Um debate que vale a pena Cristiano (christiano_castro_silva@yahoo.com.br) nos escreveu: Senhores, Demorei um pouco a entender qual o significado das matérias do site, bem como alguns conceitos utilizados, como a falta de dissoci …

Um debate que vale a pena



Cristiano (christiano_castro_silva@yahoo.com.br) nos escreveu:


Senhores,


Demorei um pouco a entender qual o significado das matérias do site, bem como alguns conceitos utilizados, como a falta de dissociação entre crise energética (em um modelo com 90% da energia gerada por hidrelétricas, quando falta ÁGUA passa a ser possível faltar ENERGIA, sim) e crise de política energética (diversificação de geração, ampliação da capacidade de transmissão, aumento dos investimentos no setor energético), intrinsecamente distintas. É incrível como essa diferença conceitual seja desconhecida ou desconsiderada por profissionais da área e formadores de opinião: vcs me desculpem, mas afirmar que a solução para crise energética é construir mais usinas… Bobagem. Para a CRISE ENERGÉTICA a solução é gerenciar da melhor forma possível os recursos ainda existentes, de modo a impedir que eles se acabem. Mesmo porque uma usina, ou linha de transmissão, não se "materializa", mesmo se houver muita vontade (até vontade política). Precisa de projeto, aprovação de impacto ambiental, aprovação de recursos, aprovação de licitação para a construção… Uma infinidede de processos. Vc podem agora perguntar "e as usinas já em construção?". Essa é ainda mais fácil de responder: falta dinheiro e, quando não falta, o que está sendo feito é o que se poderia fazer. Já para a CRISE DE POLÍTICA ENERGÉTICA, aí sim, deve-se levar em conta a construção de novas usinas, diversificação da planta energética, aumento da capacidade e de alcance das linhas de transmissão, e todas as medidas que vcs propõe como solução para crise energética. Sabem porque essa diferença? Porque a primeria é pontual (ou mais próxima a isso que a segunda) e deve ser resolvida, necessariamente, em pouco tempo, com os recursos disponíveis para isso. A segunda, por sua vez, é algo que transcende gerações e deve ser linha mestra no planejamento.


Outra observação sobre os enfoques do site é a sempre ativa opinião de que se deve manter o status quo. Explico: privatização não é e nunca foi um gerador de desemprego nem de prejuízo ao país. Aliás, está cada vez mais claro que as empresas privatizadas vêm apresentando lucro, coisa que NUNCA ocorreu em épocas de estatais. Só que, claro, privatização, devido à reestruturação inerente, causa transtornos, demissões, etc.. Mas, seguindo a filosofia divulgada por vcs, deve-se manter o sistema desatualizado, dando prejuízo, para que o Estado precise injetar fortunas em currais políticos e cabides de empregos, em empresas ineficientes e corruptas, em nome de uma "estabilidade de empregos", da manutenção da "não submissão" brasileira aos interesses estrangeiros… Absurdo! Nada pode melhorar sem mudança! Os mais pessimistas também vão dizer que não se piora sem mudanças, argumento válido se se desconsiderar que o fato de haver mudança é positivo: a capacidade de mudar significa a possibilidade de correções de rumo. Veja os exemplos de Usiminas, CVRD e Embraer. Não se esqueçam que qualquer empresa privada deve dar lucro, deve ser ágil, deve se adaptar às novas realidades de mercado. Isso significa, em resumo, investir! E o único país do mundo que tem a sociedade contra investimentos é o Brasil, com a idéia de que, a cada centavo investido no país, 2 vão para os "imperialistas"… Por favor, que idéia absurda. Quando uma empresa contrata funcionários, paga salários, impostos, contribuições, etc., correto? Ótimo, qual o mal nisso? A meu ver, nenhum, mesmo qporque não vem junto a imposição de que os funcionários só devam comprar na "lojinha" da empresa, de produtos importados. Se a empresa der prejuízo, aqui ou em seu país de origem, fecha. Ou seja, se uma multinacional se instala aqui, deve dar lucro aqui também. Uma concessionária de serviço público deve readequar a estrutura arcaica da estatal à nova realidade, já que ambas são incompatíveis. Essa transição não ocorre rápida, como um interruptor. É, como já disse, uma transição, que também envolve a adoção de novas políticas e readequação das políticas existenstes. Ou deve-se, realmente, esperar que o governo, pelo fato de ser governo, transcenda o ser humano e passe a saber de imediato de todos os entraves e possíveis problemas que ocorrerão no futuro?


Mais uma observação: até agora, não verifiquei nenhuma sugestão no site… Várias críticas e ironias sobre as medidas tomadas, mas, pelo que pude observar, nenhuma opinião sobre como seguir em frente e resolver problemas. Já que o leite está derramado, ficar chorando e recriminar que derrubou não resolve. É necessário que especialistas e formadores de opinião procurem o debate com as autoridades competentes, não que fiquem organizando folhetins dizendo que o governo é culpado disso, culpado daquilo e assim por diante. Mesmo porque, de nada adianta um especialista omisso. Eu sempre achei que as opiniões políticas fossem manifestações pessoais, mas que, apesar delas, pessoas diferentes, trabalhando pela mesma meta, pudessem cooperar, não ficar criando "governos paralelos" e assumir postura de oposição em dia de posse.


Gostaria de deixar claro que não sou simpatizante de neo-liberalismo, mas não posso deixar de acatar resoluções do governo que está aí por causa disso. Ou as coisas funcionam assim: não votei nele, então não pago CPMF? Antes fosse… Mas aí não se teria governo. Com os erros e com os acertos do governo que está aí, devemos aprender e progredir, não falar que todas as mazelas da vida são por culpa do governo. Não se esqueçam que, apesar de muito imaturo, o Brasil é uma república democrática, ou seja, acata-se, mesmo sem concordar, a opinião da maioria.


Ah, antes que eu esqueça… Entendi completamente o site quando li a piadinha de LISARB, que diz que se o presidente fosse ALUL, tudo seria bom e maravilhoso… Impressionante… Sem comentários…


Atenciosamente,


Christiano.



Respondemos


Cristiano em primeiro lugar grato pela bronca. Como só recebemos elogios, você é uma ave rara. Temos o maior prazer em apresentar argumentos que façam você pensar um pouco. Nem precisa concordar! Basta ler…


A Noruega é 100% Hidroelétrica, e até exporta energia. Parece que você engoliu essa ladainha dos meios de comunicação que dizem que o sistema hidráulico é a nossa desgraça. O único problema com sistemas de base hidráulica é que eles exigem uma sobre-capacidade que foi deteriorada pelos governos "modernizantes" que você parece gostar.


