Artigo de José Antonio Feijó

      N O R D E S T E     

RESERVATÓRIOS POUPADOS COM TÉRMICAS

SEM CUSTO ADICIONAL

 

Eng. José Antonio Feijó de Melo

Recife, 24 de maio de 2010.

 

         Em decorrência das fortes chuvas caídas neste ano em várias partes do Brasil, supostos conhecedores do setor elétrico brasileiro alardearam declarações públicas de que os reservatórios do nosso sistema hidrelétrico estavam cheios e que assim haveria energia elétrica sobrando. Então, como acontece sempre nessas ocasiões, os preços da energia no mercado livre caíram e se mantiveram baixos, com o kWh valendo não mais do que “bolo de goma”, para alegria dos ganhadores de sempre.

         Mas isto não era verdade. As chuvas abundantes, que em alguns casos chegaram a causar lamentáveis tragédias, desafortunadamente não caíram com regularidade sobre as bacias dos principais rios onde estão os grandes reservatórios do Sistema Interligado Nacional – SIN.

         Desse modo, apenas os reservatórios localizados nas regiões Sul e Norte chegaram de fato a encher. Porém, infelizmente, os armazenamentos dessas regiões são os menos importantes do SIN. Na verdade, a capacidade de acumulação da região Sul representa tão somente 6,7% do total, enquanto o armazenamento do Norte chega apenas a 4,5%. Assim, os dois juntos não garantem nada.

         Nas outras duas regiões elétricas, Sudeste/Centro Oeste e Nordeste, onde existem os maiores reservatórios, ao final do período úmido, em abril passado, os armazenamentos estavam bem abaixo dos 100% desejáveis.

         De fato, na região Sudeste/Centro Oeste, a mais importante e considerada a verdadeira “caixa-d’agua” do sistema elétrico brasileiro, representando 69,8% da capacidade total de acumulação do SIN, a situação não foi tão má, mas o armazenamento não ultrapassou os 84%, alcançados no início de abril e agora, em 20 de maio, já baixou para 80,2%. Enquanto isto, na região Nordeste, onde o armazenamento representa 18,9% da capacidade do SIN, o volume acumulado não chegou sequer aos 80%, com o máximo atingido em meados de abril. E no dia 20 passado já havia caído para 74,7%.

         Nesta situação,  não se pode dizer que haja qualquer ameaça de crise de abastecimento. Não. Estes volumes acumulados são suficientes para o abastecimento tranqüilo durante este ano de 2010. Mas agora, com exceção da região Sul, já estamos no chamado período seco, que vai de maio a outubro, e até o mês de novembro os reservatórios vão continuar baixando seus níveis em um ritmo que dependerá da intensidade do consumo e das próprias vazões naturais dos rios neste período.

         Se as vazões não forem muito baixas em relação às respectivas médias (MLT’s) e o consumo não for muito elevado, certamente o nível de armazenamento global do sistema em novembro será satisfatório e o abastecimento em 2011 também estaria assegurado sem necessidade de utilização de térmicas.

         Entretanto, se ao contrário as vazões neste período seco forem muito baixas em relação às MLT’s e o consumo crescer muito em vista de crescimento da economia, em novembro próximo os principais reservatórios poderão atingir níveis muito baixos e, assim, comprometer a garantia de abastecimento em 2011, que neste caso passaria a depender fortemente do período chuvoso nas principais bacias, a ser iniciado naquele mesmo mês de novembro, e/ou do despacho de importante parcela de geração térmica, hipótese em que haveria grande aumento de custos com reflexos tarifários.

         Mas, para que não se diga que nós do ILUMINA estamos vendo chifres em cabeça de cavalo, vale observar o que já está acontecendo neste momento na operação do sistema interligado, em particular na região do chamado sub-mercado Nordeste.

         Nos últimos dias notamos um forte aumento da geração de origem térmica no sistema interligado, com uma correspondente redução da geração hidrelétrica. No Nordeste, esta mudança está envolvendo o despacho de mais de 800 MW médios de térmicas, algo próximo a 10% da carga, o que é significativo. Não foi difícil apurar que as baixas vazões que vêm sendo observadas no rio São Francisco levaram o ONS a concluir, pelos estudos rotineiramente efetuados, que na hipótese da provável persistência dessa tendência hidrológica, ao final deste período seco, no início de novembro próximo, os reservatórios do Nordeste teriam os seus “níveis-meta”  de segurança violados, isto é, ficariam abaixo dos volumes previamente estabelecidos para garantia do abastecimento em 2011.

         Pelas regras operativas do sistema, esta constatação exigiu, desde logo, a operação de térmicas na região visando a preservar os níveis dos reservatórios. Embora isto não represente um sinal vermelho, que indicaria perigo, pode admitir-se que seria um sinal amarelo para mostrar que as condições do sistema não são tão azuis (ou seria verde?) como poderiam parecer. Cumpre notar que os valores dos PLD’s calculados para esta semana já se apresentaram com elevação.

         Mas neste caso há um detalhe importantíssimo a ser salientado. É que as primeiras térmicas despachadas pelo ONS para esta função foram a Termopernambuco, com cerca de 500 MW médios, e a Termofortaleza, encarregada de gerar algo em torno de 300 MW médios, ambas sob a “razão de inflexibilidade”. Tratando-se de usinas que possuem contratos permanentes de venda de energia, significa dizer que este despacho não provocará nenhum aumento do custo de geração do sistema e, portanto, que não acarretará nenhuma cobrança tarifária através do chamado ESS-Encargo de Serviço do Sistema.

         Em ocasiões anteriores como, por exemplo, no final de 2007 e começo de 2008, quando também se precisou de geração térmica para compensar dificuldades hidrológicas e foram despachadas usinas de vários pontos do Brasil, inclusive de Pernambuco e do Ceará, o ILUMINA questionou por que a Termopernambuco e a Termofortaleza não tinham sido despachadas. Compreensivelmente, ninguém deu resposta. Mas todos sabiam, elas não haviam sido despachadas naqueles momentos porque de fato não havia gás suficiente para mantê-las operando a plena carga e sequer a meia carga. E assim, se fossem despachadas e não pudessem gerar de fato, deixariam o “Rei nu”. Ficava comprovado efetivamente que elas não possuíam o necessário lastro para poder continuar vendendo a energia que já vendiam rotineiramente sem ter capacidade de gerar, simplesmente valendo-se de “regras” às quais não tinham condições de oferecer as necessárias contrapartidas, tudo sob as vistas complacentes do regulador.

         Agora, com a entrada em operação regular do Terminal de Regaseificação de Fortaleza e do novo ramal do GASENE, a Petrobras teria finalmente regularizado o suprimento de gás natural na região e, assim, não mais haveria razão para que as referidas usinas, com os seus lastros enfim constituídos, deixassem de ser chamadas para compensar as necessidades do sistema, em complementação à geração hidrelétrica. E mais importante, sem que isto venha a causar qualquer aumento de custo para os consumidores.

         Menos mau. Nunca é tarde para se fazer o que deve ser feito.//                          

Categoria