ENTREVISTA » JOÃO PAULO AGUIAR
O dilema energético brasileiro
Publicado em 20.03.2011 no Caderno de Economia do Jornal do Commercio, Recife
Engenheiro, especialista no setor elétrico e diretor da ONG Ilumina, João Paulo Aguiar dedicou 50 anos da sua vida à geração de energia no Nordeste. Defensor do modelo apoiado na construção “racional” de usinas hidrelétricas, ele comenta que o atual impasse que vive o País é uma “escolha de Sofia”: ou atende a crescente demanda por energia elétrica com a construção de novas hidrelétricas, bastante atacadas por ambientalistas nos últimos anos, ou aposta em termelétricas nucleares, que passaram a ser repensadas em todo o mundo depois da sucessão de catástrofes naturais no Japão – país em estado de alarme com a possibilidade de uma tragédia radioativa. Na entrevista concedida ao repórter Felipe Lima, Aguiar comenta o cenário de desafio vivido pelo Brasil
JORNAL DO COMMERCIO – O Brasil precisa gerar energia através de usinas nucleares? Sim ou não? E por quê?
JOÃO PAULO AGUIAR – Primeiro não dá para responder assim, dessa forma maniqueísta. Energia elétrica é tão importante para os humanos modernos quanto é o sangue que corre em nossas veias. Imagine ficar sem energia elétrica durante 10 dias no Recife. Tudo hoje depende dela, a sua saúde, a de milhares de pessoas, cujas vidas dependem de aparelhos de sobrevida, para andar no trânsito. E a energia surgiu no fim do século XIX. É um bem relativamente recente na história do homem. Só existem hoje três fontes de energia para atender grandes blocos de consumo. A hidreletricidade, a térmica convencional, que queima, principalmente, combustíveis fósseis, e a térmica nuclear, que está em questão agora. Os defensores do meio ambiente, os caras que são contra hidrelétricas e contra a nuclear, não conseguirão, certamente, e você pode pegar o mais histérico dos ambientalistas, encontrar uma outra forma para atender esses grandes blocos de energia.
JC – O que são esses grandes blocos?
AGUIAR – É uma cidade como Recife, um porto como Suape, uma indústria como a refinaria. Dá para colocar em uma casa de campo um painel solar, uma pequena turbina eólica. Fontes alternativas como essas são importantes e devem ser aprofundados os entendimentos sobre elas, mas não é possível atender grandes demandas sem a hidreletricidade, a térmica convencional ou a nuclear. A Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) venceu a licitação para implantar, na margem esquerda do lago de Sobradinho, uma “fazenda eólica”. Uma das maiores do Brasil. São 120 torres, com potência de geração de 1.500 Quilowatts (kW) cada uma. Um total de 180 megawatts (MW). É uma grande instalação. E eu fico muito feliz com a sua implementação. Pequenos produtores vão receber royalties por conta das torres que serão colocadas nas suas terras. Mas todas elas vão gerar o mesmo que uma única máquina da hidrelétrica de Sobradinho. E Sobradinho é uma pequena usina, com seis geradores de 175 MW cada. Gera menos, na verdade. Enquanto um reservatório disponibiliza água de forma contínua, em um dia pode haver cinco ou seis horas de calmaria, sem vento. Ou seja, a fonte que hoje é mais citada, pois temos os melhores ventos, não gera grandes blocos de energia. É complementar. Pode ser que daqui a 50 anos apareçam outra fontes para alta geração. No momento, para atender o crescimento das necessidades do País não há outro caminho.
JC – Está se chegando a um limite de construção de novas hidrelétricas que justifique o avanço nos planos de expansão na geração de energia nuclear no Brasil?
AGUIAR – A térmica convencional vai de poluidora, movida a gás natural, a altamente poluidora, que são aquelas abastecidas por carvão. E ela vai de razoavelmente cara a extremamente cara, que é o caso do diesel, combustível nobre para ser queimado. Tem que se ter a coragem. É a escolha de Sofia. Na minha percepção de cidadão e de quem mexeu com energia por 50 anos, esse é o cenário do Brasil. Para atender o crescimento do seu mercado, a natureza nos deu a hidreletricidade. E os homens dominaram o átomo e desenvolveram as usinas termonucleares. São limpas. Eficientes. Geram resíduos atômicos, mas não lançam gás carbônico na atmosfera. Veja o caso da China, eles precisam evoluir, precisam se desenvolver, logo precisam de energia elétrica. E resolveram fazer hidrelétricas e nucleares. Fundamentalmente no caso do Brasil, ou se opta pela hidreletricidade ou pela nuclear. E houve, por mais de uma década, uma campanha para satanizar as hidrelétricas. Que elas agridem o homem e a natureza.
