Governo e usineiros reúnem-se após quebra de acordo
Brasília – Contrariado com o rompimento, por parte dos usineiros, do acordo que fixou em R$ 1,05 o preço do álcool combustível nas usinas durante a entressafra, o governo federal resolveu chamar hoje representantes do setor sucroalcooleiro para uma conversa. Na última sexta-feira, os preços do produto, tanto do hidratado, como do anidro, chegaram a R$ 1,072 nas usinas, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), ultrapassando o acordado em 11 de janeiro entre os usineiros e o governo federal.
A reunião foi convocada pela ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. A ministra, disseram interlocutores, teria chamado o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, para participar da conversa. Chateado com os usineiros, Rodrigues teria designado o chefe do Departamento de Cana-de-Açúcar e Agroenergia, Ângelo Bressan, para o encontro.
“A situação ficou muito chata para o ministro”, afirmou uma fonte da Pasta. Isso porque em janeiro, quando os preços do álcool dispararam, Rodrigues e assessores saíram em defesa dos usineiros, disseram que a alta era resultado de uma situação de mercado, e convenceram Dilma e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva a aceitarem o teto em R$ 1,05 para o litro do álcool. O governo queria que o R$ 1 acordado em 2003 fosse mantido.
Rodrigues disse que o governo vai cobrar dos usineiros o cumprimento do acordo que prevê a venda do litro de álcool a R$ 1,05. “Vamos cobrar do setor o compromisso assumido em janeiro”, disse o ministro, após confirmar que o assunto foi discutido durante uma reunião realizada hoje pela manhã na Casa Civil. Ele afirmou que vários ministros participaram da reunião e que o governo está examinando a situação junto com os empresários do setor.
Puxão de orelha
Na reunião de janeiro, a ministra Dilma, apesar de ceder, não concordou com a posição de Rodrigues e defendeu que o ministro “desse um puxão de orelhas nos usineiros”, ou seja, que cobrasse do setor compromisso com o abastecimento interno de álcool. Ela própria criticou o setor durante o encontro, pelo fato de os usineiros defenderem o livre mercado para o álcool. A ministra irritou-se com o fato de os empresários sustentarem que o mercado do álcool é livre e por isso um acordo de preços não poderia ser feito.
Dilma questionou os empresários como é que podia haver livre mercado, se o setor é beneficiado pela ausência da cobrança da Cide e ainda por uma cobrança de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) mais baixa para os carros a álcool e bicombustíveis. “Rodrigues foi o fiador do acordo e agora com que cara ele fica”, questionou um assessor do ministro. No início da semana passada, o setor sucroalcooleiro, já temendo o rompimento do acordo, pediu ao governo a conversa coordenada hoje por Dilma.
Na sede da Unica em São Paulo, a informação é de que a cúpula da entidade está em Brasília e que ninguém poderia ser localizada. A assessoria de imprensa da Unica também não se manifestou até o momento. Na semana passada, o Ministério da Agricultura divulgou uma nota na qual ressalta que não havia motivo para preocupação no que se referia ao cumprimento do acordo firmado com os usineiros. No período de 5 a 11 de fevereiro, o preço bateu em R$ 1,046 por litro. A aparente tranqüilidade no Ministério já não é a mesma nesta semana com o preço a R$ 1,072. Na sexta-feira, a Unica resumiu a uma pressão de mercado o aumento acima do acordado com o governo.
F.Salvador e G.Porto/Estadão/JC