O mercado de energia elétrica brasileiro, cresce históricamente a 5% ao ano. Nos níveis atuais isso exige cerca de 4000 MW novos todos os anos. Gostariamos de saber como obter esses MW apenas com as usinas existentes. Não somos favoráveis a manutenção de nenhum status quo. Muito pelo contrário. Parece que você não leu direito nossos artigos. Não somos favoráveis a estatais deficitárias! Inclusive, achamos que elas, apesar de serem do estado, nunca foram empresas públicas no sentido amplo! Apenas achamos que pelo preço cobrado pelo setor privado, o estado organizado e com controle público, faz melhor. E bem mais barato! Não é só na energia não! Que tal os pedágios das rodovias privatizadas? Baratos?


Sugestões? Demos várias! Não somos tão ruins assim, sabe? Já estivemos por diversas vezes em debates com a presença de autoridades do setor e nossas opiniões foram respeitadas justamente por não ter o viés político que você vê. Eu, pessoalmente, que fui convidado a expor idéias numa comissão do senado federal, ( que muito me honrou) sugeri praticamente um novo modelo para o setor. E pasme, Cristiano! Na minha opinião, dadas as características brasileiras, devem conviver empresas estatais e privadas. O que, aliás, é a configuração da maioria dos países desenvolvidos. Apenas o Japão, Inglaterra e Espanha tem o setor elétrico nas mãos da iniciativa privada. Todos os outros são sistemas mistos.


Nós também pagamos impostos sabe? Acatamos as resoluções do governo tão bem quanto você! Só que, quando não concordamos, até por divergências técnicas, botamos a boca no trombone! Ou você é contra opiniões discordantes por princípio? A fábula de LISARB é uma manifestação bem humorada da total inversão de valores que nosso país está tomado. Somos contra esses absurdos, e portanto, se isso nos faz parte da oposição, somos da oposição. Continue acessando nosso site e pode meter o pau! Atenciosamente


Roberto Pereira dAraujo


Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico – ILUMINA


Rua Capistrano de Abreu 12 Botafogo – Rio de Janeiro CEP 22271-000



Cristiano rsponde


Roberto, Fico contente com sua atenção e com a resposta, uma vez que, tradicionalmente, opta-se por ignorar completamente opiniões diferentes. Entretanto, vejo-me obrigado a explicar melhor alguns pontos de meu e-mail, quais sejam: – quanto à desgraça que supostamente atribuo à geração de eletricidade por meio de água, sou obrigado a discordar, utilizando, inclusive seus argumentos.


O Brasil e a Noruega são muito diferentes (e não estou falando de sociedade ou economia). No Brasil os grandes centros consumidores estão concentrados no litoral, e, à partir do estado de São Paulo, começam a existir grandes centros consumidores no interior também. Vc não pode negar que a exploração dos grandes rios dessas regiões já está próxima a seu limite máximo… Ou seja, passa a ser necessário contruir usinas hidrelétricas cada vez mais longe dos locais de consumo. Com isso, aumenta-se e muito o custo de uma obra desse tipo, já que a energia da usina deve ser transportada até os usuários via linhas de transmissão e a demanda nas suas proximidades é minima. Agora, te pergunto: como estabelecer uma rede de manutenção eficaz para mais de 1000km de linha, passando por regiões de preservação ambiental (pantanal, amazônia) de modo a tornar os custos atraentes? É claro que uma hidrelétrica nessas condições deve ser gigantesca, para prover níveis de tensão e potência a (muito) longas distâncias. Ou seja, uma obra extremamente cara, com manutenção e "acessórios" (a linha de transmissão) caros, em um lugar afastado. Não me parece a melhor opção. Além disso, acredito, também, ser possível permitir à iniciativa privada a construção de hidrelétricas em rios menores, com capacidade menor de geração, mais próximas aos centros consumidores. Sem dúvida, a energia gerada por essas pequenas hidrelétricas pode fazer enorme diferença no balanço de demanda/oferta, já que estas colocariam, também, a energia no sistema interligado. Entretanto, pode não ser possível construir hidrelétricas perto de alguns grandes centros. Por que não construir termelétricas?


Outra observação: claro que é necessário construir novas usinas, mas será que devemos (ou podemos) pagar outras Itaipus? Voltando à Noruega: um país abençoado com MUITA água (como o nosso), POUCA gente (diferente do nosso), com uma área povoável MÍNIMA (diferente do nosso), cheio de GELO nos topos das montanhas do país (diferente do nosso) e com possibilidade de explorar esses rios… Assim, fica mais fácil… – Empresas públicas… Essas não existem no Brasil. Aqui só há estatais… Como vc bem disse, nenhuma delas, até agora, foi pública no sentido mais amplo. Isso não quer dizer que deva existir condescendência para com elas, uma vez que, já que é o meu, o seu dinheiro que entra nela, temos que receber, minimamente, um serviço de primeira. Quanto aos preços baixos, isso é fácil: se houver problema com o caixa, é só falar com o chefe que ele aumenta a mesada… Daí a minha opinião de que o poder público é incompetente para gerir negócios (porque, apesar de poder não parecer, fornecer serviço, matéria prima ou energia É um negócio). Outra coisa: não digo que as privatizações ou concessões (como as dos pedágios) foi feita de maneira correta; digo que elas deveriam ser feitas. Os pedágios são caros (sei bem disso, já que pego pelo menos 2 por dia), mas vejo recapeamentos, investimento em ambulâncias e em atendimento mecânico… Convenhamos: o poder público nunca soube, de verdade, quanto custa fazer essas obras, uma vez que elas, tradicionalmente, foram superfaturadas, não cumpridas e outras baixarias. Sendo assim, acho vital que se mude esse círculo vicioso. Claro que tem o preço a se pagar, das vendas mal feitas e concessões desastrosas (Novadutra já pagou o investimento, agora é só lucro…), mas em algum momento, a perda com esses "descalabros" se torna menor que a perda com corrupção. Aceito o seu argumento de que o sistema energético deva ser misto. O Estado deve ter papel regulador e regulamentador, mas também deve prestar serviço de primeira qualidade.


– Sugestões… Esse é um ponto que acho extremamente importante… Vc chegou a supor que eu tivesse engolido a balela da mídia com a desgraça do sistema hidráulico… Significa que opinião dos meios de comunicação foi tão bem difundida que vc não pôde supor que eu tivesse idéias diferentes das deles, que não são técnicos, não têm idéia do que estão falando e também não necessariamente estão em total concordância com suas fontes ou imunes a lobby. Ou seja, vale a máxima "propaganda é a alma do negócio". Assim, embora eu possa admitir falhas na minha navegação pelo site, fica aqui uma sugestão: exponha as opiniões e propostas de solução com maior alarde! Outra coisa: divulgue a ata da reunião do Senado, reduza as possibilidades de seus argumentos serem mal interpretados. "Bote a boca no trombone" com isso também. – Sobre opiniões contrárias, vc há de concordar comigo que não tenho nada contra, senão seria a pessoa mais hipócrita do mundo. Mas também acho (e vc me satisfez plenamente com sua resposta) que vale discussão. Sem ela, fica impossível progredir, tanto eu quanto vc. – Agora eu vou contar uma coisa: era uma vez um país ABUC, que teve uma revolução e o seu líder, deus imortal, levou sua idéia de progresso por muitos e muitos anos. Por incrível que pareça, ficaram contra esse país que perseguiu seus ideais e o deixaram à margem de todos os acontecimentos após a queda de seu aliado e financiador, a RSSU. Assim, apesar de haver, inicialmente, uma visão de prosperidade e igualdade social, no final a esse país ficou a visão de desemprego, falta de manutenção de prédios, pobreza, queda de 50% do poderio militar (!)… Mas, segundo o Grande Líder, am ABUC até as prostitutas têm nível superior (bela invertida, ao invés de dizer que mulheres com nível superior são obrigadas a se prostituir para viver). Depois disso te pergunto: mesmo que não se goste do jogo, pode-se decidir, nos dias de hoje, desistir? De novo: é claro que todos almejam jogar bem, mas quando se está frio, destreinado, é de se esperar que os primeiros momentos sejam conturbados.


