Basta ler para entender!
O GLOBO 25/10/99
Governo paulista conta com o ágio de até 200% no leilão da Cesp TietêWagner Gomes Da Agência O GLOBO
SÃO PAULO. A confiança dos investidores no futuro da economia terá outro teste de peso nesta quarta-feira, quando será realizado o leilão da Cesp Tietê. É a segunda empresa criada com a cisão da antiga Cesp; a primeira, a Cesp Paranapanema, foi arrematada em julho pela americana Duke Energy com ágio de 90,21%. O Governo paulista, que conta com essa receita para fechar as contas, espera novo recorde de preço. Para o secretário estadual de Energia, Mauro Arce, a Tietê deve sair pelo dobro do preço mínimo de R$ 721,7 milhões. Os especialistas acham o palpite exagerado e apostam entre 40% e 50%.
Arce baseia seu cálculo no número de empresas pré-qualificadas. São seis, e só uma brasileira: a VBC (Votorantin, Bradesco e Camargo Corrêa). Os outros grupos são as americanas Relliant (antiga Houston), American Electric Power (AEP) e AES e a belga Tractebel (controla a Gerasul), além da própria Duke. Para o secretário, as seis poderão se juntar em dois ou três consórcios diferentes. Serão oferecidas 71,7% das ações ordinárias com direito a voto da companhia, correspondentes a 38,66% do capital total.
O vencedor do leilão terá de assumir a dívida de R$ 1,1 bilhão, mas o Governo paulista conta com um chamariz poderoso: o financiamento. O BNDES concordou em financiar o comprador em até metade do preço mínimo. A última vez que a instituição participou de leilão feito em São Paulo foi em novembro de 97, na venda da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). O crédito, segundo especialistas, pode alavancar possível oferta por parte da VBC, enquanto as estrangeiras contam com acesso direto a capitais no exterior.
– Muitas empresas, como a VBC, têm sinergia com a Cesp Tietê – afirmou o secretário.
Não parece ser só conversa de vendedor. O analista do setor de energia do Banco Bozano,Simonsen, Eduardo de La Peña, afirma que a Cesp Tietê, com 2,6 mil megawatts e localização estratégica, pode ser bom negócio para pelo menos dois dos seis grupos que se habilitaram: Duke Energy e VBC. A empresa brasileira já tem participação em duas das quatro principais distribuidoras de energia do estado, a CPFL e a Bandeirante.
Wang Jiang Horng, analista da Planer Corretoras de Valores, não quis apostar no tamanho do ágio porque, segundo ela, ainda é difícil dizer quem está extremamente interessado no negócio. E ela lembrou que no leilão da Paranapanema só duas empresas entregaram proposta. Mas ressalvou também que a situação agora é diferente em razão do financiamento do BNDES.
Na análise de especialista de um banco americano, a Duke Energy deve tentar novamente aumentar sua presença no Brasil. A Tractebel também deve entrar na disputa, "porque está acostumada à volatilidade da economia brasileira". Para esse especialista, a VBC está se movimentando fortemente e deve fazer algum tipo de consórcio. A AES é também outra que poderia figurar como favorita. Reliant e AEP tem menos probabilidades de entrar na disputa, segundo o analista. A Reliant nem mesmo tem negócios no Brasil.
As nove usinas hidrelétricas (Barra Bonita, Bariri, Ibitinga, Promissão, Nova Avanhandava, no Rio Tietê; água vermelha, no Rio Grande; e Caconde, Euclides da Cunha e Limoeiro, no Rio Pardo) que fazem parte do complexo da Tietê têm potência instalada suficiente para suprir uma população de 8,5 milhões de pessoas, correspondente a cerca de 22,7% do atual potencial elétrico do Estado. A próxima empresa a ser privatizada é a Cesp Paraná, ainda sem data definida.
FOLHA DE SÃO PAULO 23 de outubro de 1.999
PRIVATIZAR O QUE RESTA DA CESP É UMA INSENSATEZ
Joaquim Francisco de Carvalho
Para privatizar a CPFL , a Eletropaulo , a Elektro e a CESP-Paranapanema , as autoridades utilizaram argumentos de que o Estado , endividado , não tem recursos para expandir o sistema elétrico , e de que o governo é mau administrador . Agora , com base nos mesmos argumentos , anuncia-se , para o próximo dia 27 , o leilão da CESP-Tietê .
