O GLOBO 18.08.97
George Vidor
vidor@oglobo.com.br
Uma virada de 180 graus no modelo de privatização das empresas do setor
elétrico. Em vez de serem picotadas, as grandes empresas federais e estaduais
passarão a ser vendidas na sua atual configuração, o que, aliás é bem mais
inteligente.
No caso de Furnas, por exemplo, supondo-se que o mercado mantenha o mesmo
parâmetro que tem usado para cotar as ações da Coelba e da Cerj (1,9 vez o
patrimônio líquido), o Governo poderá faturar de R$ 14 bilhões a R$ 15 bilhões
entre a venda do controle acionário e dos demais lotes para futuros acionistas
minoritários. Talvez até bem mais do que isso, se o Governo vender os lotes
minoritários por etapas, aproveitando a valorização dos papéis nas bolsas.
Se optasse pelo desmembramento de Furnas, acabaria leiloando conjuntos de
usinas hidrelétricas e térmicas isoladamente, que não renderiam no total mais do
que R$ 3,5 bilhões. Seria um processo lento e penoso. Além disso, sobraria para
a Eletrobrás apenas uma empresa de transmissão de energia elétrica, pouco
rentável e que dificilmente iria despertar o interesse de investidores privados.
Em bloco, Furnas atrairá maior número de compradores porque é uma empresa
com possibilidade de alavancar numerosos negócios em diferentes áreas, tal qual
vem fazendo a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Como estatal, Furnas
fatura atualmente cerca de R$ 3,5 bilhões e lucra mais de R$ 500 milhões. Em
1998, vai investir R$ 1,5 bilhão. E isso ainda cheia de amarras. Se já fosse
privada, poderia estar agora disputando licitações para construir novas
hidrelétricas e ampliando seus horizontes.
A idéia de picotar Furnas e outras grandes empresas elétricas (Eletrosul, Chesf,
Eletronorte, Cesp) se baseava na premissa de que não seria possível arregimentar
compradores com cacife suficiente para adquiri-las em bloco. As últimas
privatizações jogaram por terra essa tese. Os investidores estrangeiros finalmente
descobriram o Brasil e estão ávidos para participar dos próximos leilões,
associados a fundos de pensão ou empresas brasileiras.
O fato de Furnas, Eletrosul e Cesp serem vendidas em bloco não impedirá o
surgimento de um mercado competitivo no Brasil. Pela lei, todas essas
companhias continuarão a ser obrigadas a dar passagem, em suas linhas de
transmissão, à energia gerada por terceiros, mediante a cobrança de um pedágio,
cujo valor máximo será fixado pela Aneel – a agência reguladora do setor – com
base num levantamento de custos médios que as empresas terão de discriminar
daqui por diante.
Por esse método, o sistema nacional de transmissão não terá mais de ser
necessariamente estatal, podendo ser administrado (e é melhor que o seja) por
empresas privadas.
Para o Brasil, é importante que sobrevivam empresas nacionais do porte de
Furnas, capazes de obter financiamentos às mais baixas taxas de juros do
mercado internacional. E para o Rio de Janeiro, em particular, seria um desastre o
desmembramento de Furnas. Os cofres públicos fluminenses perderiam R$ 100
milhões em impostos, e a economia do estado, R$ 300 milhões em salários por
ano.
Depois da cisão das usinas nucleares, incorporadas à Nuclen, Furnas perdeu 8%
de seu faturamento e 9% do patrimônio líquido. Em compensação, o quadro de
pessoal diminuiu em 18%, e se reduzirá mais com o programa de aposentadoria e
renovação (que prevê a saída de quase mil funcionários até 1998 e a contratação
de 600 a 700). Furnas tem no momento 5.674 empregados efetivos.