Respostas à pergunta " E agora ILUMINA "?
Prezado Roberto
Motivos pessoais têm me mantido, há algum tempo, afastado mas não desinteressado dos debates e eventos do chamado movimento social. Entretanto, animado, na época, pela amizade com Olavo Cabral, Eduardo Bueno e André Spitz, dentre outros, tomei parte de algumas reuniões precursoras do Ilumina e, ainda, de outras do início de sua vida.
Os termos do último editorial do Ilumina soam como alarme de uma crise que se anuncia como sendo de agora, crise esta assim caracterizada no contexto de uma transição política e administrativa de âmbito nacional, em que a oposição passou a ser governo.
Já de algum tempo Olavo Cabral vem insistindo para que eu me manifeste e vem encontrando sempre uma atitude relutante e reticente de minha parte. Neste momento eu resolvi atender ao apelo do amigo, principalmente porque gosto do Ilumina e, não menos importante, porque discordo da idéia de que sua crise seja momentânea, ou conjuntural, como pode levar a crer o referido editorial.
A crise do Ilumina é, antes, uma crise de identidade, acompanha a entidade desde sua origem. É também uma crise política, em grande parte decorrente da crise de identidade. É ainda uma crise administrativa, em conseqüência da crise política que, por conseguinte, acomete o Ilumina de aguda crise financeira.
De início pensei em discorrer sobre cada uma das dimensões da crise, mas vou me ater à crise de identidade, porque posso dar como suficiente para a ocasião. Afinal ela dá origem às outras e, em sendo ela a crise seminal – ocorreu ao nascer do Ilumina -, fica demonstrado que ela não é de agora.
O que é o Ilumina?
Dá-se ao Ilumina a denominação de Organização Não Governamental ONG, uma tolice associada à idéia tão maliciosa quanto inexistente de "Terceiro Setor". Uma sociedade se organiza por uma base econômica e social de produção de bens ou serviços e de uma administração pública estatal mantenedora de uma ordem constitucional. Estado e sociedade convivem em tensão dialética, de onde poreja a dinâmica da vida. E é só isso. Organizações da base econômica são, em geral, não governamentais, porque a ordem econômica é capitalista. Sobre isto a Constituição Brasileira não deixa margem a enganos, apesar das exceções que abrem espaço ao Estado para participar de atividades econômicas. Furnas Centrais Elétricas é uma dessas exceções.
Portanto, ou se é parte da administração pública em suas três instâncias de poder governamental (executivo, legislativo, ou judiciário), ou se está na base de sustentação econômica, a chamada sociedade civil. Não há novidade alguma em ser não-governamental. Fora disso é o anarquismo e não se vislumbra, em prática, qualquer horizonte dessa perspectiva.
Por outro lado, finalidades não lucrativas não dispensam uma organização de apurar receita maior do que despesa, visto que os objetivos formalmente manifestados em documentos oficiais (leis, estatutos, atas, princípios, missões, visões etc.) de qualquer organização desdobram-se, no quotidiano, em sub-objetivos que consultam interesses (legítimos ou escusos, francos ou dissimulados, aparentes ou obscuros) dos seus dirigentes, como de resto dos seus demais integrantes. O caráter não lucrativo de uma organização não lhe distingue do conjunto de organizações que formam a base econômica da sociedade. O que pode distingui-la é a natureza, o significado, ou a utilidade de seu produto (bem ou serviço) para a sociedade.
Isto posto, cumpre indagar antes: o que é o Ilumina?
a) Uma entidade anexa a Furnas?
b) Uma entidade da sociedade civil?
c) Uma entidade sindical?
d) Mais ou menos isso tudo ao mesmo tempo?
Na múltipla escolha dessas hipóteses, eu arriscaria marcar o item (d). Se não vejamos.
