GLOBO 15/8/98 Blecaute atinge 8 milhões de pessoas Uma interrupção de 20 minutos no fornecimento de energia elétrica afetou praticamente metade do Estado do Rio de Janeiro, parte do Espírito Santo e o …

GLOBO 15/8/98


Blecaute atinge 8 milhões de pessoas


Uma interrupção de 20 minutos no fornecimento de energia elétrica afetou praticamente metade do Estado do Rio de Janeiro, parte do Espírito Santo e o Sul de Minas, a partir das 10h20m de ontem. Cerca de oito milhões de pessoas no Estado do Rio ficaram sem luz. Noventa por cento dos bairros do Centro e da Zona sul foram atingidos, e 70% da Baixada, das zonas Oeste e Norte. Os túneis da cidade ficaram às escuras, trens e metrô pararam e o abastecimento de água ficou prejudicado em vários bairros, pois cinco elevatórias da Cedae não funcionaram por falta de energia elétrica.


Dos 906 cruzamentos da cidade ligados ao Controle de Tráfego por Área (CTA) da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio), 800 ficaram com os sinais luminosos apagados de 40 minutos a uma hora. Houve congestionamentos em vários pontos da cidade, mas os principais congestinamento detectados pela CET-Rio durante a pane aconteram emCopacabana e na Auto-Estrada Lagoa-Barra.


A interrupção ocorreu com o acionamento indevido de uma chave-terra automática que acabou desligando a subestação da região metropolitana do Rio. Com isso, todo o sistema ficou sobrecarregado e começou o efeito cascata, com o desligamento da subestação de Jacarepaguá, de Furnas, e o corte no fornecimento de energia de Angra I, da térmica de Santa Cruz.


O tráfego de trens da Flumitrens e do Metrô foi interrompido,mas não houve tumulto. A Flumitrens informou que os trens nos ramais de Deodoro, Santa Cruz, Japeri e Belford Roxo, que chegam até a Central do Brasil (Gare D. Pedro II) ficaram parados por cerca de 25 minutos, a partir das 10h20m, assim como os de Barão de Mauá – Gramacho, que passam pela estação da Leopoldina.


O sistema de controle das esteiras e escadas rolantes da estação Cardeal Arcoverde, do Metrô, em Copacabana, queimou e teve que ser substituído. A Linha 1 do metrô ficou parada por 19 minutos. Os passageiros dos trens que estavam próximos às estações do Largo do Machado e de Botafogo foram os únicos a ficarem parados por instantes. Eles foram retirados dos trens por equipes de segurança que os encaminharam pelas laterais dos trilhos até as plataformas. Todos os outros trens estavam parados nas estações no momento da queda de energia. Os passageiros tiveram seus bilhetes devolvidos.


O tráfego na Linha 2 (Estácio- Vicente de Carvalho) só foi totalmente restabelecido por volta das 12h30m, por questão de segurança. O setor de operações teve que esperar a volta da energia em todos os bairros por onde passa a Linha 2 para que os trens voltassem a circular nestes trechos sem novas interrupções. No Aeroporto Internacional do Rio, a falta de luz durou apenas três minutos, tempo para os geradores serem acionados. As secretarias municipal e estadual de Saúde garantiram que a pane de energia não afetou o funcionamentode seus hospitais, que contam com geradores para atender as emergências, os centros cirúrgicos e as unidades de tratamento intensivo.


Os bombeiros receberam 20 chamadas para retirada de pessoas presas em elevadores, mas fez apenas dez resgates, a maioriana Tijuca, em Copacabana e Ipanema. O caso mais grave ocorreu na Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, onde um estudante de odontologia, que sofre de claustrofobia, teve uma crise nervosa.


Em Ipanema, na galeria Forum, uma senhora ficou presa quase uma hora presa em um elevador entre o 11º e o 12º andares. Segundo o chefe da segurança da galeria, Luiz Leôncio, ela inicialmente ficou bastante assustada, mas se acalmou depois que a equipe de atendimento e de manutenção chegou.


– Nós ficamos ao lado dela todo o tempo, abrimos a porta para ventilar e levamos até um copo d’água para ela ficar tranqüila -contou Leôncio. O ascensorista Hermes de Lima, de 70 anos, do prédio Sloper,na Rua Uruguaiana, passou pela mesma situação, mas não se apavorou:


– Em 11 anos de portaria, já passei por isso umas quatro vezes. Dessa vez, tinha umas oito pessoas dentro do elevador, entre ooitavo e nono andares, e nós colocamos a minha cadeira junto à porta para que as pessoas pudessem passar pelo espaço de meio metro.


Na maioria dos prédios do Centro, no entanto, a falta de luz não causou maiores transtornos já que aconteceu em uma hora de pouco movimento. O agente de segurança Paulo Senna, do prédio Citibank, na Rua da Assembléia, ficou aliviado depois que a energia voltou.


– Se fosse na hora do rush a coisa seria mais grave, mesmo com o nosso gerador funcionando. Muitas pessoas circulam aqui – afirmou Senna.


Em Laranjeiras, a filial das Lojas Americanas ficou com as portas fechadas desde a falta de luz pouco depois das 11h atéas 14h depois de um susto: uma pequena explosão em um cabo de baixa tensão em frente à saída para a Rua Conde deBaependi. Segundo seguranças, depois do estrondo iniciou-se um pequeno incêndio no poste que foi apagado pelo Corpo deBombeiros. No entanto, segundo a equipe da Light que foi ao local, o incidente no cabo não afetou o abastecimento da loja,feito por uma rede de alta tensão.


