Impasse Jornal do Commercio 23/01/2000 Cézar Faccioli Os programas de incentivo à geração de energia passaram a correr um perigo extra, o tabelamento de preços para repasse. O teto cogitado pela Aneel …

Impasse


Jornal do Commercio 23/01/2000


Cézar Faccioli


Os programas de incentivo à geração de energia passaram a correr um perigo extra, o tabelamento de preços para repasse. O teto cogitado pela Aneel, de US$ 30 o megawatt/hora, é quase um terço abaixo dos US$ 42 apontado como break even (preço de equilíbrio) pelas grandes empresas do setor. O impasse ameaça os investimentos no setor e a privatização de Furnas.


A disputa entre a Aneel e os potenciais investidores já começara com o descompasso entre os contratos de fornecimento de gás natural, submetidos à parametrização trimestral, revisão de preços periódica, e os contratos de geração, em que essa análise não estava garantida. Para agravar o quadro, as distribuidoras ainda tinham contratos diferentes, conforme a época de celebração, e com isso a proporção e a frequência do que podiam repassar de sues custos ao consumidor final também variavam – e variam – muito.


TURBINA. Talvez como forma de incentivar a aceleração dos investimentos das atuais detentoras das permissões e concessões na área de geração, os técnicos da Aneel, presidida por José Mário Abdo, cogitaram o tabelamento, que daria previsibilidade ao horizonte de custos e receitas das empresas e de seus prováveis concorrentes, garantidos todos contra a oscilação do dólar. A medida coincidiria com o pleito de parte dos investidores, de um preço fixo anual para o gás natural, com um encontro anual de contas para acertar as diferenças acumuladas. O tabelamento na outra ponta, a da revenda da energia gerada, soaria assim menos danoso, por coincidir com uma estrutura de custos igualmente represada.


A dificuldade é convencer as companhias ainda ausentes de que vale a pena investir no Brasil, mesmo num ambiente tão intervencionista. A reticência dos investidores beneficiaria exclusivamente as empresas já instaladas, vale repetir, e pelo pior dos caminhos, a explosão dos preços no Mercado Atacadista de Energia, voltado para venda livre de excedentes. Um quadro desses, semelhante ao da crise na Califórnia, pode elevar temporariamente as tarifas em até 1000%, o que terminaria por minar de vez as condições políticas de privatizar Furnas.


Um desafio e tanto para o ministro das Minas e Energia, Rodolfo Tourinho, já às voltas com o reflexo na sua pasta das desavenças e rusgas entre o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães, principal liderança política do Governo e responsável pela sua indicação, de um lado, e as lideranças de PMDB e PSDB, de outro. É nesse meio de alta tensão que florescem as especulações sobre um convite a Euclides Scalco, presidente da Itaipu Binancional e adepto de uma privatização mais rápida, para assumir a pasta, que voltam vez por outra, embora sempre negadas pelo Planalto.


Freio


Há uma corrente de analistas avaliando que a valorização das ações da Cesp nos último mês é excessiva. Para eles, o OK do Governo do Paraná para a realização leilão da Copel pode reduzir o interesse das grandes multinacionais sobre o leilão da Cesp Paraná, que deve ocorrer em maio.


Tirando a Duke Energy – que por já ter comprado parte da geração da Cesp (a Cesp Paranapanema) teria grande sinergia em adquirir novos ativos da companhia paulista – as demais candidatas, como EDP, AES, Endesa e EDF, poderiam estar avaliando a empresa paranaense com mais carinho.


Um dos grandes problemas da Cesp Paraná é o alto endividamento – da ordem de R$ 6 bilhões, do qual 90% está em dólar, para um patrimônio de R$ 11 bilhões. Ao assumir uma dívida tão elevada, o comprador da companhia ficaria com uma capacidade reduzida de fazer novos investimentos. Já o comprador da Copel, empresa que tem uma dívida próxima a 20% do seu patrimônio, teriam fôlego para investir mais tanto na companhia como em outras privatizações.

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