Globo 15/3/99 Novo apagão assusta a Zona Sul Três dias depois do blecaute que paralisou dez estados, 20 minutos de falta de luz ontem na Zona Sul foram suficientes para assustar e indignar moradores dos nove bairros atin …



Globo 15/3/99

Novo apagão assusta a Zona Sul


Três dias depois do blecaute que paralisou dez estados, 20 minutos de falta

de luz ontem na Zona Sul foram suficientes para assustar e indignar

moradores dos nove bairros atingidos pelo corte de energia, que começou por

volta de 19h15m. O apagão desta vez aconteceu, segundo a Light, por causa

de um problema no terminal de distribuição de energia que fica no Horto, o

Terminal Sul. A rede elétrica do terminal desligou-se, deixando sem

fornecimento os bairros de Botafogo, Humaitá, Leme, Copacabana, Ipanema,

Leblon, Jardim Botânico, Horto e Gávea. A Light garantiu que o fornecimento

foi totalmente restabelecido às 19h34m.


– Muito estranho dois apagões em tão pouco tempo. Para o primeiro,

disseram que a culpa foi de um raio. O que vão alegar desta vez? – reclamou a

estudante Flávia Cruz, que caminhava com uma amiga pela Avenida

Ataulfo de Paiva, no Leblon, quando aconteceu o apagão. Com medo de

assalto, correram até o prédio de uma amiga.


A Light informou que o sistema de proteção da subestação Terminal Sul

(responsável pela transferência da rede aérea para a rede subterrânea da

Zona Sul) foi acionado por volta das 19h15m. Dali partem linhas de 138 mil

volts para os outros bairros, que tiveram o fornecimento de energia suspenso.

Houve um defeito num equipamento chamado barra de transferência de

carga (das vias aéreas para as subterrâneas). A empresa, porém, não soube

informar o que teria causado o defeito. A luz voltou primeiro no Jardim

Botânico, às 19h20m, sendo gradualmente restabelecida nos outros locais. A

empresa informou ainda que o Leme foi o último a ter o fornecimento

normalizado, às 19h34m. Entre 19h15m e 19h45m, a empresa recebeu 797

reclamações. No Jardim Botânico, o apagão durou cinco minutos. Algumas

ruas de Copacabana já haviam passado quase toda a madrugada de sábado

sem energia, segundo moradores.


A autora de novelas Glória Perez, que mora na Avenida Atlântica, estava

trabalhando em casa ontem e tinha escrito um capítulo inteiro da novela

"Pecado capital". O texto estava na tela do computador quando a luz faltou.


– Fiquei preocupada porque não sabia se tinha salvado o texto na memória do

computador. Comecei, em seguida, a ligar para amigos da Zona Sul para

saber se era um novo blecaute – disse a escritora, que mesmo após o

fornecimento ter sido restabelecido não teve coragem de conferir se o domingo

de trabalho no computador fora em vão.


A luz acabou no momento em que a família da dona de casa Gisele Sutter

Simões se reunia para um jantar, no Leblon. A confraternização acontecia no

16 º andar de um prédio próximo à Praça Antero de Quental. O apagão

retardou os planos de Gisele, que com o marido e os filhos, de 2 e 5 anos,

pretendia subir mais cedo para Petrópolis, onde moram. Com a interrupção,

eles ficaram frustrados e chegaram a pensar em descer os 16 andares pela

escada.


As pizzarias que tinham fornos elétricos acumularam prejuízos.


– A pizza só pode ser retirada do forno no ponto certo, por isso umas dez

acabaram se estragando. Esse novo apagão é um absurdo – diz Max Cardoso,

funcionário da pizzaria Parmê na Rua Edmundo Lins, em Copacabana.


O problema não foi só esse: depois que a energia voltou, os empregados da

loja tiveram que correr para recuperar o tempo perdido enquanto o forno ficou

apagado. Como domingo é o dia de maior movimento da pizzaria, até o

gerente teve que pôr a mão na massa para diminuir o atraso nas entregas.


Nos cinemas, houve reclamações por causa das sessões interrompidas. Em

Copacabana, cerca de 500 pessoas estavam nas três salas do Roxy na hora em

que a luz acabou. Os filmes "Elizabeth" e "Além da linha vermelha"

estavam no meio. Muitas pessoas pediram os ingressos de volta – iluminadas

pelas luzes de emergência do cinema. Como a energia foi restabelecida em 20

minutos, o público voltou. As sessões seguintes começaram com atraso. No

ginásio da Gávea, o jogo de basquete entre Flamengo e Pinheiros foi

interrompido.



Crise prejudica os investimentos no setor elétrico


A crise econômica ameaça o sistema de fornecimento de energia elétrica

brasileiro. O presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, disse que a alta do

dólar e as dificuldades de obtenção de recursos externos nesse período de

recessão econômica devem atrapalhar projetos importantes de construção de

termoelétricas. A geração local de energia pelas termoelétricas é a

alternativa defendida pelo Governo para se diminuir a dependência do

sistema interligado, que tem a desvantagem de desligar todas as linhas de

transmissão conectadas quando uma ramificação é atingida.


Segundo Firmino Sampaio, o custo da construção das termoelétricas aumentou

porque os equipamentos e o combustível (gás) usados por elas são importados

e tiveram o preço elevado com a alta do dólar. Tais empreendimentos

dependem de gás do gasoduto Brasil-Bolívia, que tem seu preço fixado no

mercado internacional. Entre as termoelétricas em andamento que deverão

ser atingidas pelo impacto da desvalorização do real estão as de Campo

Grande (no Norte Fluminense), de Paulínia e de Piratininga, ambas em São

Paulo.


– Mesmo no período recessivo a demanda continua crescendo. Isso é positivo

para investidores, mas fica difícil obter recursos para atender às

expectativas de expansão do setor elétrico – disse o presidente da

Eletrobrás.


O Rio de Janeiro, segundo Sampaio, é um dos estados mais vulneráveis,

porque a produção local de energia é muito pequena diante da demanda. A

situação deve melhorar com a conclusão das obras de Angra II até o final do

ano. O sistema de geração de energia do estado também será reforçado com a

conclusão da termoelétrica de Campos. Preocupado com a situação dos projetos de expansão

do sistema elétrico e coma ameaça de novos blecautes, o ministro das Minas e Energia, Rodolpho

Tourinho, reúne hoje em Brasília os principais técnicos do setor para discutir

alternativas para os problemas. Ele disse que não há dúvidas da

necessidade de mais investimentos, principalmente pelo setor privado, e de

ampliação da privatização das empresas do setor elétrico. Segundo o

ministro, o setor precisa de um investimento anual de R$ 8 bilhões.

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