O Brasil é uma República jovem, com muito a desenvolver e muito a aprender. Daí, considero os erros atuais partes do aprendizado. Principalmente, teoricamente os erros atuais (e também os acertos) entram para a história e servem para inspirar novos comandos. Também acho que até a oposição deveria se preocupar em fazer com que o país melhore no jogo, uma vez que, apesar de tudo também está jogando do mesmo lado e não vir com a idéia de "tá tudo errado e devemos mudar tudo, tudinho mesmo". Espero ter clareado alguns pontos e quero aproveitar a oportunidade para parabenizar a equipe do Ilumina pelo site. Definitivamente, um site 100%, que admite opiniões diferentes e trata com dignidade e respeito seus donos. Gostei muito de conversar contigo e espero que esses debates possam prosseguir.


Um abraço,


Christiano.



Nossa resposta;


Cristiano:


Não sei se você mora no Rio, mas se morar, estará pagando, com o mais recente aumento ( 22%) concedido pela ANEEL à LIGHT (empresa privada), mais ou menos R$ 0,33/kWh. Se excluir impostos (25% de ICMS), R$ 0,25/kWh. Aproximadamente US$ 100/MWh, preço digno de New York ou Los Angeles. FURNAS (empresa estatal) vende esse mesmo MWh para a LIGHT (empresa privada) por R$ 47/MWh (US$ 20/MWh) . A margem de 80%, altíssima para os padrões mundiais, (acredite), é totalmente apropriada pela LIGHT (empresa privada). FURNAS (empresa estatal) apresenta lucro, investe aproximadamente 300 milhões de dólares/ano e não recebe um tostão de dinheiro público. A LIGHT (empresa privada) apresenta prejuízo, chora todo dia no colo do ministro do apagão e vai receber do BNDES uma nota preta! O total de empréstimos subsidiados que o BNDES já concordou em doar às empresas distribuidoras ( todas privadas) chega a 4 bilhões de reais! E ai? Tudo bem? Quem é o ineficiente que prejudica o interesse público? A estatal ou a empresa privada? Não esqueça que a ENRON, empresa modelo dos estusiastas da administração agressiva, faliu! E cuidado! Ela é dona da Electro em São Paulo!


Noto na sua argumentação, aquela velha crença tipo "o Brasil não tem jeito mesmo"! Crença é crença, é como religião! Se você acha que somos um povo amaldiçoado por algum espírito mau, que nos impede de organizarmos um estado que funcione, só posso respeitar essa opinião. Até porque, olhando os governos dos últimos 15 anos, isso é relamente uma constatação. Acontece, que nem sempre foi assim. Já tivemos empresas estatais que realizaram obras e empreendimentos que não difeririam em nada de um empreendimento privado. Por incrível que pareça! A grande diferença é que a vantagem do bom projeto e da boa execução, foi apropriado pela sociedade e não pelo acionista da empresa privada. Se todas as empresas estatais fossem tão ruins como você parece pensar, sua tarifa de energia deveria estar por volta de R$ 500/MWh. Leia o que pensamos sobre as privatizações .


O que é mais engraçado é que o dono LIGHT é uma empresa estatal francesa! Pergunte aos franceses se eles querem vender a Eletricite de France? Pergunte aos Americanos se eles querem vender a Tenesse Valley Authority? Pergunte aos Noruegueses se eles querm vender a Statkraft? Pergunte aos Americanos se eles vendem a Bonneville Power Admnistration? A EDF é uma estatal com controle público (no seu conselho de administração) na França, que tem uma empresa privada no Brasil, a LIGHT, sem controle público! Aqui, as Agências reguladoras não exercem seu papel. Estão ai para privatizar! O modelo, é igual em toda a América Latina! Acredite! Privatização – aumento tarifário – explosão da dívida.O final do filme é a Argentina!!


A coincidência é que as administrações estatais dos últimos 15 anos, foram sempre das forças políticas inimigas das estatais e tudo fizeram para destrui-las. Sabe como é que se conseguiu isso? 1 – Destruindo uma geração de técnicos eficientes que nada tinham a ver com os currais políticos que dominarm o setor elérico há 20 anos (nominalmente o PFL). 2 – Aumentando os negócios escusos, que você e muitos outros, inocentemente, atribuiem à corporação e não aos dirigentes. Cristiano, eles fariam as mesmas negociatas em qualquer lugar! Não é a venda dos ativos do estado que irá moralizar a classe dirigente que martela essa idéia : estatal – ruim, privado-bom! Aliás, fiquei pasmo ao ver que o Dr. Peter Greiner (meu debatedor no Senado), secretário do Ministério de Energia no primeiro governo FHC, e tido como "o pai" do atual modelo, pensa do mesmo modo! Ajudou a privatizar, desmontar o corpo técnico da Eletrobrás e agora, decepcionado com o resultado de sua obra, diz que o modelo dele não era bem esse!


Quanto à experiencia das privatizações das estradas brasileiras, pense um pouco. Na Florida, a highway Turnpike, construida pela iniciativa privada é explorada pela iniciativa privada. Pedágios, só depois de pronta! No Brasil a rodovia da região dos lagos foi construida pelo DNER, mas é explorado pela iniciativa privada. Cobra-se pedágios para pagar investimentos que ainda serão feitos! Assim é fácil! E o exemplo do METRO? Quem expande o Metro do Rio? A empresa privada que explora a bilheteria? Não o Estado! Cristiano, esse modelo que concede ao capital privado todas as vantagens para "compensar" o risco Brasil, e que gerou os absurdos que cito, chegou ao setor elétrico. Prepare-se para pagar!


Pode-se considerar o ano de 1995, como marco a partir do qual o setor elétrico se abriu completamente ao setor privado, pois nessa data, foram editadas duas leis (a 8987 e a 9074) que mudaram os regimes de concessão e "quebraram" um monpopólio estatal que nunca existiu de fato. Os autoprodutores sempre foram privados. Nas leis, estava claro que qualquer capital poderia construir novas usinas. As distribuidoras tinham e têm a possibilidade de construir usinas até 30% do seu mercado, o que faz do suprimento uma responsabilidade difusa entre o estado e o capital privado. Imagine as novas usinas privadas que poderiam existir. Onde estão elas?


