Como vocês podem ver na reportagem, a ENRON fez gato e sapato nos Estados Unidos que tem um poder de fiscalização e um verdadeiro arsenal para punir esses comportamentos. Imagine a ENRON no Brasil!
Um véu corporativo encobre a queda da Enron
Negócios ocultos com diretores e falta de informações custaram a confiabilidade
JOHN R. EMSHWILLER e REBECCA SMITH
The Wall Street Journal
HOUSTON – No início de outubro, executivos da Enron Corp.
visitaram representantes de agências de classificação de crédito para conversações sobre os resultados do terceiro trimestre. Esses resultados continham algo que acabou se revelando uma verdadeira bomba.
A Enron mencionou nas conversas que o patrimônio líquido, a diferença entre o ativo e o passivo da empresa, sofreriam uma redução de US$ 1,2 bilhão por causa de transações com certas sociedades comerciais, disse uma pessoa familiarizada com o assunto. Alguns dos analistas de crédito, julgando tal fato bastante relevante para justificar sua divulgação, reservadamente sugeriram à Enron reportá-lo à SEC (a Comissão de Valores Mobiliários americana), declarou essa mesma pessoa.
Mas a Enron não o fez, nem tampouco explicou aquele fato nas nove páginas de seu relatório de resultados em meados de outubro. A única e vaga alusão pública ao assunto ocorreu durante uma conferência telefônica a respeito do relatório, numa referência feita de forma tão fugaz pelo presidente da empresa que alguns analistas disseram que não ouviram.
Era a típica Enron: divulgação mínima de informações financeiras que, olhando retrospectivamente, eram fundamentais para se entender aquela complexa empresa. Há apenas alguns meses, a Enron estava causando sensação em Wall Street com seu crescimento e inovação, amealhando grandes e continuados ganhos como pioneira do comércio mundial de tudo, de energia à meteorologia. Mas virtualmente não percebida, até o final da Enron foi uma cultura que continha as sementes de seu colapso, uma cultura de engenharia financeira altamente questionável, irregularidades nas demonstrações de resultados e persistentes esforços no sentido de manter os investidores no escuro.
Os altos executivos da Enron ignoraram padrões elementares de conflito de interesse. A empresa contratou batalhões de advogados e contadores para ajudá-la a cumprir a legislação federal para empresas de capital aberto enquanto tripudiava sobre o propósito dessas leis. Ela se tornou especialista em dar respostas tecnicamente corretas em vez de respostas simplesmente honestas.
Um alto executivo de Wall Street recorda-se de ter recentemente perguntado a executivos da Enron se a empresa havia contratado assessoria jurídica falimentar. Responderam-lhe que não. Mais tarde ele descobriu que embora a Enron não tivesse contratado formalmente tal representação, a empresa havia mantido reuniões com advogados da área de falências. "Se você não fizer a pergunta absolutamente correta, não receberá a resposta correta", disse ele.
"A Enron faz muito isso."
Manobras – No entanto, a confiança pública, acima de tudo, era o que a Enron deveria ter para conduzir seus negócios na condição de empresa de comércio e participante de milhares de contratos. Uma vez que a dúvida começou a se instalar no âmago do público, em parte graças àquele misterioso golpe no patrimônio e à desconversa sobre seu verdadeiro significado, outras manobras suspeitas da Enron começaram a aflorar.
A empresa tinha transações com certas sociedades que eram dirigidas por seus próprios diretores – mas tratadas pela Enron como empresas separadas. A Enron oferecia apenas informações obscuras e fragmentadas a respeito dessas sociedades. Uma delas, cuja existência a Enron manteve escondida durante quatro anos, fazia parte de um arranjo que inflou os lucros em várias centenas de milhões de dólares durante aquele período.
E o nível de endividamento da empresa era muito mais alto do que ela revelava, graças às sociedades, que permitiam à Enron manter parte da dívida fora dos livros. Enquanto isso, executivos davam repetidas declarações públicas garantindo que as finanças e as operações de negócios da Enron estavam saudáveis, só para tais declarações serem depois refutadas por revelações subseqüentes. Tais revelações acabaram criando uma crise na Enron, lançando suas ações em queda livre e causando uma debandada de parceiros e clientes.
