Veja porque o modelo de mercado afetará sua vidaO texto abaixo foi escrito em 1997. Alguns dados podem estar desatualizados.Junto com a privatização das empresas de energia elétrica, o governo brasileiro importo …

Veja porque o modelo de mercado afetará sua vida


O texto abaixo foi escrito em 1997. Alguns dados podem estar desatualizados.

Junto com a privatização das empresas de energia elétrica, o governo brasileiro importou um modelo cuja concepção não se aplica ao sistema brasileiro. Além de vender ativos por valores altamente discutíveis, elevar absurdamente as tarifas e alterar padrões de atendimento, o govêrno desmontou todo o esquema de planejamento existente que era adequado à realidade brasileira e inventou um planejamento que é apenas indicativo. Ou seja, se há algum pressuposto de otimalidade nesse plano, o govêrno não considera importante, pois como indicação, não precisa ser seguido. As questões aqui abordadas são pedaços desse mosaico de equívocos.



Os consumidores de energia elétrica no Brasil, ao ligarem suas lâmpadas, geladeiras ou tv’s, estão consumindo uma energia renovável e gratúita. A água que passa pelas turbinas das usinas hidráulicas gera o movimento capaz de enviar pelas linhas de transmissão a energia que ele necessita. O custo de operação desse processo é bastante baixo. A tarifa residencial atualmente ronda os R$ 250,00 para cada 1000 kWh. Pois fique sabendo que esses mesmos kWh foram vendidos à distribuidora por mais ou menos R$ 42,00. Um ágio récorde! Se você está achando a energia cara, saiba que não é por causa das geradoras. Entretanto, prepare-se pois a geração a preços baixos está no fim, pois o govêrno venderá FURNAS, CHESF e ELETRONORTE e além disso virá com um bando de usinas térmicas a gás que são a negação do planejamento. A proporção da energia gerada no Brasil a partir dessas usinas hidráulicas é muito grande: Mais de 90%. Poucos países têm essa predominância. O problema desse sistema é compatibilizar uma sucessão de secas e cheias com o mercado de energia.



Esquemáticamente, o planejamento do setor elétrico pode ser visualizado na figura abaixo: Trata-se de um jogo entre presente e futuro. Hoje, precisamos decidir se podemos atender a demanda de energia usando água dos reservatórios ou o combustível nas usinas térmicas. Se decidimos usar água e as afluências futuras são úmidas, tudo bem. Se vierem secas, teremos déficit ou acabaremos gastando mais combustível. Se resolvemos ao contrário, guardar água e atender o mercado atual com combustível e as afluências futuras vierem fartas, teremos cometido um desperdício. Se as afluências futuras vierem secas, teremos tomado a decisão correta. Portanto o sistema deve saber modelar muito bem as afuências e demandas futuras. Como os reservatórios brasileiros são muito grandes, podem guardar a água que chega hoje por quase 5 anos. Sendo assim, é evidente que o sistema exige um processo de planejamento de longo prazo. Essa capacidade de planejamento têm impacto direto sobre o custo do sistema e por conseqüencia sobre o preço. Esse "link " do presente com o futuro é único no mundo. Só o Brasil têm!



Ao contrário do que diz o govêrno, a dependência hidrológica é uma grande vantagem, pois o custo de geração no Brasil é extremamente baixo. Apesar da incerteza hidrológica, quando o sistema está bem planejado, ele pode garantir a energia mesmo em tempos de sêca. Como? Por um efeito chamado regulação hidrológica: A figura abaixo explica: No verão, quando chove muito, operando o sistema corretamente, guarda-se a água que seria vertida nos reservatórios. Na figura, de forma simplificada, mostra-se que uma parte das afluências é guardada nos reservatórios (cor de abóbora) e outra é vertida (azul) pois ultrapassa a capacidade de armazenamento. Desse modo é possível atender o mercado apesar das sêcas e cheias.



Então as usinas térmicas são ruins? Não! Muito pelo contário. Algumas usinas térmicas são extremamente úteis pois causam um efeito extremamente benéfico ao sistema brasileiro. Esse efeito é a regulação hidrológica com complementação térmica. Quando dispomos de térmicas "maleáveis", os reservatórios podem "arriscar" mais nos períodos de seca e reservar um volume maior para a cheia que virá, pois sabe que se a energia hidráulica não for suficiente, sempre poderá contar com a energia de origem térmica. Desse modo, pode-se "guardar" mais água do que antes. Reparem na figura abaixo que o volume (cor de abóbora) agora é maior. Para que esse efeito possa ser realizado é preciso que as usinas térmicas trabalhem em complementação, ou seja, sejam ligadas para atender parte do mercado e deixem as usinas hidráulicas guardar as afluências que chegam. Desse modo, sem funcionar o tempo todo, gastando o mínimo de combustível, essas usinas acrescentam ao sistema uma energia garantida muitas vezes maior do que a sua própria capacidade.



