Comentário: Realmente, a lei 12.783 não provocou nenhum desastre na bolsa de valores. A localização do desastre será sentida no longo prazo e, como se sabe, a bolsa não é o local adequado para se medir conseqüências de longo prazo.
Os lucros fantásticos obtidos por Cemig, Cesp, Copel e Tractebel que somam mais de R$ 2 bi não vieram de Marte. Coincidentemente ocorreram em empresas que não aceitaram a “irresistível” proposta do governo de receber uma tarifa fixada pela ANEEL que gira no entorno de R$ 10/MWh. Ao invés, aproveitando a bizarrice do modelo brasileiro, preferiram vender esses mesmos MWh por mais de R$ 400/MWh no mercado livre.
Como o autoritarismo do governo esqueceu que as empresas poderiam não aceitar a “irresistível” proposta e também esqueceu que os contratos terminavam em dezembro de 2012, as distribuidoras ficaram descobertas. Portanto, as conseqüências virão um pouco mais adiante. Para piorar, a frouxa regulamentação brasileira permite que os geradores fixem a “sazonalidade” da oferta de tal modo que maximizem seus ganhos conforme a situação hidrológica. Nada a ver com a geração real! Ora, mamão com açúcar.
Mas não se preocupem! O tesouro está ai para isso mesmo.

Valor – 20/05 – Por Claudia Facchini | De São Paulo
A divulgação dos resultados das elétricas no primeiro trimestre deste ano, quando começou a vigorar a Lei 12. 783, que tratou da renovação das concessões, não provocou nenhum desastre na bolsa. O Índice de Energia Elétrica (IEE), que reúne as principais ações do setor, até mesmo subiu na semana passada, após a entrega das demonstrações financeiras de muitas companhias.
O IEE terminou a semana em alta de 1,53%, acumulando em maio uma valorização de 0,92%. As ações ordinárias da Eletrobras, por exemplo, subiram 4,5% na semana e passaram a ser negociadas neste mês com um ganho 0,8%. Mas a arrancada nos últimos dias não foi suficiente para tirar as ações das elétricas do campo negativo em 2013. O IEE ainda apresenta uma queda de 1% neste ano, depois de recuar 11,7% em 2012.
As estrelas do trimestre foram as geradoras, entre elas Cemig, Cesp e Copel, que não aceitaram os termos propostos para renovar suas concessões. As três estatais estaduais ganharam dinheiro com a venda de grandes volumes de energia no mercado de curto prazo em janeiro, quando o preço disparou com a falta de chuvas. O lucro da Cemig foi de R$ 865 milhões nos três primeiros meses, 37% maior que o obtido em igual período de 2012. O ganho da Copel aumentou 25%, totalizando R$ 399 milhões, enquanto a Cesp lucrou R$ 339 milhões, cifra 58% maior.
Outra empresa que encheu os bolsos com a venda de energia no mercado spot foi a Tractebel. A empresa lucrou R$ 425 milhões, 30% mais que nos três primeiros meses de 2012, e é hoje a elétrica com maior o valor de mercado na Bovespa: R$ 23,7 bilhões.
Já era esperado que as companhias que aderiram à renovação das concessões (MP 579) sofressem um forte impacto em seus resultados, como a Eletrobras e Companhia Paulista de Transmissão (Cteep). O lucro da Cteep caiu 65%, para R$ 71 milhões, enquanto a Eletrobras registrou um prejuízo de R$ 36 milhões.
Mas os números não foram tão ruins. As distribuidoras da Eletrobras apresentaram um desempenho melhor que o previsto. No caso da Cteep, o lucro superou em até 60% a previsão de alguns analistas devido aos bons resultados financeiros.
As distribuidoras são as empresas do setor que estão em uma situação mais complicada. A Eletropaulo, a maior delas, fechou o trimestre com um prejuízo de R$ 800 mil. Os sucessivos cortes nas tarifas obrigam as companhias a apertar o cinto. Para a Eletropaulo, em especial, a terceira rodada de reduções tarifárias teve um forte impacto em seu caixa e assustou os investidores. Neste ano, as ações da distribuidora já caíram 52%. Mas, na última semana, os papéis valorizaram 4,3%.
Mesmo a Cemig e a Copel, que tiveram bons resultados na geração, estão enxugando suas estruturas na aérea de distribuição. Segundo o diretor financeiro da Copel, Luiz Eduardo Sebastiani, a estatal vai contratar uma consultoria para otimizar custos e vai reduzir 700 vagas até 2014.
O diretor financeiro da Cemig, Luiz Fernando Rolla, afirmou na sexta-feira a analistas que a estatal espera uma economia de R$ 140 milhões em 2014 com o corte de funcionários que será feito neste ano, quando cerca de mil empregados serão desligados.