Embora a Enron tenha reconhecido que a perda da confiança dos investidores estava na raiz de seus males, representantes da empresa sistematicamente defenderam seus atos como sendo corretos e lícitos. Um porta-voz da Enron reiterou que a empresa fez todo o possível para divulgar informações exatas.
Quando se descobria que alguma das informações não estava correta, a Enron tomava providências imediatas para corrigi-la, disse o porta-voz.
No domingo passado, a Enron entrou com pedido de concordata na corte federal de Nova York – o maior pedido desse tipo já feito. A empresa simultaneamente entrou com um processo multibilionário contra uma empresa que na semana passada retirou-se de um pacto de socorro, a rival Dynegy Inc. A ação da Enron, que chegou a bater nos US$ 90 no ano passado, fechou quinta-feira a 87 centavos de dólar na Bolsa de Valores de Nova York.
Membros da diretoria da empresa são, agora, alvo de mais de 20 processos movidos por acionistas. Eles enfrentam uma investigação formal da SEC; uma investigação penal do Departamento de Justiça e inquéritos do Congresso. A empresa, que luta agora para evitar uma liqüidação, lançou mão de facilidades de crédito existentes e conseguiu nas últimas semanas levantar capital novo, superior a US$ 7 bilhões, e está buscando mais.
Nem todos os detalhes dessa história confusa foram completamente esclarecidos. Ainda não se sabe se a camuflagem e a engenharia financeira foram uma estratégia central da Enron durante anos, ou apenas um último e desesperado recurso usado quando os lucros começaram a encolher. Perguntas ainda cercam também a súbita saída do presidente Jeffrey Skilling, cujo papel na derrocada da Enron permanece incerto.
O que está claro, porém, é que raramente nos anais empresariais americanos uma empresa tão poderosa e tão respeitada caiu tanto e tão rápido. Liderada por seu presidente Kenneth Lay, durante os anos 90 a Enron transformou-se de inexpressiva empresa de gasodutos na maior corretora de energia do país, reunindo empresas de serviços públicos, fornecedores de energia e outros investidores num vasto mercado não regulamentado. Ela gradualmente se transformou num gigante do comércio que de forma progressiva passou a desdenhar a propriedade de longo prazo de ativos tangíveis.
Avançando para além da área de energia, a Enron atuou de forma pioneira no fechamento de centenas de diferentes tipos de contratos comerciais que iam desde commodities como água a novos e exóticos instrumentos financeiros. A empresa reuniu um imenso contingente de talentos financeiros e comerciais entre seus 21 mil empregados.
Ao se concentrar no comércio de instrumentos complexos, a Enron começou a ganhar ares de vasto império de serviços financeiros, trabalhando com milhões de dólares de terceiros. Mas para analistas e investidores que procuravam entendê-la, a Enron não era muito informativa. Seus representantes esquivavam-se de perguntas, por vezes com rudeza.
Muitos analistas de Wall Street admitiram não entender completamente certas partes da Enron, uma empresa que tinha 3.500 subsidiárias e coligadas espalhadas pelo mundo. Durante o boom dos anos 90, quando a Enron produzia polpudos resultados e lucros acionários, isso não importava. Os investidores "tinham medo de não participar", diz Paul Patterson, analista do ABN Amro.
A confluência de eventos que mudaram as percepções teve início em agosto, com a súbita saída de Skilling. O ex-consultor da McKinsey & Co., hoje com 48 anos, tornara-se presidente em 1997. Em fevereiro passado, ele tornou-se também superintendente. O outro presidente era seu mentor, Mr. Lay, um amigo e financiador da campanha do presidente Bush e do vice-presidente Cheney. No início da administração Bush, havia fortes expectativas de que Lay, hoje com 59 anos, ocupasse um cargo no gabinete do presidente.
Lay e Skilling formavam uma excelente equipe. O cortês e afável Lay tinha ampla e diversificada experiência em governo, academia e negócios, e sua opinião era freqüentemente procurada no mundo da energia. Skilling, MBA de Harvard, era uma figura impetuosa e energética que falava rápido e temperava suas conversas com jargão financeiro.
