Crise energética no Sul

A SITUAÇÃO ENERGÉTICA DA REGIÃO SUL CONTINUA DRAMÁTICA, APESAR DOS DESMENTIDOS OFICIAIS



Complementamos aqui os dois artigos anteriormente já publicados no ‘web-site’ do Ilumina sobre a Atual Crise Energética no Sul do Brasil, que insiste em anunciar sua presença (e que é solenemente ignorada pelo ONS e EPE, pelo menos em termos oficiais junto à opinião pública do país).



Não podemos deixar escapar a oportunidade de apontar, uma vez mais, a importância de se fazer ‘Planejamento Energético’ no setor elétrico do Brasil, que é um país essencialmente de base hidrelétrica em seu sistema elétrico de potência. Esta assertiva é essencial levando em conta que: a) usinas hidrelétricas levam um longo tempo de maturação desde a etapa inicial do levantamento do potencial hidráulico até a entrada em operação do empreendimento (cerca de 10 anos); b) investimentos em hidrelétricas são ‘capital-intensivos’ (exigem grandes somas de recursos); c) os tempos de retorno do investimento são de longo prazo (muitos anos); d) o mercado consumidor tem incertezas intrínsecas (dependência do mercado consumidor em relação ao vigor da economia do país, das exportações, da renda das famílias, dos programas de inclusão social, etc).



Isto torna importantíssimo e estratégico do ponto de vista de planejamento trabalhar-se com uma ‘folga de geração’ no parque gerador brasileiro (para atender estas variáveis todas que não são controláveis pelos planejadores). E esta folga de geração (como um lastro estratégico, ou um seguro) tem que ser de hidrelétricas, para não aumentar a dependência externa do país em relação a insumos energéticos.



Mas parece que a EPE, que deveria ser a primeira a saber disso, não está ligando para o assunto. Estará contando com a chuva (convocada a cair no Sul pela pajelança dos especialistas de plantão), chuva esta que, como afirmam alguns candidatos a trabalharem na ‘Fundação Cacique Cobra Coral’, “irá cair na região Sul – com certeza! – nas próximas 48 horas”?… Enquanto isso o tempo segue bom, firme, seco e os reservatórios lá no Sul esvaziando.



De sua parte, o MME (Ministério de Minas e Energia), através do CMSE (Comitê de Monitoramento da Segurança do Setor Elétrico), fica tentando ‘apagar o incêndio’ com medidas desesperadas de aumento do intercâmbio de energia elétrica do Sudeste para o Sul (Vide texto abaixo ‘CMSE avalia viabilidade de envio maior de energia para região Sul‘, extraído do web-site do CanalEnergia).



É preciso passar a fazer o ‘trabalho certo’ com o sistema elétrico brasileiro, antes que seja tarde demais…E trabalho certo, no caso, entenda-se como planejar, licitar e construir as hidrelétricas de que o país vai precisar, antes que o balanço oferta versus demanda de energia elétrica determine a necessidade de um montante tal de geração e que não haja mais de onde tirá-la para seu suprimento a tempo. Já deveríamos ter aprendido esta lição no racionamento de 2001…



Também os ‘verdes de plantão’ andam dando uma ‘grande contribuição’ a este quadro de dificuldades para se expandir a oferta de geração, procurando encontrar todos os motivos possíveis e imagináveis para impedir a construção de novas hidrelétricas o que, especificamente, em função da conjuntura explicitada acima, assume atualmente contornos dramáticos na região Sul do Brasil.



Antes de mais nada cabe ressaltar que defendemos no Ilumina, de forma intransigente, que é preciso, sim, cuidar do meio ambiente, minimizando os impactos que o desenvolvimento econômico causa. Mas, que isto seja feito de forma sensata e razoável, e não como, em algumas situações, vem sendo defendido pelos nossos prezados colegas da área de meio ambiente.



Ocorre que, infelizmente, a argumentação utilizada pelos nossos ‘verdes’, para inviabilizar especificamente os empreendimentos de que este texto trata mais abaixo, algumas vezes não são razoáveis, na opinião do Ilumina.



