O ILUMINA pede licença para discordar do secretário de energia do Rio de Janeiro apenas quando diz que "o básico na confiabilidade é ter geração de energia próxima ao ponto de consumo". Quando o sistema energético brasileiro é planejado de forma integrada, geração e transmissão, esses problemas de confiabilidade não ocorrem. Mais do que mudanças na confiabilidade, as mudanças impostas ao setor apontam para o enfraquecimento da função planejamento, o que implicará em aumento de custos além do já observado decorrente de expectativas de retorno de capital muito acima das praticadas anteriormente. Os custos das usinas nucleares são mais elevados do que as opções hidráulicas. Resta saber quem irá pagar? O consumidor de energia elétrica ou o contribuinte?
JB 11/7/99
Rio faz opção pela energia nuclearEstado defende finalização da usina Angra 2 e início da construção de Angra 3. Idéia é formar grande pólo energético
MAIR PENA NETO
O Estado do Rio vai se posicionar claramente pela finalização da usina nuclear Angra 2 e pelo início imediato da construção de Angra 3, durante o Fórum Nacional dos secretários de estado de Energia, na sexta-feira, em Angra dos Reis. Segundo o governo estadual, as duas unidades aumentam a confiabilidadeno abastecimento da região Sudeste, geram empregos, benefícios sociais e tecnológicos, além de consumirem combustível nacional, o que
representa economia diante de outras fontes de geração, como o gás.
Para o Rio de Janeiro, as usinas significariam redução da dependência energética no estado. O Rio importa 70% do que consome. Além disso, permite a fixação de um pólo nuclear formado por usinas, indústrias e centros de estudo e pesquisa. "O básico na confiabilidade do setor elétrico é ter geração de energia próxima ao ponto de consumo", afirma o secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Estado do Rio, Wagner Victer. Como a base hidrelétrica brasileira está muito distante do maior centro de consumo, que é a região Sul/Sudeste, existe um alto nível de perda e riscos por conta das longas linhas de transmissão.
Victer não pretende criar concorrência entre as duas fontes de energia, mas aponta a vantagem de mais uma usina nuclear. "Além dos benefícios da geração, Angra 3 se enquadra no ciclo nuclear. Com os equipamentos já comprados e com a desvalorização do real, que encarece combustíveis importados, Angra 3 fica muito rentável."
Angra 2 e 3 acrescentarão mais 2.600 MW ao sistema, e outro benefício destacado por Victer é a grande quantidade de obra civil na construção de uma usina. O Sul Fluminense, lembrou, está sofrendo por conta do esvaziamento do estaleiro Verolme. E o estado está efetivamente familiarizado com o setor. O secretário citou as usinas, operadas pela Eletronuclear, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o Instituto de Energia Nuclear (IEN), no Fundão, o Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD), a Nuclep, que faz os equipamentos, as Indústrias Nucleares Brasileiras (INB), que produzem o combustível nuclear, em Resende, e os cursos de pós-graduação no IME e na Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ).
Victer referiu-se ainda a um tomógrafo desenvolvido na Coppe, na Ilha do Fundão, capaz de fazer diagnóstico de câncer no início da manifestação da doença. "Este pólo tem que estar totalmente integrado a todas as instituições." O secretário defende uma discussão técnica sobre segurança e proteção ambiental. "Não podemos esquecer que países como França, Bélgica, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, Japão e Canadá têm em sua matriz energética pelo menos 30 ou 40 vezes o percentual que teremos com Angra 1, 2 e 3. Não se pode confundir problemas do passado, decorrentes de tecnologias ultrapassadas, com problemas que hoje podem ser controlados e gerenciados."
Os custos para a construção de uma terceira usina nuclear não assustam Wagner Victer. Acredita que por conta do fluxo de caixa que vai ser gerado com a operação de Angra 1 e Angra 2, a Eletronuclear terá condição de se financiar ou buscar um financiamento.
"É preciso pesar o que falta fazer com os benefícios que você vai gerar. Angra 2 representou um incremento na arrecadação de ICMS e ISS de aproximadamente US$ 100 milhões durante a construção." Mas o secretário defende que o programa nuclear brasileiro pare em Angra 3 por questões econômicas.
Pesquisa do Ibope em Angra revelou que a maioria dos moradores é favorável à construção de Angra 3, e o Relatório de Impacto Ambiental (Rima) para Angra 2 foi aprovado pela Feema mediante certos compromissos. Um deles é a melhoria da BR-101 (Rio-Santos). Victer enviou carta ao ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, pedindo urgência no início das reformas. "Os últimos orçamentos do DNER já consideravam recursos para a reforma da estrada em R$ 12 milhões", conta.
Como o requerente da licença e a entidade que fará a liberação dos recursos são federais, Victer não tem dúvida de que a recuperação da BR-101 será anunciada brevemente.
No fórum dos secretários de Energia, Victer espera obter apoio para o início das obras. Afirma que o Brasil precisa perder o "vício do valor presente líquido". Segundo Victer, quando o mundo inteiro faz análise econômica, aqui se faz análise financeira.
"É um grande erro. A análise econômica inclui visão ampla do processo e não puramente financeira, tipo por quanto vou vender e qual será o meu custo. É preciso que as pessoas vejam os benefícios sociais, as economias sucedâneas, os benefícios tecnológicos e médicos, além da importância de se dominar completamente o ciclo nuclear."