Leiam com atenção o que está ocorrendo na Califórnia. Lá o mercado é estável! Não cresce 5 ou 6% ao ano como o nosso! A fonte primária de energia é gás, óleo combustível e nuclear e portanto as produções individuais das usinas são independentes. Lá todos são servidos de energia e PIB per capita ultrapassa US$ 12.000. Com tudo isso a situação de abastecimento está um caos! Vejam bem o caminho que os aventureiros que estão conduzindo a nova política do setor elétrico brasileiro pode nos meter. Aliás, já está começando!
Folha de São Paulo 28/12/2000
Falência ameaça empresas de energia da CalifórniaLAURA M. HOLSON DO "THE NEW YORK TIMES"
No passado, as empresas de infra-estrutura ofereciam aos investidores as ações mais seguras do mercado -grupos de crescimento lento, favorecidos pelos lucros estáveis e dividendos previsíveis.
Mas essas suposições aparentemente não se aplicam mais à Califórnia, onde as empresas de infra-estrutura, recém-desregulamentadas, compartilham uma característica mais familiar às suas irmãs da Internet, hoje em dia -uma queima enorme de dinheiro-, sem dispor das imensas perspectivas de crescimento que, de outra maneira, manteriam os preços das ações à tona.
Depois de um terceiro trimestre que deixou o Estado oscilando à beira de uma crise de energia, a Califórnia, nas últimas semanas, foi apanhada por uma escassez de energia que durante alguns dias chegou ameaçadoramente perto de desligar a eletricidade de até 15% dos 24 milhões (3,6 milhões) de consumidores da Califórnia. Com uma frente fria na costa do Pacífico e no noroeste dos Estados Unidos, e com suprimento limitado, as empresas de infra-estrutura foram forçadas a pagar às geradoras de energia até US$ 1.500 por megawatt/hora neste mês -40 vezes o que pagaram no ano passado-, enquanto os funcionários estaduais corriam para garantir o atendimento de até um terço de suas necessidades de energia.
Para surpresa, os investidores decidiram evitar as ações do setor de energia da Califórnia, incluindo as das matrizes nacionais da Southern California Edison e da Pacific Gas Electric (PG&E). A preocupação primordial é que as empresas não sejam capazes de recuperar os US$ 8 bilhões que pagaram aos geradores de energia, mas, pelo menos por enquanto, elas não conseguiram receber dos consumidores pelos seus gastos adicionais por causa de um congelamento de preços em vigor até março de 2002.
A agência de classificação de risco Standard & Poor’s, que monitora a saúde financeira das empresas, advertiu na semana passada que as empresas de energia do Estado estavam à beira da falência , e que seus títulos de dívida poderiam ter sua classificação rebaixada a menos que algo fosse feito rapidamente para reduzir seus prejuízos.
Os preços das ações das matrizes, Edison International e PG&E Corporation, caíram em até um terço desde o começo deste mês, ainda que tenham recuperado um pouco de seu valor na sexta-feira.
Os principais executivos das empresas se reuniram com funcionários do governo estadual na semana passada, e a Southern California Edison anunciou, na sexta-feira, que eliminaria seu dividendo do quarto trimestre e cortaria US$ 100 milhões em gastos, incluindo um corte de 400 empregos em um esforço por evitar a falência. Medidas como essas, além do fato de que a Comissão de Infra-Estrutura Pública da Califórnia concordou em realizar uma reunião de emergência na quarta-feira sobre possíveis aumentos de preços, evitaram um colapso financeiro por enquanto. Mas a situação continua incerta.
"É ainda bastante provável que as classificações sejam rebaixadas", disse David Bodek, analista de crédito do setor de energia da Standard & Poor’s. "Manter dinheiro em caixa evitou a insolvência por apenas algumas semanas, dando às empresas tempo adicional para criar e implementar uma estratégia".
O fato de que os políticos influenciarão fortemente o destino das empresas de energia -o governador Gray Davis, em especial, está interferindo com mais vigor- obscurece o quadro ainda mais, segundo os analistas financeiros.
"Quando existe um clima de proteção ao consumidor, o impacto de curto prazo sobre as empresas pode ser muito pior", disse John Raleigh, um analista do setor de energia na Goldman Sachs.
Mas mesmo que a Comissão de Infra-Estrutura Pública aprove o aumento nos preços, que, de alguma maneira satisfaça tanto os grupos de defesa do consumidor como Wall Street, os analistas alegam que as perspectivas do setor não mudaram. "Mesmo com um desfecho construtivo, é provável que seja difícil para as empresas de energia alegar que precisam de preços mais altos a fim de evitar a falência quando elas continuam pagando os mesmos dividendos", afirma um relatório publicado na sexta-feira pela Merrill Lynch. "Na melhor das hipóteses", acrescenta o relatório, "os aumentos nos preços poderiam tornar a Edison e a PG&E financeiramente viáveis, mas não financeiramente fortes". A falência, conclui a Merrill Lynch, é uma possibilidade real, mas pouco provável.
Deve-se ressaltar, igualmente, que as matrizes dessas empresas -elas mesmas geradoras de energia- se beneficiaram dos altos preços que vêm sendo pagos pela eletricidade. A PG&E pagou às geradoras de energia US$ 4,5 bilhões a mais do que pode recolher dos consumidores entre junho e novembro, mas faturou US$ 1,57 bilhão a mais do que no mesmo período, em 1999, com suas usinas nucleares e hidrelétricas de geração de energia.
Essa receita, diz um porta-voz da empresa, deve ser usada para pagar dívidas e outros custos associados à desregulamentação, e não para subsidiar os preços. Ainda assim, se os bônus da empresa tiverem sua classificação rebaixada, o impacto poderia atingir a agência sem fins lucrativos que administra a rede de eletricidade da Califórnia e a Bolsa na qual os contratos de eletricidade são operados.
Em especial, o Sistema de Operadores Independentes, que opera a rede, teria de exigir caução das empresas antes de quaisquer aquisições de energia feitas em nome delas. De outra maneira, Kellan Fluckiger, diretor operacional da agência, diz que os produtores de energia poderiam relutar em enviar eletricidade ao Estado, como fizeram no começo do mês. Resolver essa confusão exige que o chefe de Fluckiger no Sistema de Operadores Independentes passe por cima do governador Davis e solicite às autoridades federais de regulamentação que ordenem às geradoras de energia a enviar eletricidade à Califórnia.
No final, qualquer resolução parece destinada a ser confusa. A escassez de energia deve continuar até o terceiro trimestre de 2002, dizem os executivos do setor, quando novas usinas entrarão em operação. As empresas de infra-estrutura continuam a ter preocupações sobre sua viabilidade. Os consumidores não ficarão felizes por pagar mais caro pela energia.
E as autoridades regulatórias federais e estaduais têm de chegar a algum acordo sobre uma solução regional que resolva os problemas de energia do Oeste dos Estados Unidos.
Tradução de Paulo Migliacci