JB Informe Economico 15/09/98 Gerasul: um teste para o Brasil A crise mundial fez inúmeros investidores desistirem de participar do leilão de venda da Gerasul, a primeira geradora federal de energia a ser privatizad …



JB Informe Economico 15/09/98

Gerasul: um teste para o Brasil

A crise mundial fez inúmeros investidores desistirem de participar do leilão de venda da Gerasul, a primeira geradora federal de energia a ser privatizada.


O leilão, marcado para as 10h de hoje, é um teste importante na luta do governo para reverter as expectativas negativas que se formaram em torno da economia brasileira nas últimas semanas.


Superado esse obstáculo, a venda da empresa, apesar da crise e da redução do número de concorrentes, tem chances de ser bem sucedida. Três consórcios estão no páreo, dois dos quais possuem elevado interesse estratégico na região Sul, onde atua a Gerasul.


Um dos consórcios é liderado pelas francesas EDF e Total. A EDF, como se sabe, é acionista da Light e da Metropolitana. Além disso, é uma das proprietárias da Edenor, uma das distribuidoras de energia da província de Buenos Aires, na Argentina.


Um outro consórcio é integrado pela Amoco – gigante americana de petróleo -, a AES (também americana, sócia da Cemig e da Light), além da RGE (Rio Grande Energia), empresa controlada pela PSGE (ex-Community Energy Alternative-CEA), a Previ e o grupo VBC (Votorantim, Bradesco e Camargo Correa).


O terceiro consórcio é liderado pela empresa belga Tractbel, que possui negócios na área de energia elétrica no Chile.


Os dois primeiros consórcios, por motivos óbvios, têm muito interesse em ampliar sua participação, no setor energético, na região Sul. Por isso, a Gerasul, que abastece os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, além de vender excedentes de energia para Furnas, pode ser bastante disputada.


"A Gerasul é um caminho extraordinário para todos os elos de ligação energética do Sul do país e do continente", diz um especialista no assunto. A empresa tem amplas possibilidades, por sua posição estratégica, de intercambiar energia, por exemplo, com a Argentina, de onde poderá importar gás natural.

Uma privatização heróica

O governo esperava que pelo menos seis consórcios disputassem a Gerasul. O consórcio formado pela americana El Paso e a Chilectra, braço da espanhola no Chile, desistiu do páreo a poucos instantes da habilitação, que se encerrou na sexta-feira passada.


"A El Paso saiu a 44 minutos do segundo tempo do jogo, deixando a Chilectra a ver navios, sem possibilidade de entrar sozinha no leilão", revela uma fonte do governo.


A crise deve levar os três consórcios, segundo expectativa de integrantes do governo, a adotarem uma postura conservadora no leilão. A tendência é que os lances iniciais oferecidos nos envelopes sejam de valor pequeno, próximos do preço mínimo. Se a diferença entre as propostas ficar abaixo de 5%, o leilão prosseguirá com os lances verbais.


Se isso acontecer, aposta um assessor do governo, o ágio pode chegar até, no máximo, algo entre 25% e 40% acima do preço mínimo, fixado em R$ 945 milhões. É bom lembrar que o valor mínimo foi altamente contestado pela COPPE-UFRJ. Veja a notícia


"Se conseguirmos arrecadar entre R$ 1,3 bilhão e R$ 1,4 bilhão, será um verdadeiro sonho de uma noite de verão", diz uma fonte do governo. Como é fácil sonhar com o dinheiro público!!! Além do consórcio citado, desistiram do leilão da Gerasul megaoperadoras estrangeiras de energia, como as americanas Duke Power, a Pacificot e a Southern, a canadense Hydro Quebec e as britânicas British Gas, National Power e a Power Generation.


O BNDES levou dois anos para preparar a privatização da Gerasul. No meio do caminho, ajudou a criar o intricado marco regulatório do setor – a Lei 9.648, além do decreto 2.655 e inúmeras resoluções da ANEEL -, que criou, por exemplo, os mercados livre e de atacado de energia. As questões relativas ao funcionamento do setor no que se refere à expansão e à operação estão longe de estar definidas.


A empresa será vendida no momento de maior desconfiança dos investidores estrangeiros em relaçãoao Brasil. Por isso mesmo, o governo não pode voltar atrás, sob pena de piorar ainda mais as expectativas. "É uma privatização heróica", admitia ontem um integrante do governo. Além da sub- avaliação de uma empresa pública , nós contribuintes estamos arcando com a diferença entre a taxa de juros escorchante pela qual o govêrno capta recursos e os generosos 10% pelos quais o govêrno, através do BNDES, financia os compradores.

Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *