Ref: Ofício nº 1230 1998 SMA/ANEEL
Senhor José Renato :
Examinando documentação enviada pela LIGHT para a ANEEL (PE 124/98), justificando sua negativa em me ressarcir por prejuízo causado ao aparelho mencionado em minha correspondência, gostaria de observar os seguintes aspectos:
1. Os índices DEC e FEC (Duração e Frequencia de Corte) nada têm a ver com a sobretensão ocorrida em minha residência. Estou surpreso que a ANEEL tenha tão facilmente aceito essas explicações por parte da concessionária. Aliás, esse efeito pode ocorrer com DEC e FEC praticamente iguais a zero!
2. Explico melhor: A LIGHT escolheu para a troca de seus transformadores a opção de trafos autoprotegidos. Isso significa que esses equipamentos realizam cortes automáticos de carga por defeitos na linha alimentada por eles. São os famosos "piques" de luz, que desligam toda uma área por minutos ou até segundos. Como a ANEEL deve saber, o retorno súbito do fornecimento provoca transientes onde a tensão pode atingir muitas vezes o valor nominal de alimentação da residência. Como esses cortes são de curtissima duração, e limitados à uma certa área, nem aparecem nessas estatísticas. São esses surtos que queimam os eletrodomésticos! Não os apagões!
3. Estive por mais de uma vez conversando com equipes da concessionária, que frequentemente estão manuseando os religadores dos transformadores citados na correspondência da LIGHT e eles confirmam que essas ocorrências são frequentes naquele trecho da rede. Evidentemente nenhum deles quis depor a meu favor , pois perderiam o emprego. Para confirmar as ocorrências, cito as declarações do Sr. Marcelo da Silveira Novo, Superintendente de Assuntos Institucionais da LIGHT na documentação citada. No 3º parágrafo pg2 de sua carta para a ANEEL consta: " Recentemente executamos os projetos…..naquela região…..o que certamente reduzirá os problemas relatados …" Até a LIGHT admite que existiram!
4. Quanto à argumentação que "43% das interrupções registradas tiveram como causa ocorrências fugitivas, tipicas de redes aéreas", tenho a dizer o seguinte: Esses efeitos podem causar queimas em eletrodomésticos! Parece que a LIGHT despreza esse cuidado! As linhas aéreas do bairro onde resido, Jardim Oceanico, são antigas, propensas à curtos, quedas de tensão e falhas diversas. Quando a concessionária opta por transformadores autoprotegidos sem a substituição dos cabos da rede, ela está protegendo o seu patrimônio mas arrisca o patrimônio dos consumidores. Evidentemente essa configuração está mais propensa a estes surtos. Aliás, depois desse evento, por diversas vezes voltaram a ocorrer esses piques mostrando que o problema continua.
5. Em uma destas situações, estando em casa, resolvi reclamar à LIGHT. Pena não ter gravado a conversa, pois recebi como conselho, pasmem, retirar todos os aparelhos da tomada!!
6. Nos tempos da LIGHT estatal era comum ver alguns transformadores incediarem-se. Isso podia significar sobrecarga ou mesmo um curto na rede, entretanto, grande parte da energia continuava sendo fornecida sem interrupções. Não defendo essa situação, mas é evidente que naquela época os riscos eram mais compartilhados.
7. Sou engenheiro eletricista e apesar de minha área não ser a de distribuição, ouso dizer que o único método para detectar essas variações súbitas de tensão é instalar medidor gráfico na alimentação do meu prédio. Essa deveria ser a intervenção da ANEEL para dirimir as dúvidas.
8. Preocupa-me a falta de fiscalização nos serviços da LIGHT. A ANEEL, ao oficiar para mim as explicações da LIGHT nesse caso, demonstrou um dos muitos aspectos no qual sua atuação é tendenciosa. É impossível, de Brasília, emitir qualquer parecer baseado em estatísticas e informações da própria concessionária. Repare que a ANEEL não emitiu julgamento próprio, apenas secundou as palavras da LIGHT . A sugestão de pleitear meu prejuízo junto a justiça é, para mim, uma confissão de impotência decepcionante.
8. Sinto-me desprotegido com essa pífia reação da ANEEL. A tarifa residencial dessa concessionária é uma das mais altas do mundo. Pago religiosamente minha conta e portanto exijo que meu único custo seja esse.
Atenciosamente
Roberto Pereira d’Araujo
Rio de Janeiro