GLOBO 15/06/98
Zona Sul sofre com falta de luz
Elenilce Bottari
Um problema num dos cabos de alta tensão da estação Leblon da Light deixou sem energia elétrica várias ruas de Ipanema,
Leblon, Gávea e Lagoa durante quase quatro horas na tarde de ontem. Parte de Copacabana também sofreu com o corte de
energia, mas por menos tempo. Apesar do transtorno, que provocou protestos de moradores e torcedores da região, a
Light garante que o problema foi isolado e que não há risco de se repetir amanhã à tarde durante o jogo Brasil e Marrocos.
Mesmo assim, para atender a qualquer emergência, equipes técnicas ficarão de plantão nos pontos de grande concentração
de torcedores, como as ruas Jorge Rudge, em Vila Isabel, e Alzira Brandão, na Tijuca.
– Se eles demorarem o mesmo tempo que estão demorando para normalizar o fornecimento aqui no Leblon, ou seja, mais de
três horas, a presença dessas equipes não vai adiantar nada – queixou-se o torcedor Rodrigo Sampaio, morador do Leblon,
dizendo ter sido uma sorte que o jogo que perdeu ontem era entre Iugoslávia e Irã.
Segundo a Light, o problema no cabo de alta tensão que interrompeu o fornecimento de energia entre 12h e 16h de
ontem não foi causado por sobrecarga. A companhia diz que foi reflexo do acidente ocorrido no dia 28 de maio passado com uma
retroescavadeira da Cedae. No acidente, foram danificados três cabos de alta tensão. Os reparos de emergência foram feitos,
mas a empresa precisaria interromper o fornecimento de energia para completar o serviço. Segundo a assessoria da
Light, essa interrupção só aconteceria após a Copa. Até lá, a empresa pretendia fazer manobras para contornar possíveis problemas.
Um dos cabos danificados, porém, não suportou a pressão e interrompeu o fornecimento de energia, o que impediu que
milhares de torcedores vissem o gol da Iugoslávia ontem.
A falta de luz pegou muita gente de surpresa. O Corpo de Bombeiros recebeu diversos chamados para resgate de moradores presos em elevadores. O restaurante Alvaro’s, no Leblon, ficou três horas e meia sem luz e sem poder servir qualquer fritura:
– Ficamos sem ar condicionado, sem exaustor e sem televisão. Foi um sufoco – disse um dos funcionários.
Morador da Rua João Lira, no Leblon, o militar Pedro Torres considerou falta de competência a demora para a conclusão do
reparo no cabo da Light:
– Só pode ser incompetência. A gente paga um imposto alto e fica horas sem luz. Já imaginou o que vai acontecer se faltar luz na hora do jogo do Brasil? Eu não quero nem pensar.
Por volta das 19h30m de ontem, ruas próximas ao Corte de Cantagalo, em Copacabana, ainda estavam sem energia elétrica.
Lá, porém, a interrupção começou mais tarde que nos outros bairros atingidos.
Amanhã, entre 1h e 2h da madrugada, a Light também vai interromper o fornecimento de energia para 13 ruas do Centro
para fazer serviços de manutenção na subestação da Frei Caneca, que abastece a área.
Dono do Sinuca Bar, na Rua Humberto de Campos, e morador do Leblon, Antônio Fernando Leão Ferreira passou quatro horas
sem energia elétrica. Segundo ele, a luz ameaçou voltar três vezes durante esse período, mas apagava imediatamente. Só deu
mesmo para assistir ao jogo entre Argentina e Japão.
– Se faltar luz no dia do jogo do Brasil, amanhã, vou rogar uma praga para que haja um problema lá no estádio. Se eu não
puder ver o jogo, ninguém mais verá – disse.
Caso a praga falhe, o jeito, segundo ele, vai ser apelar para o radinho de pilha. A casa da sogra fica muito longe:
– Ela mora em Portugal. Eu não chegaria nem para o segundo tempo – brincou o dono do Sinuca Bar, onde o ator Du
Moscovis, mesmo com a falta de luz, foi tomar uma caldeirada de frutos do mar ontem à tarde.
A dona de casa Lúcia Damasco também reclamou da falta de luz na Gávea por quatro horas e, mesmo com a Light garantindo que
não há risco de novos problemas, disse que já está estudando uma forma de driblar a escuridão se voltar a faltar energia:
– Vou ligar para meus amigos de outros bairros para saber onde há uma televisão ligada. Se faltar luz na Gávea, verei o
jogo em Botafogo, no Centro, em qualquer lugar.
O aposentado Cesar Melo, residente na Rua Carvalho Azevedo, na Lagoa, reclamou do prejuízo. Ele disse que, devido ao pique
de luz, perdeu uma secretária eletrônica, dois vídeos, um decodificador de TV e um telefone sem fio:
– Perdi o jogo do Irã, perdi o decodificador e dois vídeos. A Light não tem jeito. Assim não pode continuar. É um absurdo –
desabafou.
Morador da Lagoa, Emanoel Sampaio disse que não vai depender apenas da sorte ou da palavra da companhia de eletricidade. Ele
escalou o próprio carro para o banco de reserva da Copa:
– Tenho uma televisão que ligo na bateria do carro. Mas, se não tivesse, contrataria desde já um serviço de táxi, desses que
têm até televisão. O que a gente não pode é perder o jogo.
Muitos bares e restaurantes dos bairros atingidos pelo corte de energia tiveram que se conformar com o prejuízo. O
Restaurante e Bar Sushi Leblon, na Rua Rainha Guilhermina, por exemplo, ainda tentou manter o atendimento, mas, depois
de três horas sem energia, acabou tendo que fechar suas portas:
– A luz foi embora por volta de meio-dia, deixando a gente sem a bomba d’água e, depois, sem gelo. Às 15h, decidimos fechar.
Se demorássemos mais, os peixes poderiam estragar – explicou Shirley Brandão, funcionária do restaurante, reclamando do prejuízo.