Há uma teoria que procura compreender a dinâmica organizacional apoiando-se no interessante conceito de "modelo fundador". Desse modo, ao cabo de um certo lapso de tempo, a organização estaria desse jeito, e não de outro, em função dos traços genéticos que lhe teriam sido fixados de modo indelével pela vida afora e lhe apontariam o destino, desde o modelo fundador. Os principais traços derivariam das motivações implícitas ou explícitas para a fundação, do ímpeto mobilizador neste ou noutro sentido, do perfil dos principais atores, das coalizões predominantes etc, traços estes que se refletiriam nos termos estatutários, ou sejam lá que outros documentos oficiais possam existir. Controvertida teoria, não? Sem dúvida, porém não menos que tantas outras, principalmente em se tratando de teoria das organizações. Por isso, sirvo-me desse álibi para adotar o "modelo fundador" como teoria adequada para identificar a entidade, interpretar sua crise e aceitar o desafio de responder à sua instigante pergunta: e agora Ilumina?
O esforço de resposta que me proponho fazer requer alguma recuperação de memória. Aos fatos, pois. A idéia do Ilumina se originou em Furnas, por ocasião da "abertura" política no país, quando o desmonte do acervo tecnológico acumulado ao longo de décadas, teve um momento de forte impacto com a campanha de "caça aos marajás". Ao desmantelamento de equipes técnicas altamente especializadas, seguiu-se concomitante o desmantelamento do acervo tecnológico empresarial, levando a organização Furnas a empenhar-se pela sua própria desorganização! Ademais, dispensados de sua participação técnica institucional no auge de suas carreiras, quando de melhor poderiam estar criando e contribuindo para a empresa e para o aprimoramento tecnológico do setor elétrico, tais profissionais foram acometidos de um sentimento aflitivo de vazio em suas vidas. Este é o panorama em que se deu a fundação do Ilumina, com a iniciativa de alguns quadros gerenciais mais conscientes e determinados a continuar a luta profissional por uma frente política. Segue-se que o modelo fundador adquire o ideário institucional de Furnas com seus vícios e suas virtudes, o que apontaria para a resposta à hipótese (a). Mas segue-se ainda que o modelo fundador adquire traços do ideário pessoal daqueles que tomaram a si a tarefa mobilizadora, estes dotados de um espírito de agir pela emancipação da sociedade, o que poderia remeter para a resposta à hipótese (b).
Lembro-me que das discussões daquele tempo, uma nobre preocupação (tão nobre quanto ingênua, mas nem por isso descabida) norteava a mobilização pela fundação do Ilumina. Além, é claro, da legítima aflição dos mentores intelectuais da organização em ter o que fazer no day after, isto é, já, então, na condição de (bem) aposentados. A ditadura ainda estava muito presente na memória nacional, e já que as empresas estatais foram bem sucedidas como braço econômico do Estado, mas deixando muito a desejar como agentes de interesse público para a sociedade, e, mais, que tais empresas seriam mesmo privatizadas, então que o Ilumina tivesse como orientação principal a exigência pelo papel público que a empresa Furnas jamais cumprira em sua real e desejada magnitude. Tanto isto é verdade que basta uma consulta aos "princípios", constantes da página do Ilumina, para constatar ali, logo no primeiro item, o gen do modelo fundador, pelo lado do ideário pessoal dos principais agentes mobilizadores: "prevalência do interesse público na prestação do serviço de energia elétrica, independentemente da natureza do capital que a explore".
Perceba-se o gen institucional, por outro lado, no segundo item dos princípios, item este que preconiza a "permanência na busca da qualidade da prestação do serviço, que deverá ser ofertada com preços justos, fruto de gestão empresarial observando o controle e a gestão pública". Em que pese a ressalva quanto ao controle público, os termos desse item são bastante familiares aos do estatuto da própria empresa que, para contemplar tais objetivos, precisaria manter-se sob o controle estatal.
Assim é que ficamos, de um lado com o idealismo estatutário (idealismo este sem qualquer conotação pejorativa) e, de outro, com o realismo das necessidades práticas quotidianas. Retenha-se isto para mitigar os efeitos de ilusões quanto a um real triunfo do Ilumina. É sabido que o descompasso entre o ideal e o real costuma ser foco de tensões políticas, com inevitáveis reflexos nos planos administrativo e financeiro.