E as conseqüências desta ação, para a sociedade como um todo, serão de aumento da perspectiva de déficit de oferta de energia elétrica em futuro próximo para atender ao crescimento da demanda. E daí, não é preciso dizer que este quadro se desdobra em coisas do tipo desestímulo ao investimento potencial em novas futuras indústrias, urbanização, transporte, geração de renda, empregos, crescimento econômico, etc…



Para atingir seu intento de preservar a todo o custo o meio ambiente quanto a reflexos da construção de novas hidrelétricas, nossos ‘verdes’ algumas vezes radicalizam e apresentam como ‘justificativas’ as razões mais curiosas (e esdrúxulas). Senão vejamos:



a) como um exemplo ilustrativo, tomemos o caso ocorrido recentemente no reservatório da UHE ‘Barra Grande’, uma grande hidrelétrica do Sul (‘grande’ em potência instalada – 690 MW – e não em extensão ou área inundada, entenda-se bem…). Tentou-se, por parte de movimentos e ONG’s ecológicas, evitar o enchimento de seu reservatório com a alegação de que na área prevista para ser submersa haveria sítios onde há espécies de “bromélias raríssimas”. Bromélias estas que depois foram encontradas em “n” outros sítios, conforme relato, abaixo transcrito, do Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira dos Produtores Independes de Energia Elétrica – Apine – Luiz Fernando Vianna… Não nos parece sensato que este Senhor seja irresponsável a ponto de, no cargo que ocupa na Apine, divulgar informações que não correspondam a realidade dos fatos relatados. Neste caso, enfim, após as elucidações cabíveis, pela Justiça/Ministério Público/órgãos ambientais envolvidos, felizmente o empreendimento foi à frente e está entrando em operação por agora;



b) temos também as justificativas apresentadas por ecologistas ao Ministério Público Federal, Estadual (e Municipal – certamente!, se houvera…) para impedir a licitação de outras hidrelétricas (de médio porte) no Paraná (rio Tibaji), justificativas estas que se baseiam no fato de naquele rio haver já de algum tempo a prática de ‘rafting’, o que “afetaria gravemente” as receitas provenientes do eco-turismo, ‘sangrando de morte’ os cofres públicos municipais da região…;



c) há, ainda, um outro exemplo interessantíssimo, agora fora da região Sul (ocorreu no Centro-Oeste). Neste caso, foi conquistada uma vitória (ainda que momentânea) dos nossos “eco-verdes radicais”: a hidrelétrica de Ipueiras (prevista para o ‘curso médio’ do rio Tocantins e com cerca de 500 MW de potência instalada) foi ‘inviabilizada ambientalmente’ porque o seu impacto seria “dramático e irreversível” nos movimentos de migração de peixes do rio Tocantins e na vegetação do cerrado… Este tipo de ação deixou ‘fulo da vida’ o atual Presidente da Eletrobrás, o engenheiro Aluísio Vasconcelos. Pois bem, só que neste mesmo rio, diz ele (Aluísio Vasconcelos), já existem (construídas e em operação) as hidrelétricas de: 1) Serra da Mesa, 2) Cana Brava, 3) Peixe Angical, 4) Lajeado (UHE Luiz Eduardo Magalhães), 5) Estreito (a única ainda por construir já com licença ambiental expedida) e 6) Tucuruí. Todas estas hidrelétricas do rio Tocantins perfazem cerca de 13.000 MW de potência instalada (quase uma Itaipu, brevemente operando com 20 unidades geradoras e 14.000 MW de potência instalada). Então, os danos ambientais apresentados pelos nossos eco-verdes serão provocados de forma irreversível pela usina de Ipueiras, de 500 MW no meio do curso do rio Tocantins (entre Peixe Angical e Lajeado)? E o que dizer de poder ter sido usado no passado este argumento para inviabilizar a construção das demais hidrelétricas situadas no rio Tocantins? Abriríamos mão então de uma ‘quase Itaipu’ no sistema interligado brasileiro? E como supriríamos de outra forma esta ausência de capacidade de produção de energia elétrica no Brasil, que ocorreria neste caso desta hipótese ter se concretizado? Com usinas térmicas, queimando carvão ou combustíveis fósseis derivados de petróleo e gás natural? E como ficaria a nossa contribuição para o aquecimento global do planeta Terra, nossa ‘casa’ no Cosmo? Não custa lembrar que as tão mal faladas (inclusive pelos eco-verdes) usinas nucleares de Angra dos Reis (Angra I e II), equivalem a usinas termelétricas convencionais que consumiriam, por exemplo, cerca de 12 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, durante 40 anos (sem considerar aqui a possibilidade de extensão da vida útil destes empreendimentos), despejando este volume de emissões de gases de efeito estufa na nossa já tão combalida atmosfera terrestre… Nunca é demais lembrar que as termonucleares de Angra emitem “zero” de gases do efeito estufa para a atmosfera. Alegariam então que são as nossas potenciais ‘Chernobyl nuclearpowerplants’. Só que a Agência Internacional de Energia Atômica as considera como duas das mais seguras usinas nucleares em operação no mundo (existem cerca de 440 em operação!). E quanto aos rejeitos radiativos que produzem, já há em desenvolvimento (nos principais países que utilizam a energia nuclear para geração de eletricidade) tecnologias que processarão a médio prazo (em cerca de 10-15 anos) tais rejeitos de ‘alta atividade’. Esta tecnologia tem várias frentes, como os reatores aceleradores que reduzem drasticamente a meia vida da radiatividade destes rejeitos. Mas isto pertence a outro contexto…Voltando à nossa ‘quase outra Itaipu’ do rio Tocantins, o que impactaria a sua inexistência ao longo dos últimos 20 anos no Brasil, em termos da não instalação de plantas industriais, geração de empregos, renda, impostos, urbanização de cidades, etc?



