A discussão do preço


Agentes acreditam que preço final de Santo Antônio pode ser compensado no mercado livre
Associações elogiam resultado do leilão como fator que trará alívio para consumidores finais. No entanto, atendimento de consumidores livres e meio ambiente ainda preocupam


Alexandre Canazio, da Agência CanalEnergia



A vitória do Consórcio Madeira Energia com um deságio de 35% sobre o preço-teto de R$ 122/MWh na disputa pela hidrelétrica de Santo Antônio (RO-3.150,4 MW) gerou reações positivas no setor elétrico. O preço final de 78,87/MWh foi comemorado pelo alívio que trará ao bolso dos consumidores cativos e por demonstrar que o empreendimento é viável economicamente. Ao mesmo tempo, os agentes são unânimes em dizer que o valor baixo será compensado na venda da parcela não comercializada no mercado livre.


“Eles terão que achar um preço médio que remunere os investimentos e os sócios da usina”, avalia Eduardo Carlos Spalding, vice-presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriaisde Energia e Consumidores Livres. Para ele, o preço da energia para o mercado livre será “muito mais alto” do que para o regulado. As regras do leilão permitiam aos consórcios reservarem até 30% da energia para comercialização no ambiente livre.


A Associação Brasileira de Produtores Independentes de Energia Elétrica acredita que essa parcela será dividida entre pelo menos um autoprodutor e venda para consumidores livres. “O preço contempla o mix de mercado livre e regulado. E a expectativa de preço no mercado livre é ascendente para os próximos cinco anos”, analisa Luiz Fernando Viana, presidente do conselho de administração da Apine.Para a Associação Nacional dos Consumidores de Energia, a energia será vendida a um seleto grupo de eletrointensivos.


Para Spalding, a impressão é de “especulação” com o mercado livre já sufocado por um desequilíbrio entre oferta e demanda. “A idéia de que o preço será alto para compensar o lance baixo preocupa muito. Parece que está se especulando no mercado livre”, observa o executivo.Paulo Mayon, diretor-executivo da Anace, aponta que o preço final é um indicador de racionalidade para os vendedores fixarem o valor para omercado livre. “Tem algo errado na lógica atual do mercado livre, onde a energia existente é vendida por R$ 120/MWh”, afirma.


O vice-presidente da Abrace reconhece que o governo se esforçou para conduzir de maneira eficaz o leilão. “Não se pode deixar de reconhecer que o governo fez bem o dever de casa”, diz. A mesma opinião é compartilhada pelo presidente da Associação Brasileira das EmpresasGeradoras de Energia Elétrica, Flávio Neiva.


De acordo com ele,o resultado do leilão demonstra a viabilidade de parceria entre os setores público e privado. Além disso, o certame é uma prova, segundo ele, da viabilidade dos empreendimentos hidrelétricos e da exploração do potencial amazônico. “Hoje temos tecnologias capazes de construir projetos adequados à região”, afirma.


A questão ambiental é um dos pontos que levaram a Associação Brasileira das Concessionárias de Energia Elétrica a se surpreender com o resultado. “Fomos muito surpreendidos devido, principalmente, a alguma incerteza com as condicionantes, além da questão compensação ambiental ainda indefinida, que tem um impacto significativo no projeto”, avalia Silvia Calou, diretora-executiva da ABCE.


Jirau – Os executivos acreditam em uma influência direta do resultado de Santo Antônio no leilão de Jirau (3.300 MW) previsto para maio de 2008. Mas o grau dependerá do andamento dos acontecimentos nos próximos meses. Para Viana, a vantagem do consórcio para a disputa da nova usina deve ser relativizada já que será uma nova disputa. “O preço final deve estar dentro da estratégia das empresas para se tornarem mais competitivas para o leilão de Jirau”, considera.


Segundo Spalding, a falta de energia para o ambiente de comercialização livre pode ser compensada em Jirau com a disponibilização de uma parcela maior de energia para esse segmento. “No próximo leilão, poderia se destinar de 40% a 50% da energia”, sugere. Para Mayon e Silvia, o conhecimento da região deixa em vantagem o consórcio Madeira Energia.


O consórcio Madeira Energia é formado pelas empresas Odebrecht Investimentos em Infra-estrutura (17,6%); Construtora Norberto Odebrecht (1%); Andrade Gutierrez Participações (12,4%); Cemig Geração e Transmissão (10%); Furnas Centrais Elétricas ( 39%) e Fundo de Investimentos e Participações Amazônia Energia – FIP – formado pelos bancos Banif e Santander (20%).



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