Logo nos primeiros anos de existência do Ilumina, o Estado brasileiro passou a sofrer a violência exacerbada de uma certa tara entreguista que caracterizou todo o governo FHC. A resistência cívica não tardou onde quer que houvesse um mínimo de organização sócio-política nacional, espaço partilhado por organizações tais como o Ilumina, que desempenhou o seu papel no plano do realismo, como era de se esperar. A esta altura (por volta do segundo mandato de FHC) o Ilumina, já em sua meia idade, encontrou novos atores aposentados ou não, mas agora, então, de origem marcadamente sindical atores esses sintonizados com a tendência irrecusável de redirecionar o enfoque da entidade para fazer face à não mais velada ameaça de privatizar Furnas.
Daí decorre que os fatos obrigaram o Ilumina a esquecer essa quimera de interesse público (assim colocado, como interesse da sociedade em antagonismo ao interesse do Estado) e forçaram-na a assumir um perfil mais sindical, com a inequívoca e bem sucedida campanha contra a privatização. Campanha esta cuja principal (ou talvez única) frente no plano virtual foi o website do Ilumina. Cumpre render aqui a devida homenagem ao mestre internauta Roberto Araújo, pelo modo como abriu espaço de comunicação no Ilumina, com sua brilhante didática virtual. Mas, voltando ao assunto, é quando a resposta vacila outra vez sendo atraída para a opção da hipótese (c). A propósito, não passa despercebido que o endereço do Ilumina tenha sido sempre, desde a fundação, um apêndice das instalações da Associação dos Empregados de Furnas ASEF, entidade de caráter tipicamente sindical.
Neste ponto convém fazer mais uma pausa para reflexão. Não estaria o Ilumina, então, laborando em contradição? Isto é, se o seu modelo fundador apontava para uma ênfase em políticas de feição pública da gestão do serviço de energia elétrica independentemente do capital que a explora, por que haveria o Ilumina de se ocupar com campanhas contra a privatização, a ponto de ter tido um papel tão relevante em seu abortamento?
Contradição sim, pero no mucho! É que, como dissemos antes, o modelo fundador é meio ambíguo, apoiando-se em bases institucionais e realistas (Furnas como referência), bem como em bases pessoais e idealistas (principais mentores intelectuais), tendo as primeiras se mostrado, até aqui, mais sustentáveis (porque apropriadas). Com efeito, não é para menos, pois nesse caso operou-se uma coalizão entre a tradição institucional da empresa, que sempre foi estatal e assim não poderia deixar de ser para a consecução de seus objetivos -, com o legítimo interesse dos empregados suficientemente coesos em sua base sindical.
Num país como o Brasil as empresas estatais são fundamentais. Elas têm não apenas a função econômica do desenvolvimento, mas também a função política de simbolizar a magnitude do próprio país. Cego, hipócrita ou entreguista é aquele que não consegue, ou não quer enxergar isto. E como se isto não bastasse, ainda há o seguinte, que infelizmente não consta dos "princípios", nem das idéias que você, Roberto, enumera como aquelas que o Ilumina defende, e que, por isso mesmo, deveria ser motivo de revisão estatutária. Energia elétrica é atividade econômica de monopólio natural (você tangencia a questão quando diz que energia elétrica não pode ser tratada como mercadoria). É assim porque não é um monopólio artificial como vários outros, que se originam do abuso do poder econômico engendrado pelo homem. No caso da energia elétrica o monopólio é natural porque é da própria natureza da atividade econômica, independentemente da fonte (hidráulica ou térmica) que nutre o sistema elétrico. Este não é o lugar para fazer citações, ou, muito menos, para convencer com base em demonstrações matemáticas. Mas pode-se afirmar, sem susto, que virtualmente todo serviço público é atividade de monopólio natural. E se assim é, tais atividades devem ser não apenas reguladas pelo Estado, mas devem, sobretudo, ser mantidas sob seu controle econômico e tecnológico. Segue-se que, em tese, não há, no Brasil, antagonismo entre Estado e interesse público. As fontes teóricas para a argumentação são disponíveis e, convém assinalar, respaldam-se na teoria econômica clássica, com origem no liberalismo. De modo que o resto é tergiversação ideológica dos chamados fundamentalistas de mercado, hoje de sorriso meio amarelado.
