Prepotentes não aceitam críticas
Por Joaquim Francisco de Carvalho
O presidente da Câmara de Gestão da Crise Energética mandou uma carta ao reitor da USP , com a velada ameaça de processar o professor Ildo Sauer porque este e sua equipe elaboraram um relatório demonstrando, entre outras coisas, que o racionamento não causou prejuízos às empresas distribuidoras de eletricidade, tendo apenas diminuído seus lucros. E, mesmo que tivessem tido prejuízos, aquelas empresas deveriam transferi-los a seus acionistas, pois não é justo que sejam beneficiadas, quando os consumidores, que arcaram com as conseqüências do racionamento, em vez de benefícios, receberam aumentos de tarifas. Em última análise, o professor deseja apenas que prevaleça uma regra básica das economias de livre mercado, qual seja, a de que os empresários devem arcar com os riscos de seus investimentos, já que, quando têm lucros (e sempre os têm), não os dividem com o governo, muito menos com a coletividade.
Vamos fazer algumas continhas de jardim da infância, para entender a questão.
Multipliquemos o valor do consumo total de energia elétrica que, segundo a ANEEL, está em torno de 310 milhões deMWh por ano, pela tarifa média de fornecimento (das distribuidoras aos consumidores finais) que é da ordem de R$ 140,00/MWh . Com essa conta, vemos que o faturamento conjunto do sistema elétrico brasileiro é da ordem de R$ 43 bilhões por ano. Considerando que as distribuidoras compram a eletricidade das geradoras por algo em torno de 45/MWh, conclui-se que a geração bruta de caixa do segmento de distribuição atinge a assombrosa quantia de 29 bilhões de reais, por ano.
Ora, em praticamente todas as médias e grandes cidades brasileiras, as malhas de distribuição já existem e estão no final de seus prazos de depreciação contábil, de modo que é muito baixa a incidência do capital em seus custos. No tocante a novos aportes, essas malhas requerem apenas investimentos marginais em expansão (cerca de 10% do faturamento) e, evidentemente, em operação e manutenção (cerca de 15% a 20% do faturamento).
Salta, pois, aos olhos, que o potencial lucrativo do conjunto das empresas de distribuição de eletricidade brasileiras chega a cerca de 20 bilhões de reais por ano. Isso, aliás, explica a voluptuosa cobiça dos grupos que empurraram a atual administração para o abismo da privatização das empresas de eletricidade.
Seja como for, o governo deveria promover uma auditoria minuciosa e transparente para calcular os verdadeiros lucros das empresas de eletricidade, antes de oferecer-lhes "ajudas" para aumentar ainda mais esses lucros, que certamente são muito maiores que a soma dos lucros que aparecem nos respectivos balanços, que são feitos para esconder tudo.
Vejamos o que aconteceu com o racionamento. Em primeiro lugar, como diria o Conselheiro Acácio, se o racionamento foi de 20%, as distribuidoras venderam apenas 80% da eletricidade que esperavam vender. E o senhor De La Palice acrescentaria que, nesse caso, elas compraram menos 20% de eletricidade das geradoras, além de terem diminuído (porém não linearmente, é verdade) algumas despesas de operação e manutenção. Então onde está o prejuízo ?
Mas a principal crítica do professor Ildo Sauer foi contra o aluguel, por 6,7 bilhões de reais, de termelétricas de emergência (na verdade, ferros-velhos embarcados) que entrariam em operação – e aí a despesa subiria para 11 bilhões de reais – somente se a seca se prolongasse, o que era pouco provável. Sobre esse tema não vou fazer nenhum comentário, pois os leitores já entenderam tudo.
À guisa de moral da história, seria apropriado dizer que, por mais dotados que sejam os nossos mandatários do belo sentimento da generosidade, não é razoável que cheguem ao extremo de distribuir dinheiros pertencentes a um povo paupérrimo, para serem pródigos com empresas que foram compradas na bacia das almas por grupos sediados em países riquíssimos.
Palmas portanto para o professor Ildo Sauer e vaias para a Câmara de Gestão da Crise Energética.
Joaquim Francisco de Carvalho é consultor no campo da energia.