De volta para o passado


Velhos combustíveis tiram espaço do gás



A incerteza quanto à importação do gás natural boliviano e ao seu custo – que jáprovocou um aumento de 42% nos preços desde setembro – levou muitas empresasa mudar suas estratégias de abastecimento energético. Ganham força combustíveismais baratos, como a lenha e o carvão energético, mas também mais poluentes.


Setores muito dependentes do gás, como o de cerâmica branca (louças sanitárias,pisos e revestimentos) ou vermelha (telhas e tijolos), estão retornando tanto para ocarvão como para a lenha, depois de passarem os últimos seis anos se adaptandoao uso do gás. Indústrias de tijolos do Rio Grande do Sul e de São Pauloaumentaram a participação da lenha em suas matrizes energéticas. O custo diretoaproximado, por fornada, é em média de R$ 200 com lenha, podendo subir para R$400 com o gás natural, segundo especialistas.


A fabricante de cerâmica Cecrisa, por exemplo, desenvolve um gaseificador de turfa(estágio inicial do carvão), processo mais econômico de queima de combustível queo gás natural na indústria. A Karsten, têxtil com sede em Blumenau, vem ampliandosua reserva própria de eucalipto. A empresa, dona de 2,4 milhões de pés, está
adquirindo mais áreas. Os investimentos são considerados estratégicose o fabricante passou a usar lenha em praticamente 70% da sua produção, em 2002.


A Karsten, pioneira no uso do gás natural em 2000 no Vale do Itajaí, recuou dois anosdepois, quando sentiu fortes aumentos do preço do combustível. Decidiu entãoretornar aos processos de queima usados nos anos 90 e fugir da pressão noscustos. “Hoje, pensamos em substituir o que resta de gás natural, mas isso podedemorar a acontecer porque exige elevados investimentos”, diz o presidente daempresa, Carlos Odebrecht.


A empresanão revela investimentos feitos, mas nos dois últimos anos comprou duasgrandes áreas para plantio de eucalipto na região do Alto Vale, no norte catarinense.
A cada ano tem aumentado a sua auto-suficiência em lenha em cerca de 20%.Atualmente, produz 60% do que utiliza na sua indústria e compra o restante deterceiros. As operações com gás natural acontecem apenas em áreas relacionadasao beneficiamento. O consumo médio mensal que em 2000 era de 850 mil metroscúbicos de gás natural, hoje fica em torno de 300 mil metros cúbicos.


O benefício da lenha está principalmente nos custos. “A lenha é extremamente maisbarata”, destaca o executivo. No ano passado, nos cálculos da empresa, foi 57%mais econômica do que o custo do gás (os dois combustíveis apresentaramaumentos de preços).


Empresas de agronegócios como Cargill e Bunge também estão ampliando seusinvestimentos na auto-suficiência energética principalmente por meio da queima dalenha. Mas o bagaço de cana e a casca de arroz também fazem parte da matrizenergética da Bunge Alimentos.


Para a indústria de vidros, porém, as mudanças de fonte combustível é maiscomplicada. Os fornos de vidro passam pela sua primeira reforma entre 8 anos e 15anos após o início das operações. “Uma mudança do gás para o óleo combustível,por exemplo, teria que ser feita durante um processo de reforma. E as novasinstalações para acomodar depósito de óleo e outras tubulações custariamaproximadamente US$ 1,5 milhão. Não é possível no nosso segmento umamudança dessa da noite para o dia”, diz Lucien Belmonte, superintendente daAssociação Brasileira da Indústria do Vidro (Abividro).


Para Belmonte, há espaço para um aumento ainda maior do gás natural neste ano, jáque os preços no ano passado foram calculados com um dólar mais alto, a R$ 2,80.
“Como a moeda americana está cotada muito abaixo disso, em R$ 2,11 em média, houve uma gordura que pôde ser queimada. Mas, se o dólar subir neste ano, os reajustes serão ainda mais violentos”.


Até o ano passado, os reajustes do preço do gás natural eram feitos uma vez por ano.Em 2006, os aumentos serão trimestrais. Além disso, os gastos da Petrobras naBolívia para trazer o gás serão 114% maiores neste ano do que em relação ao anoanterior – de US$ 700 milhões para US$ 1,5 bilhão. Os royalties pagos pela brasileiraao governo boliviano terão aumento de 900%. E todos esses aumentos serãorepassados ao consumidor.


Além disso, não haverá oferta do insumo suficiente para todos. Levantamento feitopela Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace) mostraque há projetos no papel que demandarão 18 milhões de metros cúbicos de gásdiariamente, cerca de 70% da quantidade do insumo que hoje é importado da Bolívia.
Dificilmente haverá disponibilidade para tudo isso no médio prazo, diz ovice-presidente da entidade, José Roberto Gianotti.


L.Coimbra, V.Jurgenfeld e F.Lopes, Valor,SPeFlorianópolis

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