Não nos parece que a proposta dos que assim vem agindo seja voltarmos a morar em cavernas e obtermos iluminação e aquecimento nas mesmas apenas através de fogueiras!? Acreditamos que não…Então, é preciso que sejamos todos mais razoáveis quanto a estas questões.



A situação de crise energética no Sul citada reforça a dramaticidade de não se ficar tentando impedir a construção de hidrelétricas novas com argumentos que não sejam realmente razoáveis. Novamente, é claro que sempre que se configurar de fato um dano ambiental relacionado à construção de uma hidrelétrica (mas que seja verdadeiro!!), ninguém pode ser contra impedir a construção de tal empreendimento (ou buscar alternativas que eliminem ou minimizem os problemas ambientais detectados).



Neste sentido, se já tivessem construído, por exemplo, a usina de Foz do Chapecó na região Sul (com 900 MW de potência instalada), e que vem sendo protelada por entraves desta e de outras naturezas, a crise no sistema interligado da região Sul não estaria tão grave nos dias de hoje…



A propósito: dizer que atual situação energética do Sul do Brasil é ‘tranqüila’ (vide outro texto do site do CanalEnergia com declarações do Ministro Silas em anexo) chega às raias da piada de mau gosto, além de absurdo…





MME garante que situação energética no Sul é tranqüila
Segundo Silas Rondeau, região está recebendo 5 mil MW do sistema interligado. Capacidade máxima de transporte é de 7 mil MW


Fábio Couto, da Agência CanalEnergia, OeM
05/07/2006


O ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, garantiu nesta quarta-feira, 5 de julho, que a situação energética da região Sul é tranqüila, mesmo com o sul do país sob período de seca. Segundo ele, o Sistema Interligado Nacional está transferindo, atualmente, 5 mil MW para o submercado. Além disso, ainda há espaço para aumentar o envio de energia. A capacidade máxima de transferência de energia, informou o ministro, é de até 7 mil MW.


Rondeau, que participou da assinatura de um convênio com o Uruguai para a construção de uma interconexão entre os dois países, contou ainda que existem negociações com o governo argentino visando regularizar o fornecimento de gás natural para o Brasil. De acordo com o ministro, os entendimentos prevêem que a entrega do gás ocorrerá a partir de setembro.


Um outro ponto que poderá beneficiar a região Sul é a futura interligação com o Uruguai assinada nesta quarta-feira. Rondeau contou que o projeto envolve a construção de uma linha de transmissão de aproximadamente 400 quilômetros de extensão e uma estação conversora em Candiota. O investimento previsto é de US$ 150 milhões.