Em razão disto, Roberto, eu gostaria de me opor frontalmente aos termos do segundo item de seu resumo das idéias defendidas pelo Ilumina. Eu chego mesmo a me perguntar como poderia partir de você uma idéia como essa. Explico melhor: não há como convergir com esse discurso da direita sobre "reforma do setor". Os fatos falam por si para ilustrar no que deu a chamada "reforma do setor". Convém evitar essa confusão provocada pelo mal intencionado uso das palavras. Por acaso a natureza da concessão não foi sempre de serviço público? Algo mudou nas palavras? Ora, Roberto, o que está em jogo é precisamente o controle do capital e você mesmo lutou com denodo para que ele se mantivesse estatal. Ademais, convém não esquecer que esse capital é, antes, de um acervo tecnológico acumulado ao longo de décadas, por sinal com muito sacrifício do povo brasileiro, de quem foi extraída a poupança para a sua efetivação. Isso sem falar que o capital é um imobilizado construído com não menos sacrifício da sociedade e que poderia lhe render hoje a contrapartida de uma energia barata. Seria bom lembrar que uma das grandes obras responsáveis pelo atual déficit da previdência é a hidrelétrica de Itaipu. Déficit este que fará recair mais uma vez sobre a população, principalmente a de classe média, o sacrifício da poupança para garantir a pujança do setor elétrico brasileiro. Como é possível se deixar seduzir por esse discurso de que é menos importante a natureza do capital?
Voltando ao modelo fundador do Ilumina e de sua predestinação, pode-se ir preparando a resposta à sua pergunta, Roberto, "e agora Ilumina?"
Se for bem aceita a resposta à hipótese (d), de que o Ilumina era tudo aquilo contido em (a), (b) e (c) ao mesmo tempo, a entidade deve agora como de resto a cada tempo presente ter o discernimento de identificar, bem como a capacidade de desempenhar a função mais apropriada aos objetivos que motivaram a sua fundação o interesse público. Se, por um lado, o interesse público coincide em grande medida com a necessidade de manter as empresas de energia elétrica sob controle do Estado, por outro lado isto não se converte em suficiência, eis que o Estado não se afirma pelo interesse público apenas através da ocupação de alguns palácios, pela simples eleição de um candidato popular (há algum tempo pensava-se em assaltar o palácio de inverno, mesmo com o risco de errar o endereço, como já ocorreu na história). Muito mais do que isso, o Estado é, sim, o locus privilegiado do embate das forças vivas da nação, em luta por interesses contraditórios.
Superado o furor entreguista, cumpre ao Ilumina afirmar-se como entidade da sociedade civil alternativa (b). Primeiro porque deste modo se fortalece a resistência popular contra eventuais futuros governos entreguistas. Segundo porque o ribeirinho da margem esquerda do rio Amazonas órfão do sistema interligado – tem tanto direito ao quilowatt-hora de Itaipu, quanto tem um gravatinha de São Paulo. Terceiro porque não há como combater fome, doenças, analfabetismo e insegurança sem energia elétrica. Quarto porque investimento em energia elétrica é investimento em infra-estrutura, que é indispensável para o desenvolvimento nacional. Quinto, sexto e por aí adiante fica para quem queira completar, ou ache os primeiros argumentos insuficientes para justificar o Ilumina como entidade da sociedade brasileira organizada em torno de um Estado que assegure ao setor de energia elétrica o seu domínio e, em sua gestão, a primazia do interesse público.
Mas que sociedade brasileira seria esta? Tal conceito, se deixado assim indefinido, pouco contribuiria como objeto alvo de mobilização para políticas conseqüentes por parte do Ilumina
Falo de uma sociedade brasileira que se configure em mercado de bens e serviços suficientes para manter a nação soberana e integrada ao contexto internacional, mas liberta do jugo de mercados externos para colocação ou obtenção de produtos essenciais, que faltam aos brasileiros e que poderiam perfeitamente ser produzidos e consumidos em âmbito interno. Falo de um projeto nacional que não dependa de políticas de exportação para fechar contas internas e aponte para a autodeterminação, o que é impensável com 13 milhões (8%) da população brasileira sem energia elétrica (JB de 02/02/03, pp A8, A9). Interesse público é, pois, antes de tudo, a defesa de um Estado empresário capaz de fornecer energia elétrica para todos os brasileiros. E não apenas para acender um mísero ponto de luz. Mas sim, sobretudo, para garantir força motriz suficiente para alimentar uma geladeira, um liquidificador e, quem sabe, de um ventilador para um repouso adequado no verão. São ridículas certas pesquisas (provavelmente do tipo a que o JB teve acesso) que excluem do déficit de atendimento por esse serviço, os consumidores com energia suficiente para apenas uma precária iluminação. Tenho certeza que qualquer família preferiria continuar iluminando sua casa com lampião a gás, se em troca pudesse ter energia para os eletrodomésticos. A propósito, o programa de fome zero – prioridade máxima de um governo de país tropical – aponta muito mais diretamente para a refrigeração do que para a iluminação.