Boa-forma – Sem prévio aviso, Skilling retirou-se em 14 de agosto. De início ele mencionou "razões de cunho pessoal". Mas, numa entrevista concedida no dia seguinte, ele disse que sua própria frustração com o preço em queda da ação da Enron – então ao redor de US$ 43 – teve importante papel na decisão. "Não creio que me teria sentido pressionado a sair se o preço das ações tivesse se mantido alto", disse ele.
A partida abrupta obrigouLay a retomar as rédeas. Ele era um elemento reassegurador para o público. "Posso dizer com honestidade que a companhia está em mais boa forma do que nunca", disse Lay na época. Ele também prometeu que no futuro a Enron seria mais aberta e acessível aos investidores. Lay reconheceu que a empresa havia "perdido parte da credibilidade" perante os investidores.
No dia do anúncio, a Enron apresentou seu relatório à SEC relativo ao trimestre findo em 30 de junho. Encravados no documento de 36 páginas estavam diversos parágrafos descrevendo transações envolvendo centenas de milhões de dólares entre a Enron e sociedades não nomeadas dirigidas por um diretor não nomeado da companhia, que era também um dos proprietários. O relatório apresentado acrescentava que o diretor havia vendido em julho sua participação nas sociedades e que "não detém mais nenhuma responsabilidade gerencial por essas entidades".
Mas não era Skilling que dirigia as duas sociedades, conhecidas por LJM Cayman LP e LJM2 Co-Investment LP. Era o diretor financeiro, Andrew S.
Fastow, um protegido de Skilling, que ainda estava bem dentro da empresa. O nome LJM proveio das primeiras iniciais do nome da esposa e dos dois filhos de Fastow. Um porta-voz da empresa disse que as transações entre a Enron e as sociedades de Fastow eram perfeitamente corretas e que haviam sido feitas para ajudar a Enron a proteger seus ativos contra flutuações nos mercados.
As sociedades já existiam havia dois anos e apareciam nos relatórios da Enron apresentados à SEC naquela época. Mas a forma como foram divulgadas, com diferentes informações aparecendo em diferentes relatórios, tornavam difícil saber dados básicos como qual alto executivo estava dirigindo as sociedades.
E o que é pior, a partir das informações disponíveis não era possível entender o que exatamente as sociedades faziam ou qual era seu impacto sobre as finanças da Enron. Alguns analistas de ações e de crédito dizem que nunca ouviram falar das LJMs até lerem sobre elas nos jornais das últimas semanas.
As transações da LJM de Fastow eram, porém, bem conhecidas dentro da Enron e eram também um verdadeiro ímã de críticas.
Parte das atividades da LJM envolviam a compra de ativos da Enron, e alguns membros da empresa repudiavam fazer transações que poderiam enriquecer um alto executivo à custa da companhia, disseram pessoas familiarizadas com o assunto. Pelo menos dois altos funcionários queixaram-se internamente dos potenciais conflitos de interesse. Tais preocupações foram repelidas pela direção da empresa, segundo disseram essas pessoas familiarizadas com os eventos.
A irritação poderia ter sido ainda maior se aqueles que expressaram suas queixas soubessem a extensão dos ganhos financeiros de Fastow com a LJM.
Documentos internos da sociedade mostram que o diretor financeiro ganhou milhões de dólares por ano com a LJM, muito mais que sua remuneração dentro da Enron.
Um documento particular do bem-sucedido esforço da LJM2 para levantar quase US$ 400 milhões gabava-se de "acesso preferencial" a transações da Enron e dizia que os interesses econômicos de Fastow estariam "alinhados" com os dos sócios. Mais tarde naquele ano, Fastow e a Enron desenvolviam planos para fundos de US$ 1 bilhão para a LJM3, embora eles jamais tenham se realizado.
Mais tarde a Enron estimou que Fastow havia ganhado mais de US$ 30 milhões com as sociedades LJM.
Fastow tem declinado repetidos pedidos de entrevista. Seu advogado aponta para as declarações da Enron, dizendo que todas as transações da companhia com as sociedades foram corretas e minuciosamente examinadas pelo conselho e pela direção da empresa. Em setembro, a Enron enfrentou perguntas do Wall Street Journal sobre as sociedades.
Segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, houve ardentes desacordos internos quanto à liberação de altos funcionários para entrevistas. Essa pessoa diz que a certa altura Fastow gritou que ele não via nenhum "lado positivo" de entrevistas a respeito do assunto.