JC – Sim, mas existe o impacto, isso não dá para negar. Assim como a nuclear apresenta seus riscos.
AGUIAR – É por isso que eu digo se tratar de uma escolha de Sofia. Vamos nos deter um pouco em hidreletricidade. Eu tenho certeza que, em todas as hidrelétricas onde participei da construção, Sobradinho, Xingó e Boa Esperança, os rios Paranaíba e São Francisco mudaram, mas não foram piorados. Em Sobradinho, a de maior impacto, reduziu-se o estrago das cheias. Hoje, a população é beneficiada pelo controle parcial de cheias proporcionado pela usina. A vazão hoje do rio é 100% maior em períodos de estiagem do que antes do empreendimento. De fato, você mudou a composição de nutrientes da água com o represamento. E isso provoca repercussões na hidrofauna. Quanto aos impactos nos homens, os antrópicos, tenho certeza que, seja em Sobradinho, seja em Boa Esperança, seja em Xingó, as populações impactadas pelos empreendimentos vivem bem melhor que antes, por conta do acesso ao mundo moderno. No entanto, há uma questão que os ambientalistas, uns de boa-fé, outros de má-fé, costumam explorar. Ao retirar as pessoas de um local para construir um usina, você provoca perdas materiais e perdas sentimentais. As primeiras são indenizáveis, compensáveis. Mas as segundas são impagáveis e inapagáveis. Quem morava no local onde uma hidrelétrica foi erguida e a saída não foi desejada, serão perdidas as raízes. O cemitério onde estavam enterrados os parentes vai ficar debaixo da água. O mundo deles ficará debaixo da água. Não adianta receber um apartamento de cobertura na Avenida Boa Viagem. O que vai embora é aquele cantinho. A origem de todo movimento contrário às hidrelétricas tem como origem o não-tratamento racional dessa questão. É quando entra o aforismo de Guevara: “Hay que ser duro pero sin perder la ternura”. É preciso reconhecer as perdas, porém mostrar que se trata de uma necessidade.
JC – Mas qual é a situação da expansão das hidrelétricas hoje no Brasil, levando em conta a disponibilidade de água?
AGUIAR – Se o Brasil conseguir e definir regras aceitáveis e racionais para a construção de hidrelétricas, o País tem, pelo menos, uma, chegando a duas gerações usufruindo do potencial hidrelétrico. No mínimo uns 20 anos pela frente sem precisar de usinas nucleares. Sabendo que para a perda sentimental do ribeirinho não há compensação e que as perdas bióticas têm como ser resolvidas. Agora, se houvesse no País uma operação militar, sem questionar essas perdas, chegando com a intenção de construir as usinas e acabou, você ganharia uns 30 a 40 anos. Eu ainda sonho que o Brasil vai passar essa fase do histerismo. Vamos chegar a um ponto de equilíbrio.
JC – Parece haver um paradoxo para quem é contrário às hidrelétricas, já que as outras opções não são boas. As termelétricas convencionais poluem muito e as usinas nucleares oferecem vários riscos.
AGUIAR – A gente reconhece que o estado da arte hoje são as hidrelétricas. Daqui a 50 anos tudo pode ser diferente. Hoje, parece ficção científica, mas há pessoas pensando em instalar grandes espelhos no planeta que se movimentam de acordo com o Sol e jogam o calor para um lugar onde ele será captado e poderá se aproveitar todo esse potencial natural. Isso ainda não existe. O grande problema da energia nuclear são os ciclos de fissão nuclear. Em linguagem popular, quando há a fissura do átomo há liberação de grande quantidade de calor, que esquenta a água, que gera vapor e faz as turbinas rodarem. Se a fissão não for controlada o estrago será feito. Pode ser que no futuro haja um melhor controle ou o domínio de uma tecnologia de fusão nuclear, que não apresentaria esse risco. Mas nesse assunto é preciso mencionar o caso da França. Na década de 1960, os franceses tomaram a decisão de, por não terem petróleo, os recursos hidrelétricos serem insuficientes, firmarem um acordo entre governo e mineiros de carvão, que foram capacitados, e começaram a investir em usinas nucleares. Estão aí há 50 anos sem nenhum acidente. Oitenta por cento da energia da França é nuclear. Já os italianos rejeitaram esse modelo. O que se deve ter em mente é que não existirá risco zero. A operação, por exemplo, depende de pessoas, que podem cometer uma falha.