Ai, vem um racionamento provocado pela falta de investimento (não foi seca, consulte o relatório do governo ANA ) e o que acontece? Às distribidoras (privadas) é garantido o faturamento, e a responsabilidade é toda transferida para o estado e por consequencia para os contribuintes e consumidores. Não se esqueça que 80% da distribuição foi privatizado. Quase 90% do mercado já é privado e portanto, teórica e legalmente, poderíamos ter 27% (30% de 90%) do mercado atendido por usinas totalmente privadas. Certamente, se elas tivessem sido construidas, não teríamos racionamento. Todas essas empresas fazem parte do ONS, operador do sistema e sabiam com mais de 2 anos de abtecedência da real situação. E ai? Fica por isso mesmo? Onde está a responsabilidade do setor privado? Ah! O início é meio conturbado? Que início longo esse! 5 anos!!


Olha, infelizmente, privatizar não garante o interesse público! Estatizar também não! O que garante é o abandono da crença que "o governo não tem jeito mesmo". Sugiro ler o testemunho de Gregory Palast , ex funcionário de uma agência reguladora americana e um discurso de um presidente de uma estatal americana ( elas existem). As agência reguladoras brasileiras, agem para proteger o interesse do capital, suposto investidor, que só sabe exigir vantagens e dinheiro do BNDES. E as privatizações, desoneram o estado? Desconfie! Hoje, o estado brasileiro deve mais, tem um patrimônio menor, e esta cada vez mais pressionado para rsolver questões que deveriam ser solucionadas pela "eficiência" privada. Não se trata absolutamente de "falta de treino", inicio de jogo "conturbado"! É roubo mesmo!


Não somos defensores da construção de grandes reservatórios tais como os que foram construidos anteriormente. Muito pelo contrário. Acontece é que a capacidade de armazenamento já construida é suficiente para "armazenar" a água de pequenas usinas, desde que se construam as transmissões que possibilitem as transferências de grandes recursos hídricos de uma bacia para outra. O modelo competitivo e privado que o governo implantou, impede que isso seja feito pois trata a transmissão como se fosse apenas o transporte de energia. Copiaram do sistema inglês e lá realmente a função da transmissão é só essa. No Brasil, as linhas funcionam como aquedutos, transferindo água de bacias que tem para as que não tem, evitando vertimentos. Leia também o texto que explica porque o modelo de mercado vai encarecer as tarifas para o consumidor. Sobre as térmicas, leia o texto clicando aqui .


Acho que a sugestão de colocarmos as propostas todas juntas e mais em evidência é uma critica procedente. Tentaremos fazer isso.


Sua fábula sobre ABUC esquece diversos aspectos que estão ligados ao embargo americano e não vou me aprofundar nessa questão pois não é nosso assunto principal.


Finalmente, a grande diferença entre Brasil e Noruega não é a neve. É a enorme auto-confiança que o povo Norueguês tem, e que o faz decidir seus próprios caminhos.


Grato, mais uma vez pela oportunidade de esclarecer


Roberto Pereira d’ Araujo



Roberto,


Gostaria de deixar claro que minha opinião sobre o Brasil não é (nem nunca manifestei que fosse) algo relacionado a desalento. Muito pelo contrário, acredito que a "energia potencial" é imensa, mas precisa ser transformado em "energia cinética" para representar alguma coisa. E logo. Jeito tem, sim, e com certeza não é prioridade porque vai "sangrar" quem atualmente é da "classe dominante". Teoricamente, é por ter esperança de que as coisas mudem para melhor que pensei em escrever-lhe, já que uma organização capacitada tecnicamente pode (e deve) levar aos governantes opiniões, sugestões e estudos (até mesmo isso) que comprovem ineficácia ou possíveis problemas com as políticas adotadas ou soluções possíveis.


Um ponto que merece atenção foi quando vc concordou que nos últimos 15 anos as estatais estiveram na lama, como currais políticos e poços de corrupção. Se vc se lembrar, antes desse período houve o governo Sarney e, ainda antes, ditadura militar no país. Vc vai me desculpar, mas as estatais que vc considera como benfeitoras para a sociedade devem, então, ter existido na época de JK ou Getúlio Vargas. Ou vc acha que as estatais e os contratos da época da ditadura foram muito melhores e mais confiáveis que esses de hoje? Vc diz, também, como se fosse surpresa, que existem estatais americanas. É claro que existem, mas no mesmo molde das daqui? Ou mais parecidas com a EDF (ou a Petrobras), que vai além da fronteira de seu país em busca de novos mercados para explorar?


Outro ponto que parece não ter ficado bem explicado é a necessidade de regulamenteção pelo governo. Isso não significa, em absoluto, que sua função é preparar as estatais para venda, muito pelo contrário. Teoricamente, regulamentação significa determinar rumos, estabelecer políticas prioritárias e, principalmente, verificar o cumprimento das determinações. Daí termos ministérios (definidores de políticas em sintonia com os planos do governo) e agências (para verificar a adoção das medidas necessárias para que se atinja a determinação da política e, caso necessário, punir quem negligenciá-las). É óbvio que esse tipo de agência regulamentadora é de extrema importância e deve ser apolítica e independente: ela deve punir e fiscalizar, inclusive, as estatais (como a ANP faz com a Petrobras em casos de vazamento ou imperícia, como a ANATEL faz com as concessionárias de telecomunicações, impondo metas e prazo para seu cumprimento). Pode parecer que a existência de uma agência apolítica não tenha nada a ver com governo, mas não se pode esquecer que as agências são federais e não podem ficar vinculadas à pessoa do ministro, daí ser apolítica e independente. Uma informação que pode ser interessante é a classificação de risco de investimento do setor de telecomunicações (AA), considerado altamente regulado pela ANATEL, ser menor que a classificação de risco de investimento no Brasil (BB-).