As usinas a gás, alardeadas como salvadoras do suprimento de energia, consideradas isoladamente, são melhores do que as outras modadlidades (óleo combustível, carvão). Entretanto, consideradas no contexto do setor elétrico brasileiro, como não trabalham em complementação, têm um efeito de desperdício. Explicando: O s contratos firmados com o gás Boliviano ou o gás da Petrobrás obedecem o rtegime "take or pay", que significa que estaremos pagando o gás usando ou não. Se a térmica a gás estiver ligada mesmo durante as cheias, as usinas hidráulicas não poderão usar toda a água disponível para gerar energia. Estaremos queimando gás e ao mesmo tempo jogando água fora! O efeito dessa desotimização sobre o preço da energia é muito maior do que o simples "mix" de enegias hidráulicas ($R 38) com energias térmicas (R$ 70) pois como vemos, o sistema como um todo perde eficiência. Este aspecto da "desotimização" do sistema é apenas um dos efeitos de uma concepção do sistema elétrico completamente estranha às características do sistema brasileiro, que é assim muito mais por aspectos geográficos do que por razões ideológicas. O modelo implantado no Brasil após o processo de privatização está baseado no sistema inglês. Esse sistema propõe a separação da geração, transmissão e distribuição no sentido de possibilitar uma competição no segmento de geração com vistas à redução de preços e melhoria de eficiência. Essas vantagens só ocorrem quando há um eqüilíbrio entre oferta e demanda. Mas, como é o sistema inglês? Todo o mercado inglês é atendido por usinas térmicas, e, além disso, a demanda por eletricidade é praticamente constante há mais de 10 anos. Esquemáticamente a figura abaixo mostra essa realidade. O gráfico pontudo dá uma idéia da distribuição de probabilidades da oferta e da demanda. A incerteza é baixa.



Agora veja o caso brasileiro: A oferta de energia têm a incerteza típica da hidrologia. A demanda de energia têm a incerteza típica de mercados de países ainda subdesenvolvidos. A distribuição de probabilidades de formato achatado revela o grau de incerteza na oferta e demanda. Esquematicamente:



Esse eqüilíbrio é e será sempre instável. Veja o que acontece quando coisas simples ocorrem Lá se vão o eqüilíbrio e as premissas do modelo inglês.



A inconsistência não para por ai! Outra hipótese básica do modelo inglês é o fato de que o sistema de transmissão é neutro em relação à geração. A filosofia é que seriam dois "negócios" distintos: As usinas geram a energia e concorrem por mercados. A transmissão apenas viabiliza os transportes de energia necessários e não têm influência sobre a energia gerada. É verdade! Na inglaterra! Aqui, por incrível que pareça o sistema de transmissão não é neutro em relação à geração. A transmissão no Brasil, pasmem, "gera" energia! Evidentemente, não fisicamente, mas transformando energia interruptível em garantida. Porque? Porque os reservatórios brasileiros são muito grandes por terem sido construídos em rios de planalto. Porque as bacias hidrográficas brasileiras têm regime hidrológico diferente por estarem num país de dimensão continental. Assim, quando o sistema sul tem água sobrando, ela pode ser guardada no sudeste. Como? Ao invés de atender o mercado do sudeste com usinas do sudeste, busca-se energia lá de longe, numa lógica inimaginável para o sistema inglês. Aqui, não vale a regra de que o mais econômico é atender o mercado com a usina mais próxima! O esquema abaixo, sem o compromisso de ser preciso, mostra as principaios bacias do sistema hídrico brasileiro. Veja porque a transmissão no Brasil tem um papel crucial na disponibilidade de energia:

Sistema hídrico sem interligação



Sistema hídrico com interligação




Quanto mais interligadas, mais capacidade de energia ! Tanto a interligação com o SUL quanto a ligação com NORTE-NORDESTE ainda prometem novas energias sem adição de novas usinas. Na realidade, se no sistema alguma usina verte água e outras não estão com o reservatório cheio, teóricamente pode-se obter mais energia viabilizando através de linhas de transmissão a guarda dessa energia vertida.Se o planejamento não for totalmente abandonado, outras disponibilidades energéticas aparecerão com o fortalecimento da interligação do sistema. O ILUMINA pergunta: Com todo esse efeito sobre a disponibilidade energética, é justo que o sistema de transmissão não faça juz a uma parcela da receita de geração? O transporte de energia está intimamente ligado à disponibilidade energética, pois energia no Brasil é uma questão de gestão planejada de reserva hidrológica. Não há sentido em separar geração e transmissão! Resumindo: A interrupção do processo de planejamento integrado do sistema brasileiro, concretizado com o desmonte das equipes das empresas estatais que o faziam de forma colegiada, original e advinda de experiência acumulada de décadas, deixará seqüelas profundas para o consumidor. Independente do processo de privatização das empresas, crivado de suspeitas de favorecimentos e que por si mereceriam um completo re-exame, urge repensar o modelo inglês para o Brasil. As consequências estão claras na taxa de risco de racionamento que se enfrenta hoje. As incertezas sobre afluências de rios tropicais é muito grande e com sorte, o racionamento pode não ocorrer. Entretanto não parece ser justo com o consumidor a política de "passar raspando" implícita no "laissez-faire" do govêrno. Além do mais, se a intenção de dotar o país com um sistema de primeiro mundo não for pura hipocrisia, é preciso lembrar que lá, confiabilidade e preço andam juntos. Se é para oferecer energia sem segurança ao menos se cobre mais barato Por esses e outros motivos a regulamentação do setor está incompleta. É com certeza o sistema de regulação mais complexo no mundo. É o preço que estamos pagando por implantar à forceps um sistema completamente estranho ao parque hidroelétrico brasileiro. Tudo isso é custo do sistema. Ao contrário do que apregoa o govêrno, aqui também o custo Brasil sofre mais um inchaço. Sem necessidade!

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