JC – Basta ver o caso do Japão. Onde o problema ocorreu nas estruturas de abastecimento de combustível das estações de resfriamento.
AGUIAR – Justamente. Vale lembrar que, por exemplo, desde o surgimento da aviação comercial, as empresas do setor, a toda hora, recebem notas de fabricante para efetuarem alterações nos sistemas de segurança. Nunca haverá risco zero de um avião cair. Assim como não há risco zero de um acidente nuclear. Catástrofes como a do Japão servem para que haja uma atualização nas medidas de segurança. O acidente foi uma pancada terrível. Mas de onde serão retirados bons resultados. Vão aparecer as instruções de que no momento de projetar uma usina nuclear, será necessário um reforço nos circuitos complementares tão grande quanto aquele implementado na construção da cúpula de uma usina nuclear, que resiste até a um choque de uma avião do tipo Boeing.
JC – Antes da notícia de que a cidade pernambucana de Itacuruba, no Sertão, ter sido apontada como uma das favoritas para receber uma usina nuclear, houve um apagão na região Nordeste que deixou sete Estados no escuro…
AGUIAR – Não foi por falta de geração, respondendo logo sua pergunta. Absolutamente não foi por isso.
JC – Então não seria o indicativo da necessidade da uma usina nuclear aqui na região?
AGUIAR – Não. O que aconteceu foi um desligamento de linha de transmissão. Nesse instante, agora, em que estamos conversando, uma linha tenha caído e nós não estamos sentindo. O que houve na subestação de Itaparica foi um problema no retorno do sistema. Os equipamentos podem ter agido de forma errada e transmitiram informações equivocadas, no caso a tal da cartela. Ou houve uma falha humana. Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ou Chesf. Ou os dois. Vamos passar muito tempo para saber exatamente o que aconteceu.
JC – Pernambuco hoje sofre com a falta de mão de obra qualificada. Na opinião do senhor, que participou da construção e operação de usinas hidrelétricas, será muito difícil arregimentar trabalhadores para atuarem em uma usina nuclear aqui?
AGUIAR – Não me sinto preocupado se hoje dissessem que será construída uma usina nuclear no Estado. Porque ela levará seis, sete anos para ser construída. Com um, dois ou três profissionais maduros para cada dez verdes é possível treinar e formar essa mão de obra.
JC – Qual a relação entre o esvaziamento político da Chesf e a implantação de uma usina nuclear no Nordeste?
AGUIAR – Vejo com muita tristeza que, por conta das manobras do modelo mercantilista implantado por FHC e continuado por Lula, a Chesf tenha perdido a importância para o Nordeste e que não tenha ganho novas tarefas nobres. Desde a sua operação inicial, em 1954, até 1995, a Chesf era responsável por atender as necessidades energéticas da região. Identificava a carga necessária e estudava a infraestrutura para atender um novo projeto industrial, por exemplo. Não sou saudosista para voltar a essa condição. Mas buscar o máximo de lucro para o acionista é um absurdo. Energia elétrica é um serviço público essencial. Ele deve ter tarifas módicas e lucro suficiente para expansão, mas não visando a maximização do lucro. Esse é o grande crime do modelo mercantilista. Vejo um espaço tremendo para a Chesf assessorar o Nordeste sobre o que é melhor para a região em termos de energia elétrica. Exemplo: o governo federal transformou o Nordeste em fundo de quintal e tudo o que é lixo veio para cá. Térmicas movidas a carvão, a diesel etc. Daria os subsídios técnicos para as decisões políticas. Deveria estar discutindo com a Eletronuclear o melhor lugar para colocar uma usinar nuclear, a divisão de potência. Mas por conta desse “freio”, não está participando.