A represa de Furnas e o descaso federal
Quem percorre os diversos municípios no sul de Minas próximos à usina hidrelétrica de Furnas, pode constatar o estrago feito na região. Mais uma obra do descaso que levou à atual crise energética atual, fruto da reestruturação do setor elétrico empreendida pelo governo Federal. É algo que vai muito além do racionamento de energia e o crescente desemprego associado às atividades produtivas dependentes da eletricidade que atinge o Sudeste e o Nordeste do País.
Esse estrago já começou há uns três anos, e pouco foi noticiado pela grande imprensa. O problema já era conhecido, mas não a real dimensão, que pode ser constatada por quem passar pelas cidades próximas à represa de Furnas.
Quando a usina foi construída, há pouco mais de quarenta nos atrás, uma grande área foi inundada, atingindo vários municípios e forçando a mudança de vida de muita gente. Terras de agricultura e pastagem foram perdidas, famílias tiveram que se mudar para outros lugares e muitos perderam tudo que tinham pois as indenizações foram irrisórias para pagar a mudança de vida que se fez necessária.
Com a entrada em operação de Furnas, o País ganhou um novo padrão de serviços de eletricidade. O sacrifício de muita gente da região ajudou na construção do País.
Passados os anos, a população descobriu que a represa poderia ajudar na recuperação dos prejuízos causados por ela, via exploração do turismo e outras atividades propiciadas pelo grande lago que foi criado. Um alto investimento foi feito na construção de hotéis, restaurantes, clubes e loteamentos à beira do lago e a região incorporou o turismo como importante fator econômico para seu desenvolvimento.
Os maus momentos passados nos anos 60 foram esquecidos pela grande maioria.
Com a reestruturação do setor elétrico deflagrada pelo Governo Federal, praticamente acabaram as atividades de planejamento do sistema de geração e transmissão e os novos investimentos privados foram irrisórios para atender ao crescimento do consumo de eletricidade no país. As estatais foram proibidas de investir pois esse gasto seria considerado como déficit público, como acordado pelo nosso Governo com o FMI. Tudo em nome da estabilidade da moeda …
Com a falta de energia "nova", as usinas hidrelétricas passaram a operar fora das condições para as quais foram projetadas.
Em consequência, a represa começou a esvaziar apesar do ciclo de chuvas ter ocorrido dentro do previsto nos estudos feitos para o projeto de Furnas e demais usinas do sistema. E chegou a 16% o nível de do reservatório – um abaixamento da lâmina de água em 13 metros!
Na cidade de Capitólio, um dos mais destacados polos turísticos da região, a quantidade de ancoradouros pendurados sobre rochas e afastados da água, mostram as consequências do esvaziamento irresponsável. E ali não estão os casos mais críticos, pois é uma região de escarpas e águas fundas.
O lago secou nos locais onde as águas não eram profundas. Hotéis e restaurantes construídos à beira do lago, hoje estão a quilômetros de distância da água. Fechados e com muita gente desempregada.
O esgoto jogado no lago era absorvido pelo grande volume de água da represa e provocava pouco impacto ambiental. Com 16% do volume de água, os impactos já são significativos.
E os fantasmas do passado voltaram. Em vez de inundações, terras secas e sonhos destruídos. Prejuízos e desemprego como na década de 60.
As medidas anunciadas pelo Presidente da República indicam que, caso todos os investimentos privados sejam realmente feitos, o lago pode ser recuperada em 2 anos, no mínimo, com a preciosa colaboração do tão mal-falado (pelo Governo) São Pedro.
Mas pode ser que São Pedro se aborreça com a culpa atribuída por uma seca que só aconteceu este ano, e resolva nos mandar menos chuva que o esperado. E se os investimentos privados não vierem no volume esperado, aí a coisa pode se estender por mais outro par de anos.
Se da outra vez o sacrifício da região resultou em benefícios para todos, desta vez será por nada.
Triste o saldo da reestruturação do setor elétrico. Seus defensores diziam que traria redução das tarifas de eletricidade, novos investimentos para a expansão do parque gerador e serviços de eletricidade mais eficientes. E o que se vê é justamente o contrário: tarifas crescentes, falta de investimentos e racionamento. Além de alto risco de apagões, desemprego, prejuízos de toda ordem, lucros excessivos enviados para o exterior pelas empresas privatizadas, etc.
Ao que parece, o Presidente da República deverá visitar a região nos próximos dias. Será uma boa oportunidade para ele ver mais um dos estragos que a reestruturação do setor elétrico promoveu. Uma boa oportunidade para refletir sobre as consequências do que se fez e mudar o rumo desse barco, antes que ele encalhe, como muitos outros que estão na represa de Furnas.
Fabio Resende
Diretor do Ilumina
9/julho/2001