
Comentário: Apesar de tardio, como tudo no país, o debate é positivo. Entretanto, sob o ponto de vista do ILUMINA muitas questões envolvidas não foram abordadas:
1. A capacidade de reserva total do sistema integrado brasileiro, de aproximadamente 200 TWh, ainda é recorde no planeta. Representa 5 meses da carga total.
2. De 2002 até 2013, a carga se expandiu em 30%. Portanto, se quiséssemos ter o mesmo “conforto” de 2002 (que não era grande coisa, pouco mais de 6 meses de carga), teríamos que ter acrescido a capacidade de reserva de + 60TWh. Isso é uma capacidade maior que todos os reservatórios do Rio S. Francisco e Tucuruí somados. Que desafio!
3. Portanto, quem imagina que seja possível resolver os problemas de gestão da reserva com mais reservatórios, pode se decepcionar com os acréscimos que se conseguirão, mesmo depois de muitos conflitos ambientais e sociais. Eles não serão suficientes.
4. Duas questões passaram batidas no debate; A gestão da reserva via despacho de térmicas não se limita à quantidade de usinas necessárias . É preciso discutir o “quando” essas usinas são acionadas, o que se transfere o problema para a formação de preços no processo de despacho. Em 2012, ficou bastante claro que, seja por erros de precificação, seja por pressões políticas, houve um atraso no despacho de térmicas que resultou numa conta maior. O modelo está na berlinda, mas ninguém quer debater.
5. Alguém que tem uma caixa d´agua que não pode ser aumentada e vê seu consumo crescer, pode fazer duas coisas. Contratar caminhões pipas ( equivalentes a térmicas) ou buscar outras fontes de água (outras usinas). Mesmo que essas fontes forneçam justamente quando a entrada oficial é grande, é melhor tê-las, correndo o risco de que, de vez em quando a caixa jogue água pelo ladrão (vertimento), do que pagar um preço maior pelos caminhões. Outra vez, o modelo na berlinda.
6. O que são essas outras fontes de água nessa analogia? Usinas sem reservatório, eólicas, PCHs, etc.
7. O que parece óbvio é que, fruto de dissidências crescentes entre operação e planejamento, a carga considerada segura está super avaliada. Garantias físicas foram estipuladas através de critérios hoje considerados “otimistas”. Precisariam de uma revisão profunda. Não realizá-la, sob o pretexto de impactos comerciais, é jogar o custo extra dessa operação “apertada” para o consumidor.
8. Enquanto usinas hidroelétricas forem vistas apenas como fábricas de kWh, competindo com outras fontes, jamais poderão exercer o potencial de desenvolvimento de uma região onde interesses conflitantes são óbvios.
9. O exemplo da Hydro Quebec, que constrói a usina de La Romaine com a participação de comunidades indígenas desde o início do projeto, já foi citado pelo ILUMINA há mais de 4 anos atrás. Até agora, o governo de 39 ministérios parece não ter entendido.
Por Claudia Facchini e Juliana Elias | De São Paulo – Valor -12/06
O aumento na matriz energética brasileira das usinas térmicas, incluindo unidades movidas a gás natural, carvão e até mesmo as usinas nucleares no futuro, é uma escolha que precisa ser discutida amplamente pelo governo com a sociedade, já que as gerações futuras herdarão as consequências das políticas implementadas neste momento, afirmaram os participantes do painel “Os principais indutores para alavancar a sustentabilidade no setor elétrico”, realizado ontem pelo Valor, em São Paulo.
O debate, intermediado pela jornalista Daniela Chiaretti, trouxe à tona a polêmica em torno da exploração do potencial hidrelétrico do país. Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff sinalizou pela primeira vez que o governo pode rever a opção feita pelas hidrelétricas sem reservatórios. Nos últimos dez anos, só foram licitadas usinas a fio d’água para reduzir os impactos socioambientais dos projetos, localizados em áreas de florestas e reservas indígenas. Mas essa alternativa tem levado o país a depender mais de outras fontes de energia, sobretudo de térmicas movidas a combustíveis fósseis, que são mais caras e poluentes.
“O Brasil só utilizou um terço de seu potencial de geração de energia elétrica até agora, mas 70% do que faltam ser explorados estão na Amazônia, onde está uma das maiores riquezas naturais do mundo. Há os que acham que não devemos mexer, e há os que acham, como eu, que é possível conciliar as duas coisas”, disse Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), responsável pela formulação do planejamento energético do país.
“Qual a energia mais cara? A que está sendo gerada ou a que deixou de ser produzida [e que faz falta ao país]?”, questionou Britaldo Soares, presidente do grupo AES, que controla no Brasil a distribuidora Eletropaulo e a geradora de energia Tietê. “As térmicas vão custar ao país entre R$ 10 bilhões e R$ 12 bilhões este ano. Em algum momento, essa conta vai chegar para o consumidor final”, disse o executivo. Segundo ele, o país precisaria discutir se quer hidrelétricas com ou sem reservatórios de uma forma “menos apaixonada”. “É preciso ser realista, o país necessita desses recursos [hídricos]”.
Na avaliação do diretor do Instituto Nacional de Eficiência Energética, Pietro Erber, as reservas indígenas não levaram em consideração o potencial hídrico existente quando foram demarcadas. Os custos para o país, que é obrigado a renunciar a esses recursos energéticos, são “muitos grandes”, diz o executivo, para quem o governo também foi tímido na defesa dos empreendimentos.
“Os reservatórios foram demonizados no país. Mas os custos de não ter reservatórios podem ser muito maiores”, afirmou Márcia Leal, chefe do departamento de energia elétrica do BNDES. O banco, afirma, possui um portfólio diversificado de financiamento, incluindo eólicas e linhas de transmissão. Atualmente, o BNDES trabalha no desenvolvimento de projetos de geração solar, mas é necessário que os fabricantes se instalem no país, porque o banco não financia importações.
Philippe Joubert, diretor do Energy and Climate World Business Council of Sustainable Development, criticou a retomada da construção de térmicas a carvão pelo governo, que fará um leilão no segundo semestre. “Mandar CO2 para atmosfera ainda é grátis. Não estão sendo considerados os custos ambientais. Está errado”, disse Joubert. “Quando esses senhores tomam uma decisão é para 60 anos, não para seis meses. O dióxido de carbono é grátis hoje, não significa que será para sempre”, afirmou.
Gilberto Schaefer, diretor da Siemens, contou a experiência da Alemanha, que hoje revê as metas que haviam traçadas para ampliação de fontes renováveis em sua matriz energética. A energia ficou mais cara e a emissão de CO2 no país, em vez de cair, cresceu em 2012. Isso porque a eólica e solar são fontes intermitentes e usam como apoio usinas a carvão. “O questão das hidrelétricas no Brasil merece um debate nacional”, afirma Schaefer, para quem as fontes intermitentes não são a única solução dos problemas.