Uma afirmação sua me chamou a atenção: vc diz que a geração poderia ser feita pela iniciativa privada desde 1995 ou antes ("tinham e têm possibilidade"). Bem, poderiam e deveriam são situações diferentes. Vc há de convir que se fosse estipulado no edital de concessão que, por exemplo, em até 5 anos 10% da energia devesse ser suprida pela contratante, sob pena de pesadas multas (como um percentual de uma usina que suprisse os 10% contratuais, progressivo, que tornasse o não cumprimento do contrato caro demais para ser feito), a situação hoje seria bem diferente. Daí estabeleço, de novo, a falta de preparo dos governantes brasileiros em geral, que, acho sim, fazem parte da evolução. Atrelando-se a necessidade de geração à exploração do contrato de distribuição de energia, a situação ficaria muito diferente, mesmo. Como isso não foi feito, contou-se com a "bondade" dos fornecedores de energia. Como os burocratas não sabiam, esse tipo de boa ação nunca seria feita, uma vez que gerar energia é caro e o investimento só pode ser amortizado em muito tempo. Ou seja, empresas sangue-sugas, como a EDF, não fariam esse investimento de maneira nenhuma. Da incompetência em criar contratos, surgiu a garantia de lucro para concessionárias, construção de praças de pedágios e não de passarelas e daí por diante. Outra afirmação que fiz no meu e-mail anterior é que o Estado também deveria exercer a função de regulador. Assim, achei que ficasse claro que o Estado também pudesse exercer o papel de fornecedor de energia elétrica através de suas empresas (estatais) para corrigir e até eliminar distorções de preço, mantendo a iniciativa privada, sempre ávida por lucro, nos trilhos. Uma outra situação que não deve ser esquecida é a capacidade de investimento. Hoje, segue-se uma política de "mercearia", onde não sai mais dinheiro que entra (o superávit primário, que vive batendo recordes). Ou seja, até mesmo a capacidade de investimento de Furnas, que vc quantificou em US$300 milhões (essa quantia, por ano, representa US$1.5 bilhão desde 1995; não é muito?), ficou comprometida: o lucro (e conseqüentemente parte da capacidade de investimento) deveria ir para o governo. Assim, pode-se chegar à conclusão de que o Estado, hoje, não tem capacidade (caixa) para investir em expansão ou modernização do sistema elétrico, o que faz com que a iniciativa privada seja a única opção possível. De novo, se as concessionárias de distribuição fossem obrigadas a aumentar a oferta de energia por contrato, a situação seria diferente… Não podemos nos esquecer de que em dada época o sistema elétrico foi estatizado, já que a única instituição com poder econômico suficiente para arcar com as pesadas despesas de ampliação, normalização (estabelecimento de freqüência única) e modernização do sistema era o Estado. Como dito antes, o Estado, hoje, está falido. Unindo tudo isso, só posso concluir que, por incrível que pareça, os inventimentos mais pesados devem partir da iniciativa privada, mas com a fiscalização rígida de agências governamentais. O governo deve, ainda, manter usinas estratégicas com capacidade de geração suficiente para regular o mercado, tendo como meta, também, a obtenção de lucro operacional. Não se pode esquecer que a opinião do "pai" do modelo atual é de que se faz necessária uma revisão do modelo ("o modelo não era bem esse"), não uma mudança de modelo. O que faltou foi maior rigidez nas políticas de concessão, no atrelamento aos interesses do país.


Um detalhe: o pessimista não sou eu, não… Não acho, mesmo que se siga nessa direção, que chegaremos ao ponto que a Argentina chegou. Nem acho que o preço da energia ficará tão caro que impossibilitará a produção no Brasil…


Outro detalhe: a dívida do Brasil hoje é, em sua maior parte, vinda do sistema financeiro (juros, dólar…) e não de manutenção de empresas. Dizer que a penúria do governo é devida às estatais seria irresponsabilidade. Mas, por longos anos, elas foram deficitárias e contribuíram para reduzir o poder econômico do Estado, até o ponto em que estamos hoje: falido e sem "balas na agulha" nem credibilidade…


Sobre a Noruega, concordo contigo. O mesmo pode-se dizer dos americanos, franceses, japoneses, alemãos, ingleses… Lá, o que é público tem dono: todos; aqui, o público não era de ninguém, a não ser de quem chegasse primeiro (talvez ainda seja assim, mas um dia muda…).


Quanto à ABUC, o que vc disse tem muito a ver com o meu primeiro texto… Ou se está no jogo, ou se está fora.


Um abraço,


Christiano.



Cristiano:


Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que o saudável debate que estamos travando não tem nada de pessoal. Em nenhum momento o qualifiquei de pessimista. Apenas acho que os questionamentos que você me apresenta estão repletos de uma "amargura" que faz parte de um "inconsciente coletivo brasileiro". A meu juízo, inconsciente inteiramente plantado pela nossa mídia, que, aliás, pode ser qualificada de tudo, menos de isenta. Das poucas vezes que recebemos e-mails que nos criticaram, sempre, (gostaria de enfatizar isso) sempre havia o "diagnóstico" de que com as estatais não tem jeito mesmo. Não estou dizendo que você esteja sendo "dirigido" pela mídia quando nos critica, mas, como acredito que é possível haver empresas estatais que ajam no interesse público, peço que você considere a possibilidade de haver alguma desinformação fruto dessa nefasta política destrutiva.


Levar sugestões ao governo: Em julho de 2000, portanto, com 6 meses de antecedência à crise, eu, os Profs Luis Pinguelli Rosa e Maurício Tolmasquim e Sebastião Soares (ex BNDES) escrevemos um artigo, analisando os dados de consumo e investimentos. Não só previamos a crise, como apresentavamos uma série de sugestões. Entre elas, um urgente programa de conservação, chamando atenção para o enorme potencial das lâmpadas compactas e um plano de parcerias de FURNAS ( então a bola de vez na privatização ) e a iniciativa privada para a construção de novas usinas. O Prof. Pinguelli encaminhou esse documento ao próprio FHC. Em novembro, fomos chamados ao Ministério de Minas e Energia em Brasília. Ficamos atônitos ao ouvir do então secretário Xisto Vieira Filho, a frase "a probabilidade de racionamento em 2001 é zero!". De nada adiantaram os argumentos apresentados, principalmente aqueles que denunciavam a deterioração do nível de garantia, que como você sabe, é pago na tarifa. Foi uma reunião para nos dar uma satisfação, uma vez que o documento tinha realmente ido até o presidente. Deu no que deu. As sugestões que estavamos apresentando quanto às parcerias de FURNAS aventavam a conveniência de estabelecer Sociedades com empresas privadas para explorar diversos aproveitamentos já estudados por FURNAS e que estavam na gaveta, pois o governo proibia as estatais de investir mesmo com recursos próprios. A abertura de capital de FURNAS mantendo o contrôle acionário do governo era uma das sugestões. Resposta? Nenhuma!


Quanto à benfeitoria " líquida" que o período estatizante proporcionou à sociedade brasileira, que você duvida, tentei exemplificar com a atual exdrúxula situação da LIGHT e FURNAS, mas parece que você não deu muita importância. Como a intenção aqui é usar o debate para que outras pessoas com as mesmas dúvidas possam colher informações, sugiro que dê uma olhada na evolução das tarifas na década de 90. Veja que nesses gráficos, estão plotados duas mudanças qualitativas importantes nesse processo:


1 – A mudança de patamar de margem entre fornecimento (preço das distribuidoras) e suprimento (preço das geradoras). A partir de 95, marco histórico da privatização, a relação de tarifas passa de 180% para 240%. Porque? Para vender as distribuidoras.


2 – Aumentos reais tarifários mesmo após a privatização de diversas empresas distribuidoras. Será que não te incomoda o fato de que a LIGHT, sendo vendida com lucro como foi, ter sofrido um processo de enxugamento de quadros significativo, reduzido custos, ainda tenha aumentos superiores a inflação no período? Será que não fica aquela pulga atrás da orelha perguntando: Pô, por esses preços, será que as estatais também não seriam lucrativas? Será que não fariam investimentos?