Os argumentos são insustentáveis , de um lado porque a privatização não expande coisa alguma , resumindo-se em transferir , às vezes até com financiamento do BNDES , para grupos privados (em geral estrangeiros) , aquilo que já existe e funciona muito bem . De outro lado , a memória factual é de que os grupos privados que dominavam o setor elétrico até meados dos anos 50 (Juscelino Kubitschek na presidência da República) , não se interessavam em investir em grandes obras e , muito menos , na formação de engenheiros e técnicos – em quantidade suficiente e qualidade adequada – para administrar , operar e expandir um sistema elétrico da escala do brasileiro . Foi o Estado que fez tudo isso .
Ao contrário do que afirmam os economistas do governo , o Estado sempre arrecadou – e continua a arrecadar – recursos para investir em grandes projetos . Basta que tenha , também , um pouco de competência e probidade . Isto fica evidente ao constatar-se que se apenas uma fração da quantia dissipada no PROER tivesse sido destinada a um programa de saneamento financeiro das estatais do sistema elétrico , arruinadas por administradores corruptos e incompetentes (dentre os quais estão vários néo-privatistas) , o setor já teria recuperado sua capacidade de expandir o sistema . Ainda haveria tempo para se estruturar um programa desse tipo , e um governo honesto deveria esforçar-se ao máximo para fazê-lo , sem privatizar nada . De fato , como todos sabem , energia elétrica é um monopólio natural que , nas mãos de grupos privados , cuja razão de ser é o lucro , transforma-se em terrível instrumento de concentração de renda e exploração da economia popular . Privatizar o sistema elétrico é uma grande injustiça , ainda mais porque foi a coletividade que , ao longo de muitas décadas , pagou pesados impostos e submeteu-se a um processo de acumulação de renda forçado pela política de salários reprimidos , para que o Estado construisse o sistema elétrico , que o atual governo está alienando .
O investimento é o componente que mais pesa na formação do custo da eletricidade e , no caso do sistema paulista , sua depreciação contábil já é altíssima , por força da elevada idade das usinas , linhas de transmissão e redes de distribuição . Graças a isso a tarifa ainda é acessível , mesmo para as camadas mais pobres da população . Se o governo privatizar as duas empresas que restaram da CESP , abrirá caminho para a formação de monopólios e cartéis que dominarão ambas as pontas do sistema elétrico , ficando livres para compor tarifas com base em valores calculados para garantir-lhes altíssimas lucratividades , sem levar em conta a depreciação contábil dos ativos das empresas , privando a coletividade do legítimo direito de se ressarcir dos sacrifícios com que arcou em sua implantação . O ressarcimento viria na forma de tarifas acessíveis , possibilitadas pela referida depreciação contábil , assim como em reinvestimentos para a ampliação e modernização dos serviços , sem esquecer os gastos em preservação ambiental . Fica então claro que , com a privatização , o governo obriga a sociedade a pagar várias vezes pelo mesmo bem .
Outra grave injustiça da privatização é a de permitir que se concentre , nas mãos de grupos privilegiados , o enorme potencial financeiro do sistema elétrico que , por meio das tarifas , arrecada boa parte da renda dos demais setores da economia . A iniqüidade é ainda maior porque o sistema foi construido com recursos públicos , e funciona com a água que corre nos rios de São Paulo . Em futuro próximo , o sistema elétrico paulista poderá arrecadar mais de US$ 8 bilhões por ano . Por que deixar que grupos estrangeiros remetam essa renda ao exterior ad aeternum , empobrendo ainda mais o nosso povo ? – E se o beneficiado for um grupo nacional que fez doações para as campanhas dos atuais governantes , não ficaria caracterizada a curiosa figura do " suborno a futuro " ?
Além de eticamente deploráveis e economicamente ruinosas , as privatizações são insensatas sob os pontos de vista estratégico e ambiental . De fato , a racionalidade manda que se centralize , sob controle público , a exploração de sistemas hidroelétricos , pois são múltiplos os usos das bacias hidrográficas . Um governo responsável não pode permitir que a operação de usinas elétricas , visando lucros a curto prazo , comprometa o abastecimento de água para as cidades e para a irrigação , ou o uso dos rios para para o transporte fluvial (hidrovias) . Aliás , por motivos semelhantes , os sistemas hidroelétricos são estatais até nos Estados Unidos , onde quase tudo é privado .
Não é plausível que , só por inépcia , os atuais governantes agridam tão violentamente o bom senso , privatizando a CESP-Tietê . O que haverá , então , por trás disso ?
J.F. de Carvalho foi coordenador do setor industrial do ministério do planejamento , diretor da NUCLEN e engenheiro da CESP . Atualmente é consultor no campo da energia e membro do Conselho Consultivo do Instituto de Estudos Estratégicos do Setor Elétrico -ILUMINA .