Enigma – Então surgiu, em 16 de outubro, o relatório da Enron sobre os lucros do trimestre. Embora uma baixa de US$ 1 bilhão relativa a telecomunicações e outros negócios tenha provocado um grande prejuízo, a empresa alardeou um aumento de 26% de "lucros recorrentes" por causa de "resultados fortíssimos" de seus negócios "principais". As ações da empresa registravam lucro na época.
O comunicado para a imprensa continha uma enigmática referência a um gasto relativo ao "encerramento antecipado de certos arranjos financeiros estruturados com entidade anteriormente divulgada". Isso parecia ser o código da Enron para a LJM. Em resposta às perguntas, a empresa disse que o gasto relativo à LJM era de US$35 milhões. O próprio Lay tentou apaziguar o assunto LJM. "Não creio que precisemos dizer nada mais sobre isso", disse numa entrevista na época.
Mais tarde, porém, um relatório apresentado em 8 de novembro pela Enron à SEC divulgava que o gasto real relativo às transações com a LJM era de US$ 462 milhões. A cifra de US$ 35 milhões representava o dinheiro pago à LJM na rescisão, disseram então representantes da empresa, refletindo as outras centenas de milhões dos declínios de valor de ativos da Enron em posse de entidades ligadas à LJM.
"Não tivemos a intenção de enganar", disse o chefe da equipe de Lay, Steve Kean, em meados de novembro. Em 17 de outubro, o Wall Street Journal revelou alguns mecanismos internos das sociedades, suas transações com a Enron e o fato de que Fastow muito provavelmente havia obtido milhões com sua participação. Pouco depois, as ações da Enron começaram a vacilar.
Naquele mesmo dia, rumores da redução de US$ 1,2 bilhão no patrimônio líquido começaram a agitar Wall Street. Em 18 de outubro, o Wall Street Journal noticiou pela primeira vez que a redução do patrimônio decorreu das transações relativas às sociedades LJM.
Durante as primeiras discussões com agências de classificação de crédito, a Enron atribuíra a redução do patrimônio a um "erro contábil", diz a pessoa próxima a essas discussões. Todavia, numa entrevista de 17 de outubro ao Journal, o diretor contábil da Enron, Rick Causey, não mencionou nenhum erro contábil. Ele disse que, como parte de seus negócios com as sociedades, a Enron havia colocado 62 milhões de ações próprias, recebendo em troca uma nota promissória das sociedades no valor de US$ 1,2 bilhão.
Quando os arranjos foram terminados, ele explicou, a Enron simplesmente cancelou a nota e retirou as ações. A retirada de tantas ações ocasionou a redução de US$ 1,2 bilhão no patrimônio líquido da empresa. Acrescentou um porta-voz que a Enron não via isso como uma transação relevante que precisasse ser divulgada publicamente.
O porta-voz disse, na semana passada, que funcionários da empresa lhe informaram, na época, que se tratava de uma "questão de balanço patrimonial" e não precisava ser incluída na discussão dos resultados do terceiro trimestre.
Todavia, num relatório apresentado em 8 de novembro à SEC, a Enron declarava que a redução de patrimônio foi em grande parte devida a um erro contábil – um erro que exigia que a empresa reformulasse as demonstrações contábeis de exercícios anteriores.
Passados poucos dias, a SEC deu início a uma investigação informal, a qual logo evoluiu para uma investigação formal, o que significava que a agência tinha poderes para intimar testemunhas a depor e para requerer documentos.
Ao mesmo tempo, agências de classificação de risco começavam a examinar a Enron para um possível rebaixamento.
Novas revelações agravam efeitos da quebra
A decisão das agências de classificação de risco de começarem a examinar a Enron, para um possível rebaixamento, era preocupante. Manter a pontuação na classificação de risco de investimento era vital para a saúde da operação comercial, a qual fora responsável por mais de 90% do lucro operacional da companhia no terceiro trimestre.
