O brasileiro assiste impotente ao crescimento da dívida bilionária do setor, já ultrapassando R$ 60 bilhões. Dada a dependência desse débito com um valor chamado PLD, que tal mostrar algumas “entranhas” desse parâmetro? Qualquer pessoa ficaria abismada com o nível de subjetividade e risco ao fixar um valor tão submisso a grandezas externas ao setor elétrico. Isso exibe a sujeição desse preço com parâmetros que nada têm a ver com a relação entre oferta e demanda e indicam o grau de confusão em que nos metemos ao tentar imitar o mercado de outras realidades energéticas.
A ANEEL colocou em consulta pública a revisão da taxa de desconto utilizada na formação do PLD, o nosso preço de curto prazo no mercado livre de energia. Ao decidir o nível de despacho térmico num certo mês, por exclusiva singularidade brasileira, o operador precisa levar em conta a consequência de sua decisão meses à frente e ai a taxa de desconto é utilizada. Teoricamente, ela seria função da taxa de juros e da inflação, uma vez que sua função é comparar os efeitos futuros de uma decisão tomada no presente. Imaginem o grau de “charada” dessa avaliação. A consulta pública não vai resolver o nível de subjetividade. Isso incomoda quem assume uma dívida função de um “chute”.
Mas a taxa de desconto não é a única adivinhação embutida no bizarro PLD. Ainda mais subjetivo é o custo do déficit, um valor atribuído à falta de energia. É possível estabelecer com precisão o custo da falta numa indústria dependente da energia, mas é evidente que há uma alta indeterminação para o mercado de energia como um todo. Mas, a subjetividade está em alta no setor e, em 2014, ele está definido em exatos R$ 3.150/MWh.
Há 13 anos tivemos o maior racionamento de energia sem guerras ou desastres naturais, quando o custo do déficit de 2001 valia R$ 1145/MWh. Se esse parâmetro traduzisse corretamente o possível prejuízo de estratégias que pudessem levar ao racionamento, certamente não fez o “dever de casa”. Considerando apenas o IPCA do período, ele valeria R$ 2600, valor apenas 17% inferior ao atual.
Já que é subjetivo, propomos algumas “subjetividades” com parâmetros internos ao setor. De 2001 até 2014, dado o crescimento da carga, a nossa capacidade de guardar energia nos reservatórios caiu de sete meses e meio para cinco meses. Uma queda de 33%. Isso significa que os kWh guardados nos nossos reservatórios são muito mais “responsáveis” pela segurança do que os kWh reservados no passado. Portanto, se levarmos essa mudança estrutural em consideração já chegaríamos a mais de R$ 3.900/MWh.
Desde 2001, a tarifa média brasileira subiu 40% acima da inflação. Portanto, se quiséssemos manter a proporção do custo do déficit com o custo do kWh, ele poderia chegar a mais de R$ 4.400/MWh.
A nossa intenção não é aumentar a dívida do setor, o que aconteceria se esse valor fosse elevado agora. O intento é mostrar que toda a política energética, desde a operação até a expansão, esteve sujeita a uma espécie de “roleta russa” pseudocientífica. Valores diferentes levariam a outras decisões e, algumas delas, evitariam o atual estado de penúria do setor.
O que impressiona é a coleção de sintomas adversos que já colecionamos e nem todos eles reunidos conseguem uma reação da sociedade. O ILUMINA vem apontando seguidamente esses defeitos, mas parece que é preciso um desastre maior.

