Etanol estrangeiro preocupa europeus
A Copa-Cogeca, a poderosa central de agricultores da Europa, solicitou à Comissão Européia a fixação de uma cota de importação de etanol para o bloco equivalente a apenas 7% da produção de seus 25 países-membros.
A UE produz 1,7 bilhão de litros de etanol por safra, dez vezes menos que Brasil e Estados Unidos. A cota européia para a entrada de etanol estrangeiro com alíquota menor seria, assim, de 119 milhões de litros – muito inferior ao volume de 1 bilhão de litros que o Brasil pede como cota na negociação entre UE e Mercosul.
“Temos que garantir que as importações não vão capturar o mercado de etanol da Europa“, afirmou o secretário-geral da Copa-Cogeca, Franz-Josep Feiter, em um congresso na semana passada em Cracóvia (Polônia).
A entidade alega que a alíquota para o etanol já não é alta na UE – entre 10 e 20 euros por 100 litros, dependendo do produto. Por isso, quer uma cota restrita para as importações e pede a imposição ao combustível estrangeiro de padrões ecológico e socioeconômico equivalentes ao europeu.
A Copa-Cogeca pede também para a Comissão Européia não classificar o etanol como produto ambiental, porque isso resultaria na aplicação de tarifa de importação zero. O Brasil lidera a campanha na Organização Mundial do Comércio (OMC) para que a medida seja adotada.
A central européia lembra, ainda, que o consumo mundial de açúcar está em alta, especialmente nas nações em desenvolvimento. A taxa anual de expansão da demanda tem girado em torno de 3% por ano, e em razão do etanol ela pode se tornar ainda maior. O preço do açúcar bruto atingiu sua maior alta em 25 anos no mercado internacional, e o do produto refinado chegou ao maior nível em 19 anos.
Os estoques de açúcar na China e no Paquistão estão em patamares críticos. Na Rússia e na Índia, também estão baixos. Juntos, esses países representam consumo de 40 milhões de toneladas. Enquanto isso, os europeus estimam que a produção brasileira de açúcar pode ser um pouco menor que a da última safra, porque o país está se movendo do açúcar para o etanol.
Na UE, a produção de açúcar atingiu 20 milhões de toneladas na temporada 2005/06. Com a reforma da política açucareira do bloco, que entra em vigor em julho derrubando os preços mínimos, a Comissão Européia espera uma redução de até 9 milhões de toneladas. O consumo atual chega a 16 milhões de toneladas.
No caso do açúcar, os produtores europeus dizem que não suportariam uma redução de 60% na tarifa de importação na negociação em curso na OMC. Por isso, insistem para que o produto seja designado como “sensível” e com isso tenha uma redução mais baixa, por volta de 30%. Nesse cenário, apostam cada vez mais em biocombustíveis. Com as projeções de preço do petróleo em torno de US$ 100 por barril, o biocombustível é visto como uma opção viável. Feiter exemplifica que os preços do etanol na bolsa de Chicago pularam de 0,32 euros o litro, em abril de 2005, para 0,71 euros em maio último.
“O grande perigo para o agricultor europeu é que as grandes companhias energéticas façam toda a pesquisa e desenvolvam os mercados”, conclui Franz-Josep Feiter.
A.Moreira, Valor