Num esforço para estancar a hemorragia e restaurar a confiança, Lay e outros altos dirigentes, incluindo Fastow, fizeram uma conferência telefônica em 23 de outubro. Os executivos pareciam defensivos e por vezes até hostis. Lay não permitia que Fastow respondesse perguntas sobre as sociedades, mas expressou sua "mais alta confiança" em seu diretor financeiro. No dia seguinte, a empresa anunciou que Fastow deixara o cargo. Lay disse que a reviravolta era necessária para "restaurar a confiança dos investidores".
Depois da conferência telefônica, o poderoso da Enron retirou-se do cenário público. Nos bastidores, a empresa buscava uma estratégia de resgate, procurando concorrentes como a Dynegy e investidores abastados, como o bilionário texano Warren Buffett.
A Dynegy estava intrigada com a idéia de assumir uma empresa cinco vezes maior que ela, e que a havia sobrepujado de longa data. O presidente da Dynegy, Steve Bergstrom, ex-integrante da Enron, tinha um almoço social marcado com um velho amigo, Stan Horton, que dirige o negócio de gasodutos da Enron. Horton perguntou se ele podia levar o vice-presidente da Enron, Mark Frevert, e o presidente Greg Whalley. Numa sala privativa do Plaza Club de Houston, Whalley lançou a pergunta: "Será que a Dynegy estaria interessada em comprar a Enron?"
"Fiquei estupefato", diz Bergstrom. "Nós éramos como o nanico do bairro para eles." Ele se lembra de ter pensado: "Eles estão em dificuldades maiores do que eu imaginava." Bergstrom sugeriu que Lay ligasse para o presidente e fundador da Dynegy, Chuck Watson, e passadas poucas horas os dois conversaram. Depois se reuniram pessoalmente, e privadamente, em 27 de outubro, na casa de Lay para discutir o negócio.
O maior acionista da Dynegy, a Chevron Texaco Corp., aprovou um investimento de US$ 2,5 bilhões na Dynegy, os quais a empresa usaria para dar à Enron uma injeção de caixa. Os primeiros US$ 1,5 bilhão viriam imediatamente e o restante no fechamento. A J.P. Morgan Chase & Co. e o Citibank acertaram mais US$ 1 bilhão de crédito, de modo que, em 9 de novembro, os dois lados puderam anunciar um acordo de US$ 9 bilhões envolvendo todas as ações. Lay, esquivando-se de perguntas sobre os males da Enron, disse que a combinação referia-se ao futuro.
Mas em meio a conversas otimistas, novas bombas estavam explodindo na Enron.
O relatório apresentado à SEC em 8 de novembro divulgava pela primeira vez as transações da empresa com uma entidade chamada Chewco Investments LP.
Apenas quatro dias antes da apresentação do relatório, a empresa recusara convites do Wall Street Journal para discutir a entidade ou mesmo a admitir sua existência.
Como se soube depois, a Enron tinha bastante motivo para se mostrar sensível em relação à Chewco, cujo nome provém do personagem Chewbacca de Guerra na Estrelas. A Chewco havia sido criada no fim de 1997 durante um período difícil para a Enron, quando a empresa não estava conseguindo atingir suas metas trimestrais de lucro, e perdeu um pouco de sua credibilidade em Wall Street.
A analista da Prudential Securities, Carol Coale, lembra-se de uma reunião com Skilling nesse período, quando ele prometeu "um forte crescimento dos lucros" nos próximos trimestres. Agora se sabe que entre 1997 e o final do ano passado, as transações da Enron com a Chewco e uma coligada conhecida como Jedi (Joint Energy Development Investments) mantiveram centenas de milhões de dólares de dívida fora dos livros da Enron. Além disso, negócios realizados com as sociedades também permitiram à Enron contabilizar US$ 390 milhões de lucro líquido, cerca de 13% do lucro registrado no período, de acordo com o relatório apresentado à SEC em 8 de novembro.
Embora a Enron tratasse a Chewco como um terceiro, independente, eram muitos os fatores que indicavam o contrário. A Chewco era administrada por Michael Kopper, diretor da Enron que mais tarde ajudou Fastow a dirigir as sociedades LJM.
Em seu relatório de 8 de novembro, a Enron dizia que a Chewco e a Jedi jamais deveriam ter sido tratadas como entidades separadas. Sua reintegração retroativa à Enron foi a principal causa de uma reformulação das demonstrações financeiras que cortaram os lucros da Enron nos quatro exercícios anteriores em US$ 586 milhões, ou 20%.