Creio que com tais parâmetros na agenda, com a competência técnica disponível para a comunicação virtual na sua pessoa, Roberto, que tem agora a força da representação da sociedade em conselho de acionistas, poderá se ampliar no Ilumina o potencial de mobilização para uma inclusão elétrica total. Não deverá faltar quem queira ajudar.
Mas eu não gostaria de ser evasivo na resposta à sua pergunta. As considerações sobre a condição imanente do Ilumina, bem como sobre a natureza de sua crise fornecem material suficiente para responder à sua pergunta fundamental.
E agora Ilumina?
A sua pergunta se desdobra em outras quatro que, embora associadas merecem alguma consideração em separado. É o que se segue, respectivamente a cada uma delas.
"Diante da pressuposta vitória dos nossos ideais, o Ilumina deixaria de existir?".
A pergunta peca pela premissa. Caso o Ilumina deixe de existir, não será pela pressuposta vitória de seus ideais. Do ponto de vista idealista pode-se argumentar que não houve vitória alguma, eis que o interesse público é, em nosso país, e antes de tudo, a universalização do serviço de prestação de energia elétrica. Aliás, você mesmo, Roberto, alinha este ideal no último item do rol de idéias explicitadas em sua mensagem. Decorre que o modelo fundador está sobrando em motivos para dizer que a luta continua.
Se alguma vitória houve, foi no plano realista de defesa da empresa contra a privatização, tendo o Ilumina assumido para isto um caráter sindical e corporativo de que você muito bem se orgulha (saiba que você tem o meu integral apoio). E isto ocorreu devido à compreensão implícita de que se já é difícil tornar a dimensão pública acima de interesses de mercado com a empresa sendo estatal, o que dirá estando a empresa em âmbito privado e, pior, sob controle de capital estrangeiro, como seria inevitável acontecer no caso de Furnas!!!
"Estariam garantidos os princípios pelos quais o Instituto sempre lutou?".
Não, obviamente. Se nem mesmo foram atingidos tais princípios, como estariam eles garantidos? Se o que respondi na pergunta anterior for correto, certas notícias recentes dando conta de ajuda do governo para quitar dívidas de empresas do setor recentemente privatizadas, ou de reestatização de empresas do setor para saneamento financeiro e posterior privatização, representariam mais um duro golpe no interesse público e soariam como o cúmulo dos escândalos, já que estariam ocorrendo sob o respaldo de um governo petista. Respondo com outra pergunta: quem estaria disposto, nestes casos, a defender o interesse público?
"O belo e saudável momento de normalidade democrática e transição madura encerram e quitam definitivamente as responsabilidades das funções públicas recentemente exercidas?".
Caro Roberto, perdoe a franqueza, mas nesse caso a premissa de sua pergunta me faz rir de nervoso.
Quanto ao mérito de sua pergunta, a resposta é não, mesmo que o advérbio empregado fosse "parcialmente", ou "temporariamente", dependendo do sentido preferido para interpretar "definitivamente". Seria repetitivo expor as razões.
"Que mágica transformaria a grave situação do setor elétrico em um mar de rosas?".
Sem resposta para essa pergunta, eu gostaria apenas de aceitar a provocação com uma sutileza do espírito. Há um filme em cartaz que vale a pena ver e rever. Trata-se de "Os palhaços" de Federico Fellini. O filme é muito engraçado e, ao mesmo tempo, nos leva a uma grande tristeza. Só mesmo o gênio artístico de um Fellini poderia sintetizar essa tristeza em graça. Uma graça de ver o mundo como um picadeiro, de apresentar a realidade sob um olhar circense, onde habita o mágico com todo o tipo de ilusões com que as pessoas gostam de se divertir e de apaziguar a sua alma.
