Presidente da ANA quer parecer técnico para definir vazão do rio São Francisco
Chico Santos, Valor, Rio
José Machado, presidente da ANA: “Não podemos chegar a valores que preservem interesses de apenas um setor” (*)
Em junho, quando concluiu o Plano Anual da Operação Energética-2009, o ONS propôs ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) que fosse negociada uma forma de reduzir a vazão mínima de Sobradinho. A barragem possui uma usina de 1.050 megawatts (MW) e funciona como um pulmão para o complexo de usinas de Paulo Afonso, Itaparica e Xingó (8.922 MW no conjunto). A quantidade de água que passa por Sobradinho limita a carga gerada rio abaixo. Os objetivos da redução seriam poupar água em períodos de seca e dar oportunidade de uso ao grande número de termelétricas em instalação no Nordeste. A partir da proposta do ONS foi sugerida a formação de um grupo de trabalho, coordenado pela ANA, que irá discutir a viabilidade da ideia. O grupo deverá ser integrado por todos os segmentos interessado no uso da água do São Francisco. Aí começam os problemas. Segundo o presidente da ANA, a agência terá que solicitar ajuda do próprio ONS para reunir nesse grupo as partes interessadas. Machado disse que atores fundamentais, como o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estão “reticentes” em participar. No fim de julho, quando o Valor noticiou a proposta do ONS, houve forte reação contrária de vários participantes do comitê da bacia. Para Machado, a tarefa do grupo de trabalho será definir “um termo de referência para a contratação de um trabalho técnico que não será feito da noite para o dia”. O resultado final do estudo a ser contratado, a nova vazão mínima do rio, terá que atender interesses tanto do setor elétrico como do setor ambiental (preservação do rio e seu bioma), da pesca, da navegação, da irrigação e do abastecimento de cidades. “Não podemos chegar a valores que preservem os interesses de apenas um setor.” O presidente da ANA concorda que os 1.300 m3/s da vazão mínima atual foram “arbitrados” no passado e que “isso terá que ser discutido” para que não se configure “um comportamento aleatório” em relação a algo tão importante. Machado disse que já pediu até à Companhia Hidro Elétrica do São Francisco ( “O setor elétrico quer ter um gatilho para acionar. Achamos razoável, mas é preciso chegar a um entendimento”, afirmou. Esse gatilho permitiria ao ONS reduzir a vazão do rio, sem licença prévia, sempre que houvesse necessidade de poupar água para geração futura. A quantidade de água que sai de Sobradinho determina a quantidade de energia a ser gerada por todas as usinas rio abaixo, considerando que, salvo casos excepcionais, a água que passa por uma usina é sempre aproveitada integralmente para geração. Em 2001, quando o Brasil precisou reduzir compulsoriamente o consumo de energia elétrica em 20% por falta de capacidade geradora (apagão), a vazão do São Francisco foi reduzida a 1.000 m3/s. Durante alguns meses de 2004, 2007 e 2008, a vazão da barragem ficou em 1.100 m3/s. Em todos esses casos, foram necessárias autorizações excepcionais da ANA e do Ibama, negociadas com todos usuários da água do São Francisco, um consenso considerado difícil de ser alcançado. Embora a vazão do São Francisco é que esteja em pauta, Machado disse que a necessidade de definição de parâmetros científicos que balizem a quantidade mínima de água em determinados trechos de rios “vale para o Madeira, para o Tocantins, para todas as bacias”. | |||
(*) foto não publicada por motivos técnicos |