CMSE avalia viabilidade de envio maior de energia para região Sul
Comitê estuda ainda medidas para geração térmica na região, que se encontra sob estiagem


Fábio Couto, da Agência CanalEnergia, OeM
10/07/2006


O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico está buscando maneiras de viabilizar elevações nos limites de transferência de energia da região Sudeste para o Sul. Segundo informou o Ministério de Minas e Energia nesta segunda-feira, 10 de julho, em função do baixo índice de chuvas, o Sul continua recebendo energia das demais regiões do Sistema Interligado Nacional. O CMSE também está avaliando maneiras de viabilizar elevações na geração térmica da região. A questão foi debatida na reunião realizada na última sexta-feira, dia 7.


A avaliação do comitê para o restante do país é que o atendimento para o período seco deste ano está garantido, diante das condições meteorológicas atuais, próximas das médias históricas. Na reunião do CMSE, foram debatidas ainda questões como o resultado dos leilões de energia nova, que aconteceu no final de junho, pela internet; e as ações relativas ao túnel de desvio do rio na hidrelétrica Campos Novos (SC).


Recentemente, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, afirmou que o país envia, atualmente, 5 mil MW para a região Sul, montante diário que pode ser elevado para 7 mil MW, capacidade limite de transporte para a região. Com relação à geração térmica, Rondeau havia contado que existem negociações com o governo argentino, visando regularizar o fornecimento de gás natural para o Brasil. De acordo com o ministro, os entendimentos prevêem que a entrega do gás ocorrerá a partir de setembro.




Luiz Fernando Leone Vianna, da Apine: A síndrome do colapso
Os investidores necessitam de previbilidade, para poderem reduzir as incertezas e, conseqüentemente, os riscos dos empreendimentos, minimizando seus custos e propiciando modicidade tarifária ao consumidor


Luiz Fernando Leone Vianna, para a Agência CanalEnergia, Expansão
29/06/2006


O britânico Arthur Hailey, um dos escritores mais lidos do mundo, nasceu em 1920. Após a guerra emigrou para o Canadá, considerada por ele sua terra adotiva, escreveu 11 livros, que venderam mais de 170 milhões de cópias em todo o mundo. Seus romances foram traduzidos para 40 idiomas e deram origem a filmes de sucesso do gênero “cinema-catástrofe”, como Aeroporto, de 1970.


Ao ser perguntado sobre sua receita para o sucesso, o escritor, de grande êxito junto ao público — já que a crítica lhe foi indiferente, ao que ele respondia também com indiferença —, dizia “Eu acho que realmente não inventei nada”, ou “Eu apenas me inspirei na vida real”, ou ainda “Geralmente levo três anos para produzir um livro. O processo pode ser descrito da seguinte maneira: primeiro, depois de definido o tema básico, passo um ano pesquisando e me inteirando do assunto. Ao final desse período, já disponho de muitas anotações e sinto-me integrado ao tema. Volto para casa e passo seis meses planejando o livro. E depois levo cerca de dezoito meses para escrevê-lo”. Supõe-se que na fase de pesquisa, Hailey contava com o apoio de uma equipe profissional, que variava de acordo com o tema escolhido.


Dentre os diversos temas elencados e desenvolvidos pelo escritor, o livro Colapso, publicado no início da década de 80, certamente causou grande impacto em estudantes de engenharia elétrica, profissionais do setor elétrico, reguladores, ambientalistas e governantes do mundo inteiro.


O livro, embora escrito há mais de um quarto de século, aborda temas incrivelmente atuais na área energética, como furto de energia, revisão tarifária, escassez das reservas de gás dos EUA, dependência da América ao petróleo saudita, geração nuclear e o temor a sua implantação — cita inclusive o acidente ocorrido na Usina Nuclear Threee Mile Island —, usinas geotérmicas, geração de energia através do carvão mineral, usinas a óleo, geração hidráulica e ONGs ligadas à área ambiental.


