O APAGÃO, A IMPRENSA E OS ESPECIALISTAS
Pode parecer estranho, mas toda vez que acontece alguma perturbação importante no sistema de energia elétrica brasileiro, como por exemplo o apagão ocorrido em oito estados do Nordeste na noite de 03 para 04 do corrente mês, acabamos lembrando do nosso saudoso Chacrinha, o Velho Guerreiro, que costumava dizer que “não vim aqui para explicar, eu vim para confundir”.
É que nestes casos a mídia costuma ouvir e dar crédito a depoimentos de supostos especialistas, cujas explicações sobre tais ocorrências, por falta de precisão ou de real conhecimento sobre a questão, geralmente se enquadram na filosofia do Velho Guerreiro. Ao invés de explicar, simplesmente confundem.
Pois bem, é isto que mais uma vez está acontecendo agora no caso do apagão do Nordeste. Por exemplo, entre outras, tome-se a matéria publicada no jornal O Globo do sábado 05/02, página 26 do Caderno Economia, sob o título “PALAVRA DE ESPECIALISTAS – Não faltou energia, faltou transmissão”, na qual alguns especialistas opinam sobre a questão de forma totalmente equivocada. Na verdade, nenhum deles sequer tangenciou as reais causas relacionadas com o evento. Ao contrário, apenas consideraram aspectos que nada têm a ver com o problema e assim nada explicaram, apenas confundiram.
Com efeito, a afirmação dos especialistas de que “não vêm problemas na geração, mas na malha de transmissão” (sic) não é suficiente para explicar nada, posto que as argumentações que apresentaram referem-se todas elas a uma condição de operação em regime permanente e não são aplicáveis a eventos como o citado apagão, os quais se caracterizam pela predominância de fenômenos transitórios eletromagnéticos e dinâmicos sobre os componentes do sistema (linhas, geradores, etc.), em obediência às leis gerais da física.
Naturalmente, o sistema deve ser suficientemente bem planejado, projetado e operado de modo a suportar determinados níveis de perturbações sem causar maiores transtornos, isolando áreas limitadas se for preciso, e apenas nos casos raros de perturbações muito severas provocar desligamentos de grande porte (apagões).
Assim, o apagão da noite do dia 03/02 não teve qualquer vinculação com o elevado consumo de energia provocado pela expansão da economia do Nordeste, como se afirma na citada matéria. Observe-se que o pico de carga daquele dia já tinha passado fazia horas sem qualquer problema. Logo, não poderia ser o valor de uma elevada carga que teria sido a causa do evento.
Nem tampouco este apagão seria o sinal de que “o sistema de energia da região precisa ser reforçado nos sistemas de transmissão e também de térmicas” (sic), conforme explicitado na argumentação dos especialistas. Note-se que térmicas existem aos montes no Nordeste e quase todas permanecem sempre paradas, desligadas por não serem necessárias. Na hora do apagão lá estavam desligadas a Termopernambuco, Termofortaleza, Termoceará, Termocabo, Termopetrolina, Termoaçu e muitas outras, simplesmente porque não eram necessárias à operação naquele dia. Logo, também não seria por falta de térmicas que ocorreu o terrível apagão.
Do mesmo modo, também não foi por falta de transmissão. Parece que os especialistas não notaram, mas é fácil de observar pelas informações divulgadas na própria imprensa e pelos dados do ONS, que o desligamento do primeiro circuito de 500 kV Sobradinho/Luiz Gonzaga(Usina de Itaparica) aconteceu às 00h08min (hora de Brasília) e o sistema Nordeste nada sofreu por conta disso. Continuou operando normalmente. Note-se ainda que a linha São João do Piauí/Milagres já estava desligada para manutenção desde às 17h25min, sem que a sua ausência tenha causado dificuldades adicionais. Então, como afirmar que está faltando transmissão na região, se mesmo com as duas importantes linhas fora o sistema continuou funcionando normalmente?
E como e por que teria ocorrido o apagão? Segundo foi divulgado, somente 13 minutos depois de a primeira linha sair, às 00h21min, quando se tentava religá-la, ocorreu o desligamento automático da barra dois da subestação Luiz Gonzaga (Itaparica) e da segunda linha de 500 kV Sobradinho/Luiz Gonzaga (Usina de Itaparica), interrompendo bruscamente todo o fluxo de energia entre as duas subestações (usinas) e seus respectivos sistemas de transmissão associados. Esta sim, foi a grande perturbação cujos efeitos eletrodinâmicos provocaram as oscilações do sistema e certamente a consequente violação dos limites de estabilidade dinâmica do sistema naquela configuração da malha restante, quebrando assim o sincronismo entre as suas partes e provocando a abertura das interligações com o sistema Norte e com o sistema Sudeste/Centro Oeste, o que levou ao consequente colapso do sistema Nordeste.
Aqui, vale a pena aproveitar a oportunidade para explicitar com clareza a marcante diferença existente entre um apagão como este do Nordeste, ou aquele de novembro de 2009, que não depende das fontes primárias de energia do sistema, mas sim das características técnicas dos seus componentes e da configuração da sua malha em operação no exato instante da ocorrência da perturbação, enquanto um racionamento como aquele de 2001/2002, ao contrário, depende exclusivamente da disponibilidade das fontes primárias de energia que alimentam as suas usinas e não está vinculado a nenhum outro evento operacional.
E por que teria ocorrido este desligamento da barra dois e da segunda linha Sobradinho/Luiz Gonzaga. Esta é a pergunta que deve ser respondida pela CHESF e pelo ONS. Conforme se tem noticiado, teria sido a falha do “relé”, ou de um dos seus componentes, a tal “cartela eletrônica” (cartão de circuito integrado). É possível, pelo que se fala, faz sentido. Mas isto precisa ser devidamente apurado e esclarecido, porque nestas situações tudo tem de ser considerado, inclusive a possibilidade de uma eventual e concomitante falha humana. Não seria a primeira nem a última de uma tal ocorrência.
De qualquer modo, o sistema dispõe de todos os registros, com a sequência dos eventos exatamente como ocorreram e, com certeza, a CHESF e o ONS darão as informações que a sociedade reclama com todo o direito.
E para terminar, não seria demais também registrar aqui uma outra matéria divulgada pelo O Globo da última segunda-feira (07/02), sob o título “Outras fontes de energia podem evitar apagão” na qual outros especialistas mais uma vez se pronunciam na linha do Velho Guerreiro, argumentando que a diversificação da matriz energética com a introdução das fontes eólicas e solar, além de térmicas e nuclear, seria o caminho para evitar apagões como este do Nordeste. Santa ingenuidade. Lamentavelmente, como visto acima, uma coisa nada tem a ver com a outra. As fontes de energia, quaisquer que sejam e por mais diversificadas que forem, não seriam capazes de evitar apagões do tipo ora examinado, que são consequência de perturbações que de algum modo possam violar os limites de operação estável de parte ou do todo do sistema. Argumentações desse tipo não explicam, apenas podem confundir.
ILUMINA