O ILUMINA apoia e divulga as idíeas contidas nesse artigo que recoloca a questão da geração térmica em um contexto amplo de reordenamento e planejamento urbano que o modelo neo-liberal tem constantemente desprezado.
A ENERGIA DO LIXO
Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni
Os municípios brasileiros chegam a gastar 5 % de seus orçamentos na coleta e tratamento dos resíduos sólidos urbanos e 1% na Iluminação Pública. São percentuais bastante altos, comparados com os gastos com educação (10%) e saúde (6%) que envolvem milhares de profissionais e verdadeiras fortunas em termos de patrimônio (escolas, hospitais ,
equipamentos ,etc)
A destinação final de todo este material, na maioria das vêzes são os "lixões".
Os atêrros sanitários, que poucas cidades até aqui conseguiram implantar, longe de ser uma solução adequada,estarão proibidos de operar na Europa a partir já de 2002 ,pois contaminam os rios e lençois freáticos ,são vetores de todo tipo de doenças e não impedem a emissão de metano que ao, ganhar a atmosfera superior ,provoca danos à camada de ozônio.
Além disso ,os aterros tem elevados custos operacionais ,pois concentram grande quantidade de resíduos em um único local , fazendo com que os trajetos de coleta sejam cada vez mais longos.
O "passeio do lixo" ajuda a piorar o trânsito ,gera ruído , desgasta o pavimento e suja as das ruas da cidade.
Encontro-me entre os que esperam que crise financeira dos municípios brasileiros deixe a nu a falta de lógica desse modêlo, pois aquilo que chamamos de lixo (e que estamos pagando muito caro para enterrar !) , no primeiro mundo está produzindo , há mais de 10 anos ,um gás com poder calorífico que atinge 40 % do gás natural.
A Prefeitura de Londrina gastará, em 2001 , 10 milhões de reais em coleta e tratamento de lixo e 4 milhões em energia elétrica.
Será que não poderiam os municípios, com o gás produzido pelo lixo, gerar energia elétrica e utilizá-la nos prédios municipais, nos hospitais, escolas e na iluminação pública, reduzindo despesas com energia e protegendo o meio ambiente?
Usinas Termelétricas a Resíduos Sólidos Urbanos: o mesmo custo de instalação das termelétricas a gás importado da Bolívia. Mas o combustível é "de graça".
Apesar da pouca divulgação sobre o tema, muitas industrias consumidoras de energia já consideram como uma certeza a ocorrência de forte elevação tarifária a partir de 2002 quando ocorrerá com a liberação das tarifas.
Esta certeza tornou novamente viáveis os pequenos aproveitamentos hidrelétricos, motivando uma verdadeira corrida contra o tempo na construção de usinas de pequeno porte. Apenas em 2000 a ANEEL aprovou 499 MW de PCHs, contra 209 MW em 1999 e apenas 28 MW em 1998.
O que gostaria de assinalar aqui é que isto também é válido para a geração de energia a partir de outras fontes, como o lixo, a biomassa ,resíduos florestais, lodo do esgoto, pneus usados, etc.
Ao contrário do que se pensa ,o custo por kW instalado de uma termelétrica a lixo é bastante próximo ao de uma termelétrica a gás natural , oscilando em torno de US$ 700, se a encomenda for feitas às industrias nacionais.
A diferença é que o gás, extraído do lixo ,já foi pago pelos munícipes na taxa de limpeza urbana . Não precisa vir da Bolívia, pagando ainda um bom pedágio para usar o gasoduto.
Isto significa custo de produção por MWh extrememente baixo e competitivo !
Para Londrina ,com 320 ton/dia ,à razão de 30t/dia para cada MW instalado isto representaria um investimento de US $ 7,5 milhões . Que o BNDES financiará em 10 anos, gerando energia suficiente para paga-se o financiamento neste prazo e a parcela de capital próprio (50%) em cinco anos., nas atuais tarifas. (com as tarifas que se esperam a partir de 2002 ,o retorno pode ser mais rápido)
As parcelas mensais do financiamento seriam de pouco mais de 132 mil reais e do pagamento do capital próprio de 222 mil reais para uma "equity" de 50 % e juros de 15 % ao ano. As receitas mensais com energia seriam de cerca de 650 mil reais, os reciclados renderiam 66 mil. Os impostos totalizariam 97 mil reais e os custos operacionais 262 mil reais. Sobraria um resultado de 3 mil reais mês, pagas todas as despesas e financiamentos!
Mais importante do que tudo isso , Londrina estaria resolvendo o grave problema de seu "lixão" de uma forma absolutamente limpa , ambientalmente correta e inteligente.