O romance se desenvolve na Califórnia, onde a empresa de energia que estava na linha central da trama, a gigante Golden State Power & Light – GSP&L, uma empresa verticalizada, atuava nos segmentos geração, transmissão e distribuição. Apresenta, a par das peripécias amorosas, algumas vezes não ortodoxas, do competente vice-presidente de Planejamento da GSP&L, Nim Goldman, detalhes precisos e atuais do setor elétrico.


A questão ambiental está presente em grande parte da narrativa. O que seriam hoje as ONGs ambientais são representadas no livro pelo “Clube da Sequóia”, sério e bem intencionado, apesar de ingênuo, e pela obscura Força e Luz para o Povo – fl&p — grafado assim mesmo, em caixa baixa, segundo a narrativa para ressaltar que a ONG não era capitalista e que seu objetivo declarado era “combater o monstro capitalista GSP&L, inchado pelos lucros escorchantes, em todas as frentes”. Na verdade, a fl&p era uma fachada para o desenvolvimento de atividades terroristas, cujo alvo era a GSP&L.


Já no início do livro, em uma noite de muito calor em toda a Califórnia, boa parte da diretoria da GSL&P, incluindo o CEO, encontrava-se no centro de operação do sistema da empresa, acompanhando o crescimento da carga, enquanto toda geração disponível já estava despachada. O black-out em boa parte da Califórnia foi inevitável, porém o decréscimo de temperatura que se seguiu nos dias seguintes resolveu conjunturalmente a situação.


Uma das soluções para aumentar a capacidade de geração de energia da GSL&P era a construção da hipotética central geradora a carvão mineral Tunipah, com capacidade superior a 5.000 MW, em uma inóspita região desabitada, de mesmo nome, próxima à fronteira da Califórnia com Nevada.


O empreendimento Tunipah, que tinha por finalidade evitar, juntamente com outros empreendimentos, o desabastecimento de energia da Califórnia, possuía veemente oposição do Clube da Sequóia, devido à existência, no local, de uma erva rara denominada paparraz — considerada pelos botânicos sem maiores valores ecológicos, além de ser desprovida de qualquer beleza — e também pela existência do denominado “camundongo-canguru”.


Alguma semelhança com a Dickia distakya tupiniquim? [Para facilitar o entendimento, alguma semelhança com a bromélia rara, utilizada como pretexto para paralisar as obras da Usina Barra Grande (1)? Interessante citar que posteriormente, a bromélia “rara” existente na área da usina foi encontrada à venda em abundância no comércio, além de ter sido constatada sua existência em diversas regiões do país.] A fl&p também se opunha ao projeto Tunipah, porém por outro motivo, a preocupação se focava nos lucros que a GSL&P poderia obter com a venda da energia da usina.


A questão do licenciamento ambiental é descrita de forma precisa por Hailey. Especificamente, o autor relata as seguintes dificuldades para obtenção das licenças: i) longo tempo para obtenção da licença (medido em anos); ii) alto custo para obtenção da licença (venha-se a obtê-la ou não); e iii) impassividade perante a crise (mesmo com os estoque de óleo da GSL&P chegando ao fim, com duração para aproximadamente 25 dias, os licenciamentos necessários não progrediam).


Tais pontos levantados no romance remetem-nos diretamente aos acontecimentos do Brasil. O racionamento de energia ocorrido em 2001 — não obstante as dificuldades que trouxe para indústria, sociedade e empresas do setor elétrico — proporcionou um superávit de energia, pela mudança de hábitos dos consumidores, que perdura até hoje. O término de um racionamento de energia não tem o condão de reconduzir o consumo aos patamares pré-racionamento: dá-se o chamado “efeito histerese”, em que o consumo se eleva, mas permanece abaixo do nível anterior ao racionamento.


Ocorre que esse surplus de energia já está se esgotando. Novos empreendimentos serão, portanto, necessários, sendo que o tempo de maturação de um projeto de geração de energia varia de 3 a 5 anos após a obtenção da licença ambiental, conforme a fonte a ser utilizada. Causa preocupação o fato de se ver audiências públicas de licenciamento sendo suspensas judicialmente, impedindo que a população ao menos conheça os projetos, seus impactos e as soluções de mitigação propostas pelos empreendedores, e se assiste também, pasmem!, ao impedimento, através de liminares, da elaboração de estudos sobre determinados aproveitamentos, como é o caso da Usina Belo Monte (2).