Ai é, que, a meu ver, vem a amargura enrustida. "Lá, o que é público tem dono". Se é "lá" é porque aqui não tem. "mas um dia muda… "Ué, Cristiano, mas muda como? Aceitando as regras do jogo? "Ou se está no jogo ou se está fora", Cristiano? O ILUMINA está fora, pois, são justamente as regras desse jogo onde perde sempre o consumidor, é que não aceitamos. E o pior, repito: Nem original é! Trata-se da receita "carimbo" aplicada a todos os países da América Latina! Sugiro que você leia o Livro "Soberania e Política Econômica na América latina" do Prof. Wilson Cano da Unicamp. É uma detalhada análise do que aconteceu na AL na década de 90. Ou você acha que a inflação acabou quase simultaneamente em todos os países, apenas pela "eficiência" de seus Ministros da Fazenda? Cristiano, essa conversa mole é a mesma que quer nos convencer que vivemos em LISARB e não no BRASIL!


Outra evidência de que "liquidamente" o período estatal foi benéfico para a sociedade brasileira, apesar dos desmandos, é o próprio fato de que hoje o país conta com uma capacidade instalada de 70.000 MW , tendo multiplicado por 20 os investimentos herdados da expriência privada anterior, que, coincidentemente, também sofria da falta de apetite em investir. Como te disse antes, se as estatais fossem tão ineficientes e tão ruins, sua tarifa seria 3 vezes maior. Além disso, outra grande vantagem das empresas estatais, que você parece desconhecer, ou não se importa de abrir mão dela para a iniciativa privada: As usinas estão pagas, amortizadas e algumas geram energia em torno de R$ 5/MWh! Quando vender, dê adeus a essa vantagem!


Ah! Essas foram as usinas próximas aos centros de carga! Agora não existe mais essa moleza! Cristiano, o sistema brasileiro está quase todo interligado. Não há nessecidade de se estender uma linha das usinas até São Paulo. Basta conectá-la em Goiás! Outra coisa: As licitações de novas usinas que estão sendo realizadas, na sua grande maioria, apresentam custos muito inferiores às usina a gás. Só tem uma diferença! Nós, miseros consumidores cativos, nunca veremos esse benefício, pois ele está sendo distribuido para empresas privadas que pretendem se auto suprir. As estatais, que mal ou bem são concessionários de serviço público, estão fora dos leilões por ordem do governo FHC!


Quanto aos contratos de pai para filho feitos pelas autoridades privatizantes que você critica, já lhe ocorreu que esses favores foram o preço que se paga para que o capital (principalmente o estrangeiro) ponha algum dinheiro em um país com classificação BB-? Esse é o ponto! Quem é que diz que um país com toda a sua complexidade social e econômica fica reduzido a 2 letrinhas e um sinal como na escola? Quais são os critérios? Os modelos?


Você diz: "os inventimentos mais pesados devem partir da iniciativa privada, mas com a fiscalização rígida de agências governamentais". Concordo totalmente, mas será que os investimentos viriam? Sem ajuda do BNDES? Sem aumento tarifário acima da inflação? Sem anexo 5? Sem parcerias forçadas de fundos de pensão? Parece que o pacto entre esse governo e o capital que está ai era outro. Ou muda-se o governo ou arranja-se outro capital…


Precisamos de energia, os senhores, donos do capital, querem entrar? Ah! Entendi! Em países BB – , só sob essas condições? Pois então, muito obrigado! Pode deixar que a gente se vira! Por esse preço, o estado faz! Quando o capital vem para comprar ativos, você quer exemplo maior de ficção científica do que a avaliação de uma empresa de serviço público pelo método do fluxo de caixa descontado? Exemplo? Verifique o caso da COPEL!


Quanto ao seu diagnóstico "o estado está falido" , posso te garantir que no setor elétrico isso não é verdade. As empresas geradoras estão muito bem. Aliás é engraçado: No caminho para a privatização, como preparo das empresas para a venda, é preciso se passar pelo saneamento financeiro delas. No caso brasileiro, o aspecto principal era o baixo nível das tarifas, que serviam em governos anteriores para o controle inflacionário. Retiradas essas amarras, as empresas passam a dar lucro, o que elimina uma das razões da venda. Mas como a razão verdadeira não é absolutamente a solução dos problemas energéticos….Vende-se assim mesmo!


Quanto ao modelo que não era bem esse, desculpe! Em nenhum momento houve a preocupação de se privatizar as novas usinas ou estabelecer um marco regulatório antes das vendas. Até porque, devido exclusivamente às características hídricas e complexas do setor brasileiro , até hoje as regras não estão completas. Quem disse que é necessário desmontar todo o processo de planejamento existente para vender usinas? São as regras do jogo? Se são, desculpe, não servem para o Brasil.


Mas, no final de sua argumentação, fica claro seu pensamento. Ou se estã no jogo (deles) ou se é CUBA! Desculpe, Cristiano, é justamente para mostrar que existem outros caminhos que o ILUMINA (fundado em 1996 com Betinho, como inspirador e participante) existe.


Grato mais uma vez


Roberto Pereira d’ Araujo



Roberto,


Inicialmente, não me considero pessimista, como já explicitado no e-mail anterior. Também não me sinto desalentado ou amargurado. A questão, sobre a falta de solução para as estatais, a meu ver, esbarra em questões complexas, às quais se pode encontrar infinidades de argumentos a favor e contra. A situação, infelizmente, é que os exemplos bem sucedidos e de ações que primem pela solução de problemas para a população são exceções (e posso te garantir que muitos dos exemplos que eu tenho nunca chegaram à mídia, mas não vêm ao caso). Claro, pode, realmente, haver desinformação de minha parte; mas quem pode se considerar completamente a par das situações das estatais? Teoricamente, elas mudam (e isso já faz 15 anos) a cada governo, a cada ministro…


Quanto àquilo que vc classificou de "amargura enrustida, considero, apenas um detalhe geográfico. Se vc ler o parágrafo que contém o extrato de texto utilizado por vc, verá que eu estava me referindo à Noruega, Inglaterra, Japão… Não ao Brasil. E vc ainda não foi capaz de me dar exemplos concretos, reais e atuais que refutem a minha tese de que aqui (Brasil), até há bem pouco tempo, a regra, não a exceção, é que o público é de quem chega primeiro. Quando eu disse que um dia muda (pensei que vc fosse me entender), referi-me ao desenvolvimento de toda a sociedade a ponto de entender que o certo é o público ser de todos, não de "caciques políticos ou coronéis. Também não me referi à subserviência a interesses externos, como explicarei a seguir.