O que vem adiante não é do filme, mas é algo que vale a pena incluir na resposta a esta pergunta.
Do repertório circense ha um número que é representado pelo engolidor de facas. Consta que certa vez, preparando a entrada do corajoso artista, os encarregados dessa tarefa se distraíram com os palhaços e trocaram as facas (há também o número do atirador de facas). Tudo começou como ensaiado, mas pouco depois da primeira faca engolida, o engolidor começou a verter sangue pela boca. O respeitável público gostou e aplaudiu em cena aberta. Mas o que era um filete passou a um jorro de sangue e o artista caiu morto. A platéia foi ao delírio e aplaudiu mais e mais, entusiasticamente. Pediram bis, impressionados que ficaram com o realismo da cena.
Moral da história: de um lado a ilusão, de outro a morte.
Temo pelo apelo à magia.
À guisa de conclusão
Embora a sua pergunta tenha uma feição de um dilema existencial, pela indiscutível compreensão de que o Ilumina era você mesmo (no que a organização logrou de êxito, pelo que de fato fez quanto a alguns fins propostos, ou implícitos no modelo fundador), não vejo na pergunta um suspiro aristocrático do tipo "après moi, le déluge". Apesar dos equívocos que ousei identificar e criticar em sua formulação, inclusive com veemência, vejo, sim, de sua parte, uma sincera preocupação com o destino do Ilumina, razão pela qual eu me socorri da teoria para consubstanciar minha interpretação sobre o Ilumina e responder (sem fórmula mágica) à sua pergunta fundamental.
Quanto à questão de encontrar pessoas para prosseguir no Ilumina com qual ou tal tarefa é algo medíocre, se pensada fora do projeto que inspirou a entidade e de sua realidade atual. Assim eu me abstive de transitar por essa possível (ou subjacente) compreensão de sua pergunta, esperando, contudo, ter fornecido alguma contribuição ao debate, se essa era mesmo a intenção de sua mensagem.
Espero que me entenda e me queira bem.
Um forte abraço
Silvano José da Silva
Prezado Roberto,
1 – O público externo acessou o "site’ nos meses de crise do setor em 2001numa taxa de 1500 por dia e continuou, ao longo de 2002 , com constância, a acessá-lo diariamente numa taxa de 70 a 80 vezes por dia. Luiz Pereira comentou a necessidade de serem discutidos os problemas internos que afligiram o Ilumina. O público externo, membros contribuintes ou não, pouco ficou sabendo desses problemas. Ou se parte ínfima daquele público ficou ciente, somente pode tangenciar suas causas. Por isso a sugestão de Luiz Pereira é extremamente pertinente.
2 – Sob o aspecto puramente operacional, lembro que nos primeiros meses de vida do Ilumina, em reuniões muito freqüentadas por diretores, associados e simpatizantes, um dos pioneiros membros da primeira diretoria lembrava sempre, como óbvio acaciano ululante, que a vida da ONG dependeria dos recursos financeiros, naquele momento inexistentes, que viabilizariam uma mínima vida cotidiana de luta. Como durante os primeiros dois anos as despesas foram mínimas, o Ilumina conseguiu acumular uma reserva de razoavel porte que permitiu tranquila gestão financeira a partir de 1998. Contudo, nunca se conseguiu ampliar o quadro de associados apesar de imaginativas campanhas de filiação via eletrônica. Por outro lado as reservas aplicadas em renda fixa começaram a ser deglutidas por um déficit mensal médio no balanço receita versus despesas que variaram entre 1000 e 1500 reais. Tal como uma eclipce do sol ou da lua, ou a previsão newtoniana da orbita de Vênus, podemos prever, com razoável precisão o fim das reservas. Esse é o problema que deverá ser enfrentado pelos novos dirigentes voluntários do Ilumina que substituirão os atuais que venham a ocupar cargos nas empresas públicas.