Os túneis Santa Bárbara, Rebouças e Dois Irmãos ficaram totalmente às escuras por um período que variou entre 25 minutos (Dois Irmãos) e 40 minutos (Rebouças). Não houveacidentes. No Dois Irmãos, o congestionamento foi provocado pela pane dos sinais de trânsito.


Niterói, São Gonçalo e municípios da Baixada Fluminense também foram atingidos. A interrupção ocorreu às 10h22m e aenergia foi restabelecida 40 minutos depois. O colapso do sitema devido a perda de 550 Mwtz de energia, com 800 mil pessoas atingidas. Outros municípios do interior não foram atingidos. Segundo a Superintendência de Trânsito da Prefeitura de Niterói, o trânsito da cidade não ficou prejudicado com a falta de luz. Somente dois sinais, que ficam no Centro, tiveram problemas. A Conerj também não teve problemas com a saída das barcas.


Em Nova Iguaçu, Jamil Rime, coordenador de Trânsito, disse que faltou luz em alguns pontos da cidade, mas o trânsito ficounormal, apesar de alguns sinais ficarem apagados. Em Duquede Caxias, a falta de luz durou cerca de 20 minutos. A GuardaMunicipal, que controla o trânsito na cidade, informou que mesmo nos locais que faltaram luz, a interrupção durou cerca de 5 minutos. Sem problemas de trânsito também. Falei com aguarda municipal, Rosimar Barga de Souza.



Em São João de Meriti o trânsito ficou um pouco atingido. O coordenador de tráfego da CET de Meriti, Anderson Ribeiro, botou todo o efetivo de homens na rua para controlar a situação. Teve retenções em alguns pontos da cidade, mas já foi contornado o problema. Sem grandes engarrafamentos.


Segundo a Light, a interrupção do fornecimento de energia em53 subestações da região metropolitana do Rio fez com que faltasse luz nas Zonas Sul e Oeste, no Centro, em parte de São Cristóvão, na Barra, Recreio dos Bandeirantes, Tijuca, Vila Isabel, Rio Comprido, Maracanã, Vista Alegre, Irajá, Parada de Lucas, parte do Méier e bairros adjacentes, parte de NovaIguaçu, Nilópolis, Mesquita e São João de Meriti.


Aparelho na subestação do Grajaú causa pane


Ramona Ordonez


A entrada em operação, indevidamente, de uma chave-terra -utilizada normalmente para isolar uma determinada área para realização de serviços no local – ocorrida às 10h12m na manhã de ontem na subestação de Grajaú de Furnas deixou sem energia praticamente metade do Estado do Rio e uma pequena parte do Espírito Santo e do Sul de Minas Gerais, por um período de até uma hora. Os técnicos estimam queaproximadamente oito milhões de pessoas ficaram sem energiaelétrica. Cerca de 90% dos bairros do Centro e da Zona Sulforam atingidos, e 70% das zonas Norte, Oeste e da Baixada. O Centro e a Zona Sul foram os pontos mais atingidos porreceberem energia diretamente da subestação do Grajaú. Furnas, responsável por cerca de 80% do fornecimento de energia para o Rio, não sabe ainda as causas do acidente. Odiretor de Operações de Furnas, Celso Ferreira, disse que a empresa vai apurar duas hipóteses: falha do equipamento que entrou automaticamente em operação ou falha humana, com o acionamento da chave indevidamente provocando um curto-circuito.


No momento do acidente, a subestação do Grajaú estava fornecendo cerca de 20% da carga que estava sendoconsumida no Rio O acidente acabou causando o blecaute em grande parte do estado porque provocou uma série de desligamentos em cascata de outros sistemas que foram sobrecarregados. O desligamento na subestação do Grajaú provocou uma sobrecarga da ordem de 50% de sua capacidade na subestação de Jacarepaguá, também de Furnas, que devido aos sistemas de proteção se desligou automaticamente às 10h22m.


Ao mesmo tempo, também devido aos sistemas de segurança,deixaram de enviar energia para o Rio as usinas nuclear deAngra I e a térmica a óleo de Santa Cruz. Segundo o diretor de Furnas, Celso Ferreira, às 10h22m a empresa reiniciou ofornecimento de energia para todo o sistema. A Light, uma das concessionárias mais atingidas pelo corte no fornecimento, informou que às 10h45m começou a fornecer energia, tendo restabelecido todo o fornecimento às 11h20m.


Ao todo, Furnas calcula que deixaram de ser fornecidos no período do acidente 2.665 megawatts de energia, dos quais 15 megawatts para o Espírito Santo, 300 megawatts para o Sul de Minas Gerais, 550 megawatts para a Cerj, que atende a Niterói eao interior do estado, e 1.800 megawatts para a Light.


Normalmente, o consumo nesse período da manhã é da ordem de cinco mil megawatts.


O diretor explicou que a chave-terra é utilizada para isolar uma parte da subestação para a realização de algum trabelho. Em uma operação normal, antes de essa chave-terra ser acionada, teriam que ser abertos os disjuntores existentes para isolar a área desejada. Quando a chave-terra é acionada, então, como a área já está isolada do resto das instalações pelos disjuntores, ela não desliga toda a subestação. Como os disjuntores não estavam abertos ontem, o acionamento da chave-terra derrubou toda a subestação, que foi automaticamente desligada.


O diretor de Furnas afirmou que o sistema de proteção que existe para evitar que essa chave opere indevidamente também falhou. O ministro de Minas e Energia, Raimundo Brito, minimizou o blecaute. Segundo ele, deve ter ocorrido um problema técnico, que foi rapidamente contornado por técnicos da Eletrobrás. Na avaliação de Brito, o blecaute não tem qualquer vinculação com o problema de oferta de energia, jáque ela é muito maior do que se precisa.

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