chama mesmo muito a atenção este fato “incomum”, ainda mais para lutar pela Presidência de uma empresa como FURNAS, que é a maior empresa de geração e transmissão da América Latina (e segunda do mundo, somente perdendo o primeiro posto para uma empresa Russa), com um parque gerador de quase 10.000 MW instalados, contando com 11 hidrelétricas, 2 termelétricas e 19.000 km de linhas de transmissão, desde 138 kV até 800 kV, a maior tensão em operação na América Latina. FURNAS tem capacidade de gerar até 13% da energia consumida em todo o sistema interligado nacional (SIN) e suas linhas de transmissão transportam mais de 40% de toda a energia produzida no SIN. Portanto, como se pode depreender, sua administração é extremamente complexa e exige conhecimentos técnicos do setor elétrico muito aprofundados. Por que será, então, que existe tal “ânsia” de alguns dos integrantes deste partido na “Câmara Baixa” (desculpem a insistência com o termo, mas ele tem um “que” de precisão incrível neste contexto!) para obter a presidência de FURNAS no segundo mandato do Presidente Lula?
Vamos agora acrescentar mais uma “peça” ao quebra-cabeça que estamos tentando montar: a PF desbaratou, brilhantemente mais uma vez, com a operação “Navalha”, uma grande ação de rapina do recurso público, através do esquema montado pela construtora Gautama (coitado do Buda com esta triste história!). Assim, houve recebimento indevido pela Gautama de verbas públicas, com as verbas chegando antes das obras, no “Programa Luz para Todos” no Piauí (o que causou a queda do ex-Ministro Silas), com as verbas da barragem que não foi feita no Distrito Federal, com as verbas da ponte sem estrada no Maranhão…
E não é que a Gautama montou um consórcio para disputar a construção das usinas do rio Madeira contra FURNAS e Odebrecht? Incrível também a coincidência de um ex-governador do Rio de Janeiro, e que tem colaboradores muito próximos na atual “Câmara Baixa”, ter liberado verbas para a Gautama na véspera de sua saída do governo para a construção de casas populares! Neste caso, o termo “véspera” é aplicado no sentido literal mesmo, já que este fato ocorreu no dia anterior à sua saída do governo do estado do RJ.
Neste ponto voltamos às usinas do rio Madeira: elas (Santo Antõnio e Jirau) terão potência instalada de 6.450MW, a partir de 88 unidades geradoras tipo bulbo (para usinas de muito baixa queda, ou cerca de 15 metros). Ambas as usinas custarão (excluindo a transmissão para integração das mesmas ao SIN) cerca de 25 bilhões de Reais. Sabemos que o Ibama anda protelando a emissão das licenças ambientais prévias que são necessárias para se fazer o processo licitatório da concessão destes empreendimentos. Mas, por outro lado, sabemos que estes empreendimentos são fundamentais para o desenvolvimento econômico do país, pois produzirão a energia que o país necessitará a partir de 2012 pelo custo mais baixo, seja econômico, seja ambiental, como já atestaram a Aneel, a EPE e o MME.
A própria EPE (Empresa de Pesquisa Energética do MME – Ministério de Minas e Energia) já divulgou pela imprensa que a participação da geração hidrelétrica em 2016 irá cair de 70% da produção total de energia elétrica no Brasil para menos de 60%, caso as usinas do rio Madeira e a usina de Belo Monte, no rio Xingu, não sejam construídas. Isto exigirá que em seus lugares sejam construídas usinas termelétricas (a partir do carvão mineral, óleo combustível, gás natural) para suprir as necessidades energéticas do país até 2016. Isto contribuirá para o país passar a despejar mais de 170 milhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera do planeta, no caso destas hidrelétricas não se tornarem realidade, indo totalmente na contra-mão do que deve ser feito para conter o efeito do aquecimento global.
Portanto, é liquido e certo, como o sol nasce todos os dias no leste e se põe no oeste, que estas obras terão que ser feitas. E como a Gautama, que de boba não tem nada, também sabe disso e viu que estes empreendimentos eram um negócio muito “atraente”, claro, do ponto de vista “negocial”. Percebeu, assim, uma oportunidade irresistível para buscar novas “ações empresariais”…
Então, depois de todas estas incríveis coincidências da vida política brasileira atual, será que somente nos restará torcer para que Deus, que era brasileiro no dito popular, queira ainda continuar sendo?
ILUMINA