3 – É inevitável constatar que o Ilumina é o seu "site". Sobretudo para os clientes externos que nunca conseguiram conhecer os problemas internos da ONG. E o "site" só existe e é acessado, na taxa acima mencionada, como resultado do trabalho diário, desde 1998, do engenheiro Roberto D’ Araujo. Nesse momento deve ser perguntado. Quem seriam os voluntários que substituiriam os atuais diretores ? Será que existiriam voluntários para tal encargo ? Se existirem esse novos voluntários , as experiências traumáticas de convivência dos velhos voluntários serviriam sem dúvida para sinalizar numa direção mais libertária, num ambiente de solidariedade e contínuos mútuos apoios e comunicação transparente e permanente no seio do colegiado.
Quem ficaria encarregado do "site", mantida sua qualidade histórica, caso Roberto viesse a ficar assoberbado por merecida missão pública, digamos, por exemplo, na tão sucumbida área de planejamento plurianual do setor elétrico ?
Esses são os comentários, no momento. A convocação de uma assembléia contribuiria com o equacionamento dos destinos do Ilumina nos novos tempos.
Olavo Cabral Ramos Filho
13/01/2003
Oi Roberto,
Perfeito! Parabéns por mais este tão bem inspirado edital.
De algum modo, o Ilumuna precisa continuar neste papel, mesmo que alguns de vocês precisem assumir outras responsabilidades agora. O instituto transcendeu sua origem corporativa (no bom sentido), em Furnas, para tornar-se referência do pensamento inteligente, técnico e político, do setor elétrico.
Parabéns a vocês. Não deixem agora a chama a apagar!
Grande abraço, Leslie
Caro Roberto,
esta questão que você coloca sobre o ILUMINA é importante. Temos que meditar e em conjunto discutirmos. O ILUMINA foi um sucesso ( com todos os problemas ) .
No novo governo temos uma grande esperança em ver nossas idéias passarem para o plano da realidade. No entanto muitos que militam diretamente no ILUMINA estarão envolvidos com as funções e atividades que surgirão, inclusive para materializar a luta do ILUMINA.
Você mesmo ressaltou que o ILUMINA não é governo, partido. E agora ?
Enfim é necessário nos reunirmos após meditarmos , você não acha ?
Renato Queiroz
Obrigado Roberto estive em pequenas férias e somente hoje vi seus cumprimentos. Retribuo a você com o dobro, pelo muioto que tem feito pelo nosso país.
Vc perguntou em novo mail: e agora Ilumina? Minha resposta é manter-se vigilante aos princípios. Muito de nós sabemos que a aplicação de todos os princípios que defendemos é sempre uma utopia pela diversidade da sociedade de muitos interesses conflitantes. Mas não devemos nunca abandonar a utopia, pois ela nos move na direção de buscar o melhor de acordo com nossos valores. Tenho certeza de que o governo Lula será um governo em busca do bem maior à toda a sociedade e não de alguns poucos, mas sei também que há muita areia para mover-se. Alguns diriam é muita areia para um caminhãozinho. Tem muita areia mas é perfeitamente removível se forem feita muitas viagens. O que não pode é desanimar logo que se vê a imensa duna, é preciso começar logo com a primeira pá, e já começou a mudança. Entendo que a vigilância aos princípios, que também comungo, deve ser feita em especial pelos diretores do Ilumina, mesmo que estejam ocupando cargos no novo governo.
Por aqui anda indefinições, sabemos apenas quem será o novo presidente. E vimos no jornal também a citação do nosso amigo e colega Ivo Pugnaloni. Mas não sabemos se será um diretor e qual será a diretoria, já que há a pretensão de reformular toda a empresa verticalizando-á novamente.
Um abraço e deixe-me saber se estará ocupando algum cargo do novo governo.
Nilson Nazareno
Bom dia e Ano Novo Bob
E agora? E agora vamos continuar em frente. Não será a mesma coisa que antes, porque a responsabilidade de estar alinhado com o novo governo e as mudanças é diferente e maior, mas não insustentável. Por exemplo, as necessidades de evolução tecnológica persistem e a participação do Iluimina e de todos os que se interessam pela gestão hidrotérmica é muito importante. Segue em anexo, uma iniciativa que estamos tocando no ONS que poderá contar com vocês em 2003. Foi feito um convite para um grupo pequeno de pessoas ligadas ao tema para discutir a realização em 2003 de um evento internacional. Realizamos a reunião e nos próximos dias enviaremos sua síntese para os participantes. Veja as mensagens usadas para convidar o pessoal. Saludos, Fortunato.
