Os cortes em casa CLAUDIA LIMA E LUCIANA CABRAL A Light, concessionária que distribui energia para 31 municípios do estado, enviará cartas a todos os 3,3 milhões de clientes até o dia 31 deste m&eci …



Os cortes em casa


CLAUDIA LIMA E LUCIANA CABRAL


A Light, concessionária que distribui energia para 31 municípios do estado, enviará cartas a todos os 3,3 milhões de clientes até o dia 31 deste mês, informando sobre a meta que cada um deve cumprir. A campanha de esclarecimentos sobre as medidas e dicas sobre cortes será lançada nos próximos dias. Como o modelo atual de conta de luz da Light traz o histórico de consumo dos últimos 12 meses, os consumidores já podem ter noção da meta que terão de atingir.


Os 1,6 milhão de clientes dos 66 municípios do estado abastecidos pela Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro (Cerj) também vão receber, a partir da próxima semana, a conta de luz com indicativo de média de consumo. Segundo o gerente de Coordenação e Organização da Cerj, Carlos Ewandro Naegele Moreira, caberá ao consumidor controlar os gastos para evitar a sobretaxação ou os cortes. ”Os cidadãos têm de ser pró-ativos porque estamos vivendo uma operação de guerra. A energia não existe e a situação exige cidadania e criatividade”, afirmou Moreira.


Estão entre as principais preocupações da Cerj o aumento das ligações clandestinas (gatos) e a multiplicação de linhas a serem cortadas, no caso de inadimplência ou que sejam ultrapassados os limites de consumo imposto pelo governo federal. Se os apagões forem necessários, a Cerj criou um programa especial que mantém o fornecimento dos serviços essenciais, como hospitais e delegacia, e também das indústrias. Os consumidores residenciais serão avisados uma semana antes do racionamento, que acontecerá por três horas ao longo do dia – entre 6h e 18h.


Demissões – Em meio à crise de energia, a Light divulgou ontem uma lista com o nome de 280 funcionários, que segundo o Sindicato dos Trabalhadores de Energia do Rio (Sintergia), seriam demitidos. A medida fez com que cerca de 400 funcionários realizassem uma paralisação, na manhã de ontem, em uma das sedes da empresa, na Avenida Marechal Floriano, no Centro. A Light, no entanto, nega que todos esses funcionários sejam demitidos. ”A lista foi para convocar as pessoas. Algumas serão demitidas, mas outras serão remanejadas”, afirmou o diretor administrativo, Sebastião Medeiros. Segundo os funcionários, a intenção da Light é demitir. ”A Light nos informou, na semana passada, que haveria pelo menos 364 demissões”, disse Ronaldo Moreno, presidente da Associação dos Funcionários da Light, que teme a queda na qualidade dos serviços. Medeiros, no entanto, garantiu que as demissões e a terceirização não influenciarão na performance da empresa.


”As demissões são para diminuir setores da área comercial e administrativa. As religações, por exemplo, eram feitas manualmente e agora o serviço foi automatizado. Em hipótese alguma isso vai trazer problemas, caso haja o apagão”, disse. O presidente do Sintergia, Aldanir Carlos dos Santos, acredita que é outra a intenção da Light. ”As demissões seriam uma forma de reduzir custos”, acredita.




Economia é punida e gasto, anunciado


Na Zona Sul, dois extremos do racionamento


ISABELA DE ASSIS


Antes da crise, o condomínio do edifício Embaixador, em Copacabana, já tinha entrado em fase de racionamento de energia. Síndico do prédio, o economista Carlos Varaldo, 53 anos, traçou um plano de contenção que resultou, desde 1999, na redução de 50% do consumo do condomínio. O esforço, no entanto, não vai livrar os moradores de uma multa que pode chegar a R$ 2.400 por mês. Como Varaldo fez quase tudo o que podia para poupar energia, o edifício não tem como reduzir a conta da Light em 20% – a meta proposta pelo governo federal.


”Seremos multados em 200% do valor de nossa conta simplesmente por termos sido precavidos. Para mim, isso é um aumento disfarçado”, reclama Varaldo. Na ponta do lápis, o síndico percebe que não terá muitas saídas. Para cumprir as exigências do governo, o condomínio teria que reduzir o consumo de 4.400 kW/mês para 880 kW/mês. ”O máximo que conseguiremos é economizar 300 kW/mês. Teria sido melhor não ter feito investimentos. Agora, poderíamos demonstrar nosso patriotismo e, ainda, receber um bônus como prêmio”, reivindica.


A revolta maior de Varaldo é perceber que o esforço do condomínio não foi recompensado. Para colaborar com uma campanha de racionamento, lançada em 1999, ele não fez por menos: trocou 120 pontos de luz, substituindo lâmpadas incandescentes por fluorescentes, mudou os refletores e instalou 30 sensores de presença no hall dos elevadores sociais. ”Por isso nossa conta de energia é pequena. Pagamos R$ 1.200,00 para um prédio de 10 andares e três blocos”, diz o economista.


Sem economia – Enquanto boa parte dos cariocas perde o sono imaginando formas de economizar energia, a preocupação com as contas da Light passa longe do edifício Cap Ferrat, na Avenida Vieira Souto, em Ipanema. No dia 5 de junho, o salão de festas do condomínio vai esbanjar. Serão 15 lâmpadas de 60 watts de potência. Para completar, outras 15 lâmpadas estarão acesas, iluminando o jardim do Cap Ferrat. A maior preocupação de Mauro Von Borell, administrador do condomínio, é que o gerador esteja preparado para qualquer apagão repentino.


”Vou comprar agora 60 litros de óleo diesel que são servir de reserva para o gerador. Por enquanto, os donos da festa não pensaram em desmarcar o evento”, disse Mauro. O único plano de racionamento do condomínio foi a troca de lâmpadas comuns pelas eletrônicas, no início deste ano. Além da festa, o Cap Ferrat também não abre mão dos três elevadores que funcionam 24 horas, do ar condicionado central que fica ligado dia e noite e do sistema interno de câmeras de vídeo. Para bancar estes e outros luxos, o condomínio gasta nada menos que R$ 18 mil por mês.


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