Um importante projeto constante do planejamento do setor elétrico brasileiro é o do rio Madeira, no Amazonas, composto das usinas hidrelétricas Santo Antônio (3.150 MW) e Jirau (3.200 MW). Cada usina terá 44 unidades geradoras e consta no planejamento do governo que o início de operação deverá ser dar em 2011. A região Amazônica é rica em aproveitamentos hidrelétricos e fundamental para o futuro do abastecimento de energia no país, sendo que a exploração planejada e sustentada desse potencial energético é fundamental para o esperado desenvolvimento brasileiro. Em qualquer cenário de crescimento do PIB, e conseqüentemente da carga, há necessidade desses empreendimentos. Acompanhando-se o noticiário e principalmente estando atentos ao noticiário setorial especializado, verificamos uma predisposição de ONGs, inclusive mediante a formação de um “pool” contra o empreendimento, mesmo antes da realização das audiências públicas previstas para julho deste ano.


Os investidores necessitam de previbilidade, para poderem reduzir as incertezas e, conseqüentemente, os riscos dos empreendimentos, minimizando seus custos e propiciando modicidade tarifária ao consumidor. O que a uma primeira vista pode parecer belo para a sociedade, como o caso da bromélia “rara” de Barra Grande, tem seu custo, pago evidentemente pelos consumidores. É preciso que a sociedade seja consultada e possa responder à pergunta “quanto estamos dispostos a pagar pelo custo ambiental de determinado empreendimento?” O primeiro passo para que isso ocorra é dar conhecimento à sociedade desses custos, a fim que ela possa entender a “ligação direta” entre custo ambiental e tarifa de energia elétrica.


No fim do romance de Hailey, os empreendimentos de geração necessários não ocorrem e a população experimenta o amargo sabor de cortes programados de energia. Cidadãos comuns enfurecidos apedrejam a sede do Clube da Sequóia, a fl&p é desmantelada e seu dirigente maior é preso. Tarde demais. O colapso já era uma realidade. Talvez não por acaso, após pouco menos de duas décadas depois da publicação de Colapso, o setor elétrico da Califórnia passou por uma experiência bastante similar à descrita no livro.


Aqui no Brasil ainda estamos em tempo de evitar o pior. Para isso é preciso debater muito o tema meio ambiente e afastar o radicalismo, venha de onde vier. Temos que caminhar na direção do equilíbrio. Hoje, uma obra como Itaipu, diga-se de passagem, importantíssima para o suprimento de energia do país, não se viabilizaria ambientalmente com o projeto da época, pelo qual uma das maravilhas naturais do mundo, as Sete Quedas, foi inundada. A palavra-chave para o equacionamento da questão é, repetimos, equilíbrio.


Quanto a Nim Goldman, bem, o executivo comprovou ser, ao longo das quase 500 páginas do livro, um exímio e competente conhecedor do setor elétrico. Já no que se refere à conturbada vida amorosa do vice-presidente da GSP&L, após ligeira recaída de fidelidade, tudo voltou ao normal, nada mudou.


“Não posso dizer nada de literatura, porque não entendo do assunto. Mas pelo menos confesso isso. Existe muita gente por ai dando ares de entendido; talvez não seja tanto quanto diz ser”. Pode ser que Hailey não entendesse mesmo de literatura, mas soube como poucos relatar com maestria e realismo histórias relacionadas a temas que nos cercam, não só em Colapso, mas em outras obras como Hotel, Aeroporto, Hospital, Automóvel etc.


Em novembro de 2004, aos 84 anos, Arthur Hailey morreu nas Bahamas, em sua casa na ilha de Nova Providência, onde morava com sua segunda esposa, Sheila. Os médicos concluíram, na época, que o escritor sofreu um derrame cerebral.


(1) Hidrelétrica com potência de 690 MW, localizada no rio Pelotas, municípios de Anita Garibaldi (SC) e Esmeralda (RS)
(2) Hidrelétrica com potência de 11.000 MW, localizada no rio Xingu, no Pará


Luiz Fernando Leone Vianna é Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira dos Produtores Independes de Energia Elétrica (Apine)




Categoria