Prezado Roberto Araújo:
Quero dar minha despretenciosa contribuição ao debate que você abre com o "E AGORA?" . As ideias e conceitos defendidos pelo ILUMINA FORAM VITORIOSOS . Começa agora a fase mais dificil – Como implementar a correção de rumos.?
Tais ajustes e alterações , sem que a sociedade sofra e , como consequencia , se volte contra o Governo , é tarefa semelhante a "trocar um pneu com carro andando ". Um INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO ESTRA- TÉGICO DO SETOR ELÉTRICO não perde finalidade ao ver suas teses "TEORICAMENTE" vitoriosas . Surge então o primeiro trabalho de CIDADANIA – Acompanhar com enfoque crítico construtivo a implementação dos ajustes e correções .
Segundo trabalho : Qual o Forum não governamental com a qualificação do ILUMINA para debater a matriz primária de geração de energia elétrica mais adequada aos interesses BRASIL ? E a questão dos usos múltiplos das águas ? A ANEEL está emitindo concessões em larga escala . Como fica a futura retirada de águas? A "viúva" vai pagar a energia não gerada por essa água aos propri-etários privados ?
E a auditoria de processos e cálculos do MAE , prestes a começar e com indícios de PIZZA ? QUEM VAI FAZER A CRITICA? Se não for o ILUMINA quem , na sociedade civil , vai ajudar na cirurgia da ENERGIA EMERGENCIAL E DO PPT? Ninguem mais desarrumado do que eu . NUNCA estruturei o ILUMINA NORDESTE que atua na base do voluntarismo amador. Por isso tenho liberdade para a colocação a seguir:
É preciso reestrutrar o ILUMINA (no caso do Nordeste , estruturar) de modo a dotá-lo de fundamentos organizacionais sólidos .
Hoje se o avião cair comigo , acaba o ILUMINA NORDESTE . Se ROBERTO ARAUJO estiver no mesmo avião , o que acontece com o ILUMINA NACIONAL ? De forma desarrumada (como não podia deixar de ser ), passo- lhe esta primeira contribuição para o debate .
ABRAÇOS
JOÃO PAULO AGUIAR
Roberto, Sem pretender esgotar o assunto, aí vai minha primeira posição sobre sua pergunta: e agora, Ilumina?
Primeiramente acho sua pergunta fundamental e bastante oportuna. Há um ano, ou mais talvez, o Ilumina vive uma situação interna um pouco estranha, mas que pode não ter sido transparecida externamente. Tenho a certeza que sua pergunta tem TUDO a ver com a situação geral e NADA a ver com a situação interna. Mas é preciso evitar de se tomar uma posição de superioridade hegemônica. ignorando-se os outros. Para encerrrar esse assunto interno e responder efetivamente a sua pergunta, sugiro que se promova uma reunião dos diretores do Rio, em que o assunto interno seja discutido em alto nível, mas com sinceridade de propósitos e objetivando esgotar o assunto definitivamente.
Agora a resposta: O Ilumina cumpriu o seu papel com eficiência e a maior prova disso foi quando o ministro Palocci se referiu ao "apagão do planejamento". Fomos corajosamente críticos quando isso foi necessário e contribuímos apontando as soluções que nos pareceram as melhores. Muito do que vai ser feito hoje, no governo Lula, no setor elétrico, nasceu do Ilumina. Sem salamaleques, a homepage do Ilumina foi fundamental e a maior responsável pelo sucesso. E ela tem a sua cara, Roberto. Estou convencido que o Ilumina deve continuar, com duas condições a serem alteradas: Primeiro a sua organização interna e operacionalização. Isso tem que ser repensado e adaptado às condições do momento. Segundo, o posicionamento técnico e político agora é outro, mas sempre haverá necessidade de defender o consumidor, até porque as empresas distribuidoras privatizadas continuam aí a pressionar. E esse é um assunto técnico e politico, coisa que o Ilumina sabe exercer bem. Há muito espaço de atuação entre o governo e o consumidor. No momento são essas as reflexões, mas lendo outras opiniões, fatalmente vou voltar ao assunto.
Abraços fraternos
Luiz Pereira