Rombo de distribuidoras pode crescer R$ 9 bi – Valor Econômico

Não é tão difícil mostrar como conseguimos a façanha de, repentinamente, construirmos uma dívida de dezenas de bilhões que se esparrama para as contas do tesouro, para as nossas tarifas e para os valores das empresas de energia.

A figura acima mostra a nossa política de “complementação” térmica. Até setembro de 2012, as térmicas respondiam por aproximadamente 9% da carga. A partir de outubro de 2012, numa das maiores “coincidências” já vistas, logo após o anúncio da medida provisória 579 que reduziu tarifas às custas da Eletrobrás, a operação aumenta essa participação média que pula para 21% e se mantêm assim desde então.

Ora, de outubro de 2012 a julho de 2014 são 22 meses. Nem precisa considerar o aumento da carga. Vamos imaginar que ela seja fixa em 550 TWh. O extra de geração  que se mantêm desde então é 12% de 45, 8 TWh (550/12) em cada mês. Se imaginarmos um custo médio de geração térmica de R$ 420/MWh ( há térmicas que superam R$ 1000/MWh) nesses 22 meses, chegámos à quantia de R$ 50 bilhões.

Essa fábula está sendo coberta por uma confusão entre tarifas, empréstimos, subsídios, onde a única certeza é que o perdedor será o cidadão brasileiro. Se somarmos as perdas de valor das empresas elétricas e dos prejuízos das geradoras, talvez possamos atingir 80 ou até 100 bilhões.

Tudo isso não tem a mínima importância. Todos estão atentos à performance do Brasil na Copa, provavelmente um outro sorvedouro de dinheiro público que só será percebido mais tarde.


Por Leandra Peres | De Brasília

O governo refez os cálculos do custo que as distribuidoras terão com a compra de energia das térmicas até o fim do ano e trabalha com dois cenários. Se o custo da eletricidade no mercado de curto prazo continuar oscilando entre R$ 300 e R$ 400, como nas últimas semanas, serão necessários mais R$ 5 bilhões para cobrir essas despesas. Mas se o custo da energia voltar a oscilar entre R$ 700 e R$ 800, a despesa sobe para R$ 9 bilhões até dezembro, além dos R$ 12,4 bilhões que já foram calculados de janeiro a abril.

 

Essas estimativas incluem apenas o que será gasto com a energia que as distribuidoras não conseguiram contratar nos leilões oficiais, a chamada exposição involuntária, e o acionamento das usinas térmicas, que custam mais caro que as hidrelétricas. Ficaram fora do cálculo eventuais desequilíbrios das usinas geradoras, assim como o impacto da diferença de preço da energia calculada nas tarifas das distribuidoras e o valor pago pelas empresas no leilão emergencial de abril. Se esses gastos forem incluídos, o desequilíbrio no setor elétrico sobe para R$ 14 bilhões.

A decisão sobre como será enfrentado o rombo das distribuidoras de energia este ano será essencial para o cumprimento da meta de superávit primário do governo, fixada em R$ 99 bilhões. A necessidade de aportes adicionais ao setor pode comprometer o resultado do ano.

Na visão do governo, ainda não é hora de falar em aumento do socorro federal às distribuidoras. A estratégia é usar os recursos já previstos para adiar ao máximo qualquer decisão. As autoridades ainda contam com a hidrologia para salvar o ano. O aumento das chances do El Niño, fenômeno que eleva o volume de chuvas durante a estação de seca, é um dos fatores a favor do adiamento.

O argumento é que um aumento nas chuvas vai reduzir o custo da energia e o rombo das distribuidoras, mas também permitirá uma melhora nas condições das hidrelétricas, o que também terá impacto positivo sobre eventuais desequilíbrios nas contas das geradoras. Há também o fenômeno Copa do Mundo, que, no caso do setor de energia, reduz o consumo. Gráficos apresentados pelas empresas ao governo mostram um recuo na demanda que coincide com os horários de jogos e inclui, além da produção industrial, também a demanda de consumidores residenciais.

O governo já cobriu o desequilíbrio de caixa das distribuidoras de energia de janeiro a abril. Nesse período, foram gastos R$ 12,4 bilhões, dos quais apenas R$ 1,2 bilhão saiu do Tesouro Nacional. O restante veio do empréstimo que o Ministério da Fazenda negociou com bancos privados e que será pago com aumentos de tarifas ao longo dos próximos dois anos.

Em julho, vence a parcela da energia adquirida pelas empresas de distribuição em maio, ainda a um preço elevado. De acordo com autoridades que participam das discussões com o setor, não há tempo hábil para nenhuma solução que já não tenha sido encaminhada. O Tesouro Nacional prometeu colocar até R$ 13 bilhões nos fundos setoriais que cobrem os gastos com energia. O mais provável é um repasse para cobrir, ao menos parcialmente, o rombo do setor em maio.

O desequilíbrio nas contas do setor tem origem na decisão do governo de antecipar o vencimento das concessões de energia para 2012 e também na falta de chuva. No primeiro caso, as distribuidoras não conseguiram assinar contratos de longo prazo com as geradoras, porque Cemig, Cesp e Copel decidiram não antecipar o vencimento de suas concessões. Com isso, não houve oferta de energia suficiente para cobrir a demanda e as distribuidoras foram obrigadas a comprar energia no mercado de curto prazo, onde o custo chegou a R$ 822,63 MWh.

A falta de chuvas obrigou o governo a acionar as usinas térmicas em tempo integral e essa energia é mais cara que a hidrelétrica. Esse gasto não estava previsto nas tarifas das distribuidoras. O governo já socorreu o setor em 2013 e 2014 para evitar aumentos de tarifas.

 

 

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