Ao invés de uma só usina, poderiam ser quatro menores, uma em cada região da cidade, para diminuir os trajetos e os custos de coleta, que cairiam em pelo menos 20 %.
Mas se é tão óbvia assim ,porque esta solução não foi tentada antes em nenhuma cidade do Brasil ?
Talvez por isso mesmo.
Por serem boas e óbvias , muitas soluções deixaram de ser implementadas no Brasil . Afinal, onde já se viu Prefeitura gerar energia e lixo virar quilowat-thora ?
Usinas Termelétricas a resíduos sólidos urbanos são uma realidade na Europa, Estados Unidos e Japão há quase 50 anos. As mais antigas ,operando por incineração, enfrentam restrições devido às emissões atmosféricas (fumaça com dioxinas e furanos) e ao relativamente alto percentual de resíduos finais (25 a 30 %).
Porisso ,na última década , um novo processo vem sendo empregado : a gaseificação . Nele, os resíduos finais não chegam a 3 % em peso e não apresentam nenhum efeito poluente(sem fumaça, sem escória, sem dioxinas, sem chorume).
Por não ser poluentes ,estas Usinas podem ser montadas em vários pontos das cidades, acabando com o "passeio do lixo" ,diminuindo os trajetos e os custos de coleta em pelo menos 20 % !Ou seja, economizando todo ano, pelo menos 1% dos orçamentos municipais!
Nossas estimativas apontam que a maior parte das Prefeituras dos municípios médios e grandes do Brasil poderia suprir mais de 50 % de suas necessidades de energia elétrica aproveitando o lixo como combustível . Consorciados, até pequenos municípios poderiam adotá-las.
Outra boa notícia: este problema ambiental poderia ser enfrentado com os financiamentos que o governo federal disponibiliza para o setor elétrico: o BNDES tem uma linha especial de crédito para geração térmica.
Assim , ao invés de continuarem a enterrar o lixo atrás dos muros da cidade, como se faz desde a Roma Antiga, as Prefeituras, (constituindo parecerias com as empresas de coleta de lixo , porque não ?) utilizariam este energético para diminuir seus gastos com a iluminação púbica e os prédios municipais.
Ou seja : as municipalidades economizariam 1% do orçamento na coleta e mais 1% na energia elétrica que consumem. E ainda poderiam usar a energia excedente no estímulo à industrialização ou na venda ao mercado, atividade que todas as pesquisas mostram, tende a ficar cada vez mais lucrativa. (ou será que toda esta "briga" pela COPEL é só "brincadeirinha" e a falta de energia e o aumento de tarifas na Califórnia é só um contratempo passageiro ?)
Coleta Diária Individual: No Brasil e em Londrina o lixo tem luxo que o lixo de Londres não tem.
Em Londres a coleta de lixo se dá de quatro em quatro dias porque a capacidade mínima dos "conteiners" de lixo, (que lá são obrigatórios ), é de 660 litros.
Porque será que no Brasil, a coleta tem que ser diária, com caminhões de 7 toneladas andando praticamente vazios centenas de quilômetros diariamente, para coletar sacos com pouco menos de 5 kg de lixo, de porta em porta ?
O atual sistema de coleta de lixo no Brasil não tem lógica nenhuma !
A não ser à compreensível lógica do máximo lucro das empresas coletoras.(afinal,são empresas privadas e estão aí para isso mesmo)
Cabe ao poder público capacitar-se para propor outras alternativas ,que rompam este círculo vicioso no qual uma péssima destinação, um tratamento inexistente e uma coleta absurda provocam máximo lucro.
É preciso inverter essa lógica e maximizar o lucro quando máxima for a racionalidade e a eficiência.
A experiência de Arapongas com o uso conteiners de lixo para cada quatro casas está a apenas 30 km de Londrina. Cabe aprender com ela e complementá-la ,dando ao lixo o valor que ele verdadeiramente tem.
Neste ponto ,chegamos a uma decisão importante: separados, na fonte ou numa usina, os materiais recicláveis, o que se deveria fazer com o lixo orgânico , Adubo ou Energia ?
A extensão deste texto recomenda que deixemos para uma próxima oportunidade expormos as vantagens e desvantagens de cada uma destas alternativas .
O importante é termos certeza de pelo menos uma coisa: do jeito que está ,não dá prá ficar. Aterro Sanitário é coisa do passado e enterrar lixo é criar problemas, para hoje ou amanhã.
Entre "lixão" e "atêrro sanitário" , Londrina precisa escolher a racionalidade e a visão de futuro.
(engenheiro eletricista , mestrando em ciências térmicas pela UFPR e Consultor em Energia www.enercons.com.br pugnalonfinn@onda.com.br )