Tais divulgações estremeceram ainda mais uma já abalada comunidade de investidores. Se dirigentes da Enron sabidamente criaram e controlaram a Chewco como uma entidade falsamente independente para aumentar o lucro, eles podem ter violado os estatutos federais de fraude, diz Jacob Frenkel, ex-advogado da SEC e ex-promotor federal. No mínimo, diz Ronald Barone, chefe do grupo de energia da Standard & Poor’s, a Chewco representava uma "engenharia financeira no fio da navalha".
Kopper, que no verão passado deixou a Enron para dirigir a operação LJM, recusa-se a dar entrevista. Segundo a Enron, ele comprou a participação de Fastow. Uma recente visita aos escritórios da LJM, em frente à sede da Enron, em Houston, não encontrou ninguém disposto a falar.
Durante os anos em que a Enron estava emitindo demonstrativos de lucros e perdas, que agora ela diz que estavam incorretos, Lay, Skilling e outros altos executivos venderam centenas de milhões de dólares em ações. Em parte como resultado disso, eles e outros enfrentam uma batelada de processos de acionistas.
Alguns operadores da Enron reclamaram veementemente de uma reunião da companhia no mês passado, relativa a US$ 62 milhões de pagamento por demissões que a transação com a Dynegy traria para Lay. Após um dia de envio de sinais conflitantes, Lay anunciou que não aceitaria o pagamento.
As revelações sobre a Chewco e a LJM alimentaram a preocupação com outras surpresas que possam estar escondidas em dezenas de outras sociedades com as quais a Enron fez negócios. Um problema: milhões de ações da Enron propiciaram a base para pelo menos algumas dessas sociedades.
Com a queda do preço da ação da Enron, a estabilidade dessas estruturas ficou ameaçada, diz um membro da Enron, que especula que a decisão de Skilling de se demitir pode ter sido influenciada por essa evolução. "Quando ele viu que o preço da ação estava caindo, acho que ele sabia que uma crise estava a caminho", disse essa pessoa.
Skilling recusa-se a falar sobre a Chewco ou sobre qualquer coisa relacionada com a Enron. Recentemente, falando do jardim de sua recém-construída mansão em River Oaks, Skilling reiterou seu desejo de que o deixassem em paz, mas não pareceu irritado. "Entendo que é uma grande história", disse ele em voz macia.
Em 19 de novembro, a Enron revelou mais notícias ruins. Em outro relatório apresentado à SEC, dizia que poderia ser obrigada a levar um novo golpe de US$ 700 milhões contra o lucro antes do imposto de renda, por causa de uma queda no valor dos ativos em mais uma sociedade de investimento. Além disso, a Enron disse que a queda de sua classificação de crédito havia desencadeado US$ 690 milhões de pagamentos antecipados a investidores. As ações voltaram a despencar, caindo para cerca de US$ 5 por ação próximo do Dia de Ação de Graças, em 22 de novembro.
Executivos da Dynegy dizem que o relatório de 19 de novembro à SEC foi crucial para a mudança de seu pensamento com relação à fusão. A Enron parecia estar queimando caixa a um ritmo alucinante, diz Bergstrom, presidente da Dynegy, e surpresas desagradáveis continuaram a surgir. "Acho que eles sabiam mais do que falavam", diz ele. O porta-voz da Enron Mark Palmer responde que "se eles tivessem feito a auditoria rigorosa, eles saberiam" da situação.
As empresas deram uma última tacada para salvar o negócio no fim de semana de Ação de Graças, reunindo-se em Westchester County, Nova York. Eles cortaram o preço do negócio para US$ 4,17 bilhões. Mas nenhum dos dois principais executivos da Dynegy compareceu.
Há uma semana o mundo da Enron desabou. A Standard & Poor’s, cansada de esperar pelas negociações que trariam um novo fôlego para a Enron, rebaixou sua classificação de crédito para aquém do nível de investimento. Outras agências classificadoras seguiram o exemplo. Mais tarde, naquele mesmo dia, a Dynegy desistiu formalmente da aquisição. Cerca de 4 mil empregados já foram demitidos da empresa, somando US$ 4.500 de direitos trabalhistas.