DE jccotrim@celesteparaiso.ceu
PARA presidência@furnas.org.br
Prezado Presidente,
Estive reunido com JK, e outros colegas. Também com nossos pioneiros de todos os empreendimentos de geração, transmissão e telecomunicação que tanto orgulho nos deu até meados dos anos noventa do século XX. O querido advogado Átila Brandão disse-me que, se ainda estivesse por ai, escreveria uma continuação do romance Linha de Transmissão. A advogada Ruth Bueno no seu romance O Inferno nas Torres me colocou onipotente e kafquiano no topo do Bloco A. Não mereci. Ruth, trazida pelo Átila, se penitenciou afirmando que o inferno tende a ser agora.
É comentário elogiado por todos a restauração ética da empresa desde 2011 e algumas boas medidas de otimização administrativa. Mas, há preocupação enorme pelas noticias sobre estarem sendo deixadas de lado atividades inerentes e absolutamente necessárias a quaisquer empresas de eletricidade, simultaneamente com a crença que a prioridade são os bons negócios e o lucro. Quais seriam essas atividades? São aquelas nas quais Furnas, a partir do inicio dos anos sessenta e até meados dos anos noventa do século passado, sobressaiu-se no setor elétrico. Uma equipe de engenheiros que deu autonomia técnica à empresa nas suas atividades de estudos dos seus sistemas, conceituação dos mesmos, especificações de equipamentos e matérias, comissionamento, operação e manutenção de toda sua imensa malha elétrica. Autonomia crescente obtida com uma política simultânea e permanente de educação e treinamento. Contratar empresas privadas para as atividades de projeto executivo, bem acompanhado a cada passo pelas equipes de Furnas, foi uma decisão que contribuiu para o país, com o aparecimento de diversas empresas projetistas nacionais. Nunca se tentou executar essa atividade. Deu-se preferência a grande competência no conhecimento de alto nível em engenharia. Furnas foi a primeira e única empresa que apoiou o CEPEL desde o nascimento do laboratório.
Estamos ouvindo também que o corpo de empregados seria congelado num patamar. Sintoma óbvio de que a vítima principal seria aquela competência que tanto custou à empresa nas primeiras três décadas de sua vida. Além de outra dramática conclusão: ou a empresa não expandirá seus sistemas elétricos, ou deixará de operá-los ou mantê-los, ou degradará essas atividades sem retorno. Além de contribuir para inviabilizar seus planos através de sua fundação de previdência e outras atividades sociais e culturais que se esperam de uma empresa publica e cidadã.
Numa conferência que proferi, ainda vivo, em agosto de 1993, contei que muito jovem, trabalhando numa empresa estrangeira de eletricidade, tive uma discussão com meu chefe sobre um assunto técnico. Não adiantaram as argumentações que julguei verazes e pertinentes. A sua posição prevaleceu. Comentei que assim a empresa não seria mais uma “utility”, passando a ser uma “inutility”. O texto dessa conferência pode ser acessado na página do Ilumina além de ter sido publicado e fartamente distribuído. Agradeço ao pessoal do Ilumina.
A exacerbação do conceito de uma empresa de negócios que vende uma mercadoria se contrapõe radicalmente à sua razão de ser pública que presta, ao longo de sua vida, um serviço público. O contrario seria sua transformação numa “INUTILITY” como vimos acontecer desde a metade da última década do século XX, tendo perdido, em 2003, a grande oportunidade de reversão.
Notificado desses caminhos tentei pedir que não me homenageassem no 55º aniversário de Furnas. Infelizmente não encontrei um médium para o necessário contato. Além disso, vivo, jamais distribuiria medalhas a granel incluindo pessoas que nunca as mereceriam. Quase esqueci! Ter receitas degradadas por conta das complicações de um péssimo modelo mercantil é o caminho do inferno. Aqui sabemos que existe um inferno para empresas, sobretudo as públicas, que deixaram de ser públicas
À moda de Elio Gaspari
Olavo Cabral Ramos Filho
Furnas, Junho de 1962 – Abril de 1991