Vc tenta, a meu ver, convencer-me de que minhas idéias de aceitar o jogo são extremamente nocivas ao país, à sua soberania e à sua autodeterminação. Talvez eu não tenha conseguido explicar de maneira objetiva e simples o que eu quero dizer, mas vou tentar de novo. Só existe, hoje, um tipo de "jogo (uma ordem, representada pelo capitalismo, e uma opção de governo no mundo, o democrático) dominado pelos países mais ricos. As únicas opções: isolar-se ou jogar. Pelo visto, optou-se por jogar. Sendo assim, deve-se, absolutamente, aceitar as regras do único jogo que restou. Só que, é obvio que não se deve esperar que considerem o "pobre" Brasil como mascote. Assim, para não ser o jogador da mais baixa categoria (aquele que tem "n" desculpas na ponta da língua e inúmeros "culpáveis" para justificar desempenho pífio), o país deve se modernizar e aprender a jogar, também, para que um dia possa ditar as regras. Ou é de se esperar que digam: "nossa, o Brasil está fora??? Coloque-o na discussão, um país tão bonzinho…"? Será que a França dá subsídio a sua agricultura e se nega a retirá-los porque é o único tipo de produção do país? Ou será que os EUA criam salvaguardas para sua produção de aço porque são pobres e não podem se dar o luxo de comprar de fora? Respondo: não. Eles "podem" (não deveriam, já que pregam liberalismo, mas fazem assim mesmo) porque têm poder econômico. Ou deve-se esperar que eles abram mão de sua posição e retroceder no seu desenvolvimento (tecnológico e humano) para "ajudar" os mais necessitados e voltar alguns passos no desenvolvimento?


Se a situação do Brasil nessas discussões de comércio internacional é precária, devemos procurar as causas aqui e não culpar que está fora. Dizer que o FMI propôs uma "receita infalível para os países da América Latina é o mesmo que dizer que quem faz a política econômica, quem dela se utiliza (no caso, as empresas e a população) estão fora do país. Vc tentou me convencer que essa "receita foi imposta a todos os países que atingiram sua estabilidade, ou pretensamente chegaram a ela. Se fosse assim, o FMI, uma instituição extremamente ortodoxa, teria "imposto a mesma regra para todos os países. Nesse caso, não teríamos crise na Argentina, mas sim em toda a América Latina. Ou vc vai me dizer, agora, que o Real e o Peso são a mesma coisa? Não são, sua raiz é diferente. Mas tem o seguinte: o Brasil tem posição desfavorável em negociações internacionais porque, apesar de ter mercado enorme com enorme ("energia) potencial, não é desenvolvido como seus interlocutores (estou, para clarificar, me referindo à UE, EUA, Canadá, Japão, não ao México, a Cuba ou República Tcheca). E, já que o jogo, a meu ver, é ditado por "gente grande, devemos aprender a jogar como gente grande. Não sair de fininho, dizendo que "assim não dá, assim não pode. Talvez vc não tenha percebido, mas eleições em países periféricos são consideradas momentos de instabilidade política, não uma opção da população pela continuidade de uma política ou sua mudança. Vc acha que é viável propor uma solução para esse problema, dizendo que o Brasil é estável por meio de decreto ou pronunciamentos internacionais? Vc ainda não viu que os investimento vêm para o país se a situação é propícia para o capital, que o Brasil deve, literalmente, metade de tudo o que produz em um ano? Vc acha viável dizer que o país, na área energética, não encontra crise de financiamento, porque as empresas estão tendo lucro operacional? Vc não acha que esse dinheiro extra não está sendo utilizado para pagar parte das dívidas pública e externa? Não acho correta esta situação, não acho viável a manutenção dessa situação (deu no que deu), mas é essa a situação. É com ela que se deve trabalhar e propor novas saídas para a crise corrente e outras que possam (e vão) surgir. Não adianta ficar com a ilusão de que as coisas seriam diferentes, que seria possível fazer tudo de outro jeito… Não adianta porque as coisas já foram feitas desse jeito. Deve-se caminhar para frente, pensando no que vai acontecer, não no que seria diferente se isso ou aquilo fosse feito de outro jeito.


Lamentável o trabalho de vcs (vc, Luis Pinguelli Rosa, Maurício Tolmasquim e Sebastião Soares) não ter sido levado a sério. A mim, só resta citar Maquiavel, que nosso presidente erudito cita em seus discursos internacionais: "a competência de um governante pode ser medida pela competência de seus acessores, uma vez que um governante competente escolherá acessores competentes. O mesmo vale para sua incompetência". Mesmo porque a idéia de a iniciativa privada construir e explorar novas usinas vai muito de encontro daquilo que propus. Outro detalhe, bem vindo devido à demora em minha resposta, foi a recente percepção de que o modelo de geração de energia elétrica no Brasil vai, finalmente, ser estudado e a alguma conclusão vai se chegar. A primeira das medidas á a suspensão das vendas das geradoras de eletricidade, para que seja evitado choque tarifário (O papel regulado do Estado, conforme eu tinha escrito anteriormente…).


Outro ponto que mereceu minha atenção foi o fato de vc, mesmo que involuntariamente, sustentou e apoiou me ponto de que o Estado era o único capaz e interessado em fazer os investimentos na época da estatização. Multiplicou o parque gerador em 2000%? Ótimo, fazia parte, era necessário. Agora, viver eternamente essa situação não dá. E tem mais: dizer que a grande virtude do sistema elétrico é estar amortizado, a meu ver, é simplificar demais a situação. Claro que usinas construídas há 20, 30 anos já se pagaram, porque a amortização se dá ao longo do tempo. Só que, para manter esses empreendimentos e expandi-los, é necessário que se faça investimentos. O Estado está falido, e toda a discussão volta ao ponto inicial. Alguma coisa deve ser feita, para que essa situação ridícula de racionamento não perdure.


Gostaria, para finalizar, de comentar "Mas, no final de sua argumentação, fica claro seu pensamento. Ou se estã no jogo (deles) ou se é CUBA! Desculpe, Cristiano, é justamente para mostrar que existem outros caminhos que o ILUMINA (fundado em 1996 com Betinho, como inspirador e participante) existe". – Ótimo, perfeito! É de propostas não vazias de outros caminhos que precisamos! Se vc ler os comentários que escrevi sobre o "jogo (alguns parágrafos acima), talvez entenda o que eu quis dizer. Se não, pense não em Cuba, não na Colômbia, não em Angola. Pense em países que "entraram no jogo e se deram bem. É desse tipo de exemplo que precisamos, não de contra-exemplos. Pense na Coréia. Pense no que esse país alcançou (tecnologia de ponta própria, credibilidade). Pense em Portugal, que esteve à margem do desenvolvimento da Europa e, nos últimos anos, tem se sobressaído como um país com elevado índice de modernização. Pense na Espanha, que reduziu o desemprego de 20% para menos de 5%. E não pense, também, que a solução encontrada por esses países foi algo trivial, simples, que poderia ser considerado como uma receita; como vc mesmo disse, o Brasil é complexo; esses países também são. Foi necessária uma mobilização do governo e da sociedade. Foi necessário estudo das necessidades e da vocação do povo; particularmente considero o brasileiro como capaz de fazer tudo, desde plantar bem até produzir chips. E tem mais um detalhe sobre Cuba: lindo ter uma população extremamente educada, mas sem emprego, não? Lindo manter essa situação em nome de ideais de 40 anos atrás. Lindo parar no tempo e não se modernizar minimamente, querer que todos façam concessões e não arredar pé de sua posição. Se ficar completamente à margem do que acontece no mundo for um dos caminhos (segundo o Lula, o caminho da virtude e que até merece agradecimento), vira-se, sim, Cuba.



Cristiano:


Talvez nosso debate não esteja servindo para esclarecer alguns pontos que o ILUMINA defende. Você tem razão quando critica o "site" por não centralizar todas as críticas e propostas em um só lugar. Inicialmente, pensei que a nossa troca de idéias pudesse ir tocando nos pontos principais, mas enveredamos por uma discussão sobre inserção de países no cenário da globalização que desfoca um pouco a filosofia básica que o ILUMINA defende sobre energia elétrica no Brasil.


Lógico que tem tudo a ver, mas os pontos centrais parece que foram esquecidos:


1 – As empresas estatais exerceram um papel extremamente importante no desenvolvimento brasileiro e considerar essa forma de desenvolvimento descartável é uma opção sem base no racional.


2 – Desde 1995 o setor elétrico está aberto ao capital privado. Noventa por cento da energia consumida no Brasil já está nas mãos de empresas privadas. Vinte e cinco por cento da geração nas mãos pivadas. Não havia e não há nenhum impedimento legal para o investimento "moderno" e "eficiente".


3 – O processo de privatização, que, supostamente, deveria desonerar o Estado e ofertar energia barata para o desenvolvimento do país, falhou completamente.


4 – A crise não foi provocada por nenhuma seca trágica e o histórico de ocorrências hidrlógicas está repleto de situações bem piores.


5 – O governo privatista, criminosamente, propibiu as empresas estatais de investir apesar dos resultados financeiros amaplamente favoáveis. Ao invés disso destinou os recursos do BNDES para a viabilização de privatizações suspeitíssimas.


6 – O modelo mercantil implantado no setor tem todos os ingredientes para dar errado. Estabelece competição em um setor eminentemente cooperativo. Adota uma modelo de complementação térmica completamente incompatível com o sistema hídrico brasileiro. Estabeleceu contratos sem base na realidade. Propõe uma liberação de preços sem garantir o equilíbrio entre oferta e demanda.


7 – A oferta insuficiente e ainda por cima a preços extremamente altos em qualquer comparação internacional traz prejuízos incalculáveis à sociedade com graves repercussões sociais.


8 – O modelo adotado pelo governo FHC que produziu esses desastrosos resultados foi fruto de uma negociação com o setor privado com a participaçào ativa dos capitais presentes no país. O ONS e o MAE são entidades privadas. Até a eclosão da crise, em nenhum momento, houve manifestações contrárias por parte dos representantes da "modernidade" do empresariado. Apesar das evidências!


8 – A década de 90 foi marcada pela adoção de uma política por parte das entidades ditas de fomento (FMI, BIRD, etc) que estabelece as mesmas regras e etapas para todos os países da América Latina. (Volto a sugerir que consulte o trabalho de Wilson Cano com uma análise detalhada dessas políticas)


A grande discordância que temos é a frase" Não adianta ficar com a ilusão de que as coisas seriam diferentes, que seria possível fazer tudo de outro jeito… Não adianta porque as coisas já foram feitas desse jeito. Deve-se caminhar para frente, pensando no que vai acontecer, não no que seria diferente se isso ou aquilo fosse feito de outro jeito". A nosso ver, não é ilusão, poderiam ter sido feitas de outro jeito! Era um caminho para mudar! E outro aspecto que você esquece. Nem pode continuar nessa direção e nem isentar os responsáveis. Ou você acha que fica tudo por isso mesmo?


Nossas sugestões não excluem o capital privado, apresentam um modelo que respeita as características físicas do setor elétrico brasileiro. Não é uma cópia mal feita do modelo inglês como é o modelo dos adeptos à uma integraçào irresponsável do Brasil ao "jogo".


Seu diagnóstico "O Estado está falido, e toda a discussão volta ao ponto inicial." , pelo menos no setor elétrico, está errado! Acredite! Você tem que explicar porque "viver eternamente essa situação não dá" ! Ué! Mas dá no Canadá! Dá na França! Dá na Noruega! Você não percebe a dose de fatalismo dessa sua afirmação?


Desculpe, mas sob o meu pono de vista, você é que fica devendo uma explicação de como poderia ter sido o modelo que você defende e do que ele difere do que defendemos. Tem que explicar também como se conseguiu, coma participação de tantos PHD’s, tantos representantes do "moderno" capital, tanta vontade de participar do jogo, tantos recursos públicos à disposição, um resultado tão calamitoso. Ou você acha que a culpa é das estatais? Você não respondeu à minha pergunta: Os absurdos que você e eu denunciamos não seria o "preço’" que um país BB- tem que pagar para entrar no "jogo"?


Nunca disse que a virtude do setor é estar amortizado. O que dissse é que uma sociedade carente como a brasileira, não pode se dar ao luxo de abrir mão dessa vantagem em troca de nada, como é o caso do que está se propondo pelo governo FHC. O aspecto complicado para os investidores é como entrar num mercado onde as velhas usinas amortizadas de um ano para o outro ofertam + 20.000 MW médios, assim sem mais nem menos. Daí a inconveniência do modelo de competição (a receita) no setor brasileiro.


Cristiano, um martelo pode matar se for direcionado para a cabeça de alguem. Mas o martelo continua sendo uma ferramenta útil! Assim são as estatais. Defendo com unhas e dentes o corpo técnico dessas empresas que sempre tarabalharam com afinco. Há que distinguir esse corpo técnico da elite que dirigiu essas empresas. Quando você generaliza e diz que o Estado está falido, desconsidera o enerme potencial criativo e útil que havia e ainda há nessas empresas e que em nome dessa "falência" inexorável apesar de não provada, está sendo criminosamente desmontado.


Quanto aos seus exemplos de países que se deram bem no jogo, por favor, arranje outros exemplos, pois Portugal e Espanha simplesmente se beneficiaram do mercado comum europeu. A Korea está entrando numa recessão séria fruto da retração do Japão e USA. Por coincidência é um país que tem o setor elétrico todo estatal! Aliás, ano passado, participei de uma reunião com vários engenheiros coreanos e a grande preocupação deles era justamente a adoção da mesma receita para seu país. As figuras e diagramas de bloco que eles apresentaram eram cópias do modelo inglês.


A minha lista de exemplos com problemas no setor elétrico que segue a receita:


Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia, Califórnia, Equador, Peru, Brasil…


Cristiano, não discordamos tanto assim! Colabore com o ILUMINA! Escreva uma matéria com suas posições e publicaremos com o maior prazer.


Grato mais uma vez


